Água em lata consumida por Bonner é mais sustentável? Entenda

Quem acompanhava a apuração dos resultados das eleições 2022 no último domingo, dia 30, pela Globo ficou curioso(a) com o som de uma lata sendo aberta ao vivo, em rede nacional, após o apresentador William Bonner dizer que iria fazer uma pausa para beber água. A dúvida sobre qual a bebida que, de fato, o jornalista estava consumindo gerou comentários da audiência nas redes sociais e o levou a se explicar, mostrando a latinha de água - e não cerveja, como muitos imaginaram.

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A estranheza gerada pelos telespectadores é compreensível, já que, no Brasil, a principal embalagem de água para consumo é plástica, a garrafa PET. Mas o tema levanta outra dúvida: seria a latinha uma alternativa melhor, mais sustentável do que a garrafa plástica, para consumo de água mineral?

O Prática ESG foi pesquisar sobre o assunto e falou com alguns especialistas e para entender as diferenças, em termos de sustentabilidade dos três materiais hoje usados: PET, caixa de papel e lata de alumínio.

O que é mais sustentável?

Do ponto de vista ambiental, qual embalagem é mais sustentável? A primeira questão, na verdade, a ser respondida é: melhor em que sentido?

- Quando falamos sobre uma embalagem ser melhor do que outra, é importante pontuar: melhor para o quê? Para emissão de carbono, para a pegada hídrica, para o pós-consumo, para a sustentabilidade de um ciclo de vida como um todo? A resposta não é tão simplista, já que alguns materiais são melhores em alguns aspectos, mas piores em outros - pontua Stelvio Mazza, CEO da Já Fui Mandioca, indústria que fornece embalagens produzidas a partir de fécula de mandioca para comércios e companhias.

Guilherme Brammer, engenheiro de materiais e CEO da Boomera Ambipar, empresa B Corp reconhecida pelo World Economic Forum como umas das startups que estão tornando a América Latina mais sustentável, entra um pouco mais no detalhe.

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-A análise do ciclo de vida (life-cycle assessment), é fundamental para escolher que tipo de material é mais sustentável naquela região do mundo. Existem ferramentas hoje para entender quão agressiva é hoje a extração daquele material no meio ambiente para ele virar um produto de novo - comenta ao Prática ESG.

Por análise de ciclo de vida, no caso das embalagens, ele quer dizer mensurar o impacto ambiental de uma desde a extração das matérias-primas na natureza, passando pela transformação em um novo produto, a ida à indústria, envase, venda e a coleta no pós-consumo.

- Quão complexo é extrair bauxita na natureza para fazer uma lata de alumínio e qual o impacto ambiental que tem isso? Qual complexo é extrair petróleo da natureza para fazer plástico, e ele virar um PET, que vai se tornar um produto? E para a produção de caixinha, qual o impacto de se produzir alumínio, plástico e papel para compor a embalagem, sua chegada ao mercado e a taxa de coleta e reciclagem? - aponta Brammer, cuja empresa ajuda outras companhias a mudar a forma de produção em um modelo mais circular.

Para Brammer, é importante analisar quanto do produto original volta a ser produto original, o verdadeiro conceito da economia circular completa. Ou seja, quanto o alumínio vira lata de alumínio de novo, o plástico vira plástico de novo, e a caixinha de papel, alumínio e plástico, que é uma embalagem mais complexa, também volta a ser caixinha novamente.

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Dito isso, vamos a cada uma:

Água em Lata

Considerando a análise da taxa de reciclabilidade dos materiais, a latinha de alumínio, sem dúvida, é um case de sucesso no Brasil. Segundo dados da Associação Brasileira do Alumínio (Abal) e da Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alumínio (Abralatas), o Brasil reciclou aproximadamente 33 bilhões de latinhas de alumínio em 2021, o que equivale a mais de 98% dos produtos consumidos reciclados.

