África se prepara para confinamento pelo coronavírus

Homem usa máscara para se proteger do Covid-19 em Craighall Park, Johannesburg, em 23 de março 2020

A África, o continente mais pobre do mundo, se prepara para el confinamento, já em vigor em países como Ruanda, e decretado nesta segunda-feira (23) África do Sul, para combater o novo coronavírus.

O presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, ordenou um confinamento nacional de três semanas a partir da quinta-feira e anunciou que o exército patrulharia as ruas para verificar o cumprimento da medida.

"Um confinamento nacional entrará em vigor por vinte e um dias... A partir de quinta-feira à meia-noite", disse Ramaphosa em discurso na televisão, após declarar na semana passada estado de emergência no país, o mais afetado pela doença na África subsaariana.

A atividade em Lubumbashi - sede da economia mineradora da República Democrática do Congo - e seus quatro milhões de habitantes pararam nesta segunda-feira por 48 horas, por ordem das autoridades provinciais. O motivo: dois passageiros de Kinshasa deram positivo para a covid-19 quando saíram de um voo regular com 77 pessoas.

Cerca de 30 casos foram declarados oficialmente desde 10 de março na RDC - com duas mortes - todos na capital de 10 milhões de habitantes.

Quatro deputados pediram para "colocar Kinshasa em quarentena e isolá-la do resto do país" para impedir a propagação do vírus no território de 2,3 milhões de km2 e pelo menos 80 milhões de habitantes.

Uma reunião sobre o coronavírus está agendada para segunda-feira à tarde na presidência da RDC.

Na África Ocidental, a Costa do Marfim decretou nesta segunda-feira estado de emergência, toque de recolher e confinamento progressivo.

Por sua parte, o presidente senegalês Macky Sall também decretou um estado de emergência e um toque de recolher. Se medidas estritas não forem aplicadas, o país corre o risco de afundar em uma "catástrofe pública", alertou.

Com 79 casos anunciados oficialmente - sem mortes - o Senegal é um dos países da África Ocidental onde o coronavírus está mais presente.

Em Burkina Faso - com um total de 99 casos - as autoridades "contemplam cada vez mais um confinamento total da população em um período de duas a três semanas", segundo uma fonte de segurança.

Na África Central, o presidente do Gabão, Ali Bongo Ondimba, anunciou restrições noturnas ao movimento das 19h30 às 06h00, que começaram a valer no domingo.

No vizinho Camarões (56 casos), o confinamento ainda está em debate. "Esperamos que não tenhamos que confinar o país inteiro", disse a ministra da Saúde Malachie Manaouda no domingo.

Ruanda (17 casos relatados) proibiu "movimentos não essenciais" desde sábado. "Duas semanas sem trabalho em uma cidade onde tudo é caro é uma sentença de morte", diz Alphonse, 29 anos, que trabalha em seu táxi.

Desde sexta-feira, os 1,3 milhão de habitantes das Ilhas Maurício, localizados a 1.800 km da costa leste da África, devem permanecer confinados em suas casas por 14 dias.

A Nigéria está tentando aplicar as medidas já em vigor, começando com a proibição de multidões.

"O que vamos comer, o que nossos clientes vão comer?", questiona Alice, uma fornecedora de frutas e legumes, indignada. "Pago (meus legumes) a crédito e agora não posso mais vendê-los. Precisamos sobreviver, não posso ficar em casa!", reclama.

"Na realidade, o confinamento parcial ou total corre o risco de ter efeitos desastrosos para o continente africano", avalia a famosa escritora camaronesa Calhixte Beyala, em sua página no Facebook.

"A população mais desfavorecida será a primeira vítima, eles morrerão de fome ou então seu corpo enfraquecido pela desnutrição, o que os tornará mais propensos a contrair a doença", disse.

"Precisamos encontrar estratégias de emergência para a África que melhor respondam às necessidades de nossos povos", concluiu a escritora.