- O conhecimento das pessoas sobre a reciclabilidade dos metais e com isso do alumínio é muito antiga, e isso significa também o conhecimento sobre seu valor de revenda. O alumínio é um material praticamente 100% reciclável; isso significa que ele pode ser reciclado infinitamente sem perder as suas propriedades e pode voltar para as prateleiras como sendo o mesmo produto, (diferente, por exemplo, de vários tipos de plásticos) e isso é fundamental no valor de revenda do material - explicou ao Prática ESG Anne Caroline, catadora e influenciadora digital, em uma entrevista há alguns meses sobre circularidade do alumínio.

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Outra característica que chama a atenção é o consumo até seis vezes menor de água durante a fabricação em comparação com algumas outras embalagens. Porém, o processo de reciclagem exige fornos em altas temperaturas, o que consome muito combustível para a energia.

Algumas indústrias já trabalham com energia limpa, mas se for adicionado combustível fóssil, a conta começa a ficar cara para o meio ambiente.

Segundo Brammer, da Boomera, o alumínio tem a seu favor uma cadeia de produção que já se adaptou para receber latinhas e preparar sucata de alumínio para ser usado no processo produtivo, reutilizando o material.

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A Abralatas viu um aumento no consumo das bebidas na embalagem de alumínio em 2021 da ordem de 5% e espera um crescimento anual do mercado de latas para águas de dois dígitos altos, entre 2023 e 2027.

A Ball Corporation, produtora de embalagens sustentáveis de alumínio, explica que a primeira marca de água em lata chegou ao Brasil em 2020 e as vendas da categoria neste ano até setembro já dobraram em comparação ao ano passado. A expectativa da empresa é chegar à marca de dezenas de milhares de latas somente para esta categoria em 2023.

- Observamos um novo perfil de consumidor nas novas gerações: muito mais atento a hábitos saudáveis para os produtos que consome. Por isso, achamos incrível quando produtos como a água em lata, conectados diretamente com mensagens sustentáveis, ganham atenção - comenta Hugo Magalhães, diretor de Marketing e Novos Negócios da Ball para América do Sul.

Como exemplos de empresas que já oferecem água em lata, ele cita a Minalba, a AMA (marca da Ambev), e a recém-chegada Mamba Water, da Better Drinks.

Água em caixa

No caso papel, que já vem sendo usada para bebidas há um tempo e agora também para venda de água mineral, há questões ambientalmente importantes a serem consideradas antes de taxar como sustentável.

Segundo a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), o Brasil está entre os principais países recicladores de papel do mundo, com 5,1 milhões de toneladas retornando para o processo produtivo em 2018, uma taxa de recuperação estimada de 68% de todo o papel consumido.

O grande benefício do papel é que boa parte do material vem de árvores plantadas (e não desmatamento de mata nativa ou cortes ilegais) e muitas empresas procuram atender parâmetros internacionais de manejo sustentável, como o FSC, sigla de Forestry Stewardship Council.

Porém, vale ressaltar que reciclar é, logicamente, melhor do que produzir mais embalagens com material ‘virgem’, e neste quesito, o papel perde para o alumínio.

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Mas há pontos contras quando analisada a composição da caixinha. Ela não é feita só de papel. As do tipo Tetra Pak, por exemplo, são compostas por papel-cartão, polietileno e folha de alumínio. A mistura dificulta a reciclagem.

- São sete camadas de produtos na mesma embalagem. Pela complexidade maior do processo de reaproveitamento, é uma embalagem que tem uma cadeia menos de coleta e reciclagem - explica Brammer.

Para reciclar a Tetra Pak, é usada água para separar as fibras de papel, que depois é reutilizada, do alumínio e plástico. Esses dois últimos passam, então, por uma segunda etapa, em que se misturam para formar uma resina plástica com alumínio (polialumínio), usado por algumas indústrias.

- Ainda que a embalagem possa conter materiais reciclados, e tenham benefícios na cadeia de produção, o pós-consumo desse tipo de embalagem é um problema para a circularidade - diz Mazza, que completa:

- Mesmo a tampa, que pode ser feita, por exemplo, de cana-de-açúcar não é necessariamente biodegradável. Só é um material menos pior do que a fonte fóssil, mas é plástico do mesmo jeito.

Em comunicação recente à imprensa, a Tetra Pak explicou que vem desenvolvendo pesquisas há anos para tornar suas embalagens mais sustentáveis, aumentando o conteúdo renovável, aumentando, por exemplo, o plástico à base de plantas.

- Para manter o motor da inovação funcionando, a Tetra Pak tem investido 100 milhões de euros por ano e continuará nesta projeção nos próximos 5 a 10 anos a fim de melhorar ainda mais o perfil ambiental das embalagens para alimentos, incluindo pesquisa e desenvolvimento de embalagens feitas com uma estrutura simplificada e mais conteúdo renovável- destaca em material enviado à imprensa.

Água em plástico

No caso da garrafa plástica, apesar de o PET poder ser 100% reciclado e moldado várias vezes, no Brasil, a taxa de reciclagem não passa de 55%, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet), de 2019.

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O processo de reciclagem também só é feito com a garrafa em si, depois de removida a tampa, o lacre e o rótulo, que geralmente são feitos de outro tipo de plástico, o polipropileno. Além de novas garrafas, pode ser usado para carpetes, camisetas, panos de limpeza e outros produtos.

Beatriz Luz, diretora da Exchange 4 Change Brasil, explica que estudos mais recentes, como o da consultoria alemã Sphera, confirmam que o material de maior circularidade ainda é o alumínio. O principal argumento usado é o menor uso de energia na produção de novas latinhas, mantendo assim um alto valor residual no pós-consumo e favorecendo a cadeia reversa.

- No entanto, cresce em ritmo acelerado a reciclagem de PET no mercado, com um aumento significativo do valor do material, pela lei da oferta e da demanda. Hoje, a demanda de PET reciclado já é sensivelmente maior do que a capacidade atual de coleta -, comenta a executiva.

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Ela lembra que o uso de PET para embalar alimentos tem também um grande potencial de aumento de circularidade porque as próprias fabricantes estão investindo em uso de embalagens feitas com materiais reciclados.

- A tendência é que o PET faça frente ao alumínio em pouco tempo - acredita Luz.

Desde 2020 a marca Crystal, da Coca-Cola Brasil, usa garrafas feitas 100% com material PET reciclado. A estimativa era de, em 2021, deixar de utilizar 14 mil toneladas de plástico virgem que seriam consumidas na produção de 700 milhões de embalagens de Crystal.

A Bonafont, marca de água mineral natural da Danone, assumiu o compromisso de recolher e reciclar 100% do volume de plástico que coloca no mercado até 2025, e, no mesmo período, reduzir o uso de plástico virgem em seus produtos, alcançando 50% de Rpet (PET reciclado pós-consumo) em suas garrafas – até 2030, chegar a 100%.

Outras marcas de bebidas têm também investido em reciclagem e estimulado o engradado retornável em refrigerantes e cervejas.

Para Luz, o papel é o menos indicado porque obriga o uso de multicamadas com diferentes materiais, o que torna a sua circularidade um pouco mais complexa, embora possível.

- A solução é investimento em pesquisa e design de embalagens na abordagem da economia circular. Não é só colocar toneladas de embalagens nas prateleiras - atualmente não somos capazes de reciclar nem o que é reciclável. Aí vem a indústria e faz pior, coloca embalagens que são solução para ela, mas ou nem são recicláveis ou para serem recicladas o processo fica muito caro e não compensa pelo valor do produto final e a logística - comenta a influenciadora Anne Caroline.

Para ela, a virada de chave é a responsabilização da indústria pela circularidade das embalagens, ao mesmo tempo em que programas comecem a educar o consumidor para separar e limpar corretamente os materiais, de modo a facilitar também o trabalho dos catadores.