Árabes-israelenses emergem como força na Knesset

Os partidos árabes israelenses elegeram, nesta terça-feira, o maior número de deputados de sua história na Knesset, o Parlamento de Israel, segundo pesquisas de boca de urna. Agora, devem decidir o que fazer com esse capital político.

De acordo com projeções das emissoras de televisão, com 13 deputados, os representantes dos descendentes dos palestinos que permaneceram após a criação do Estado de Israel, em 1948, são agora uma força com a qual se deve contar.

A direita, liderada por Benjamin Netanyahu, não apelará a eles, mas não está definido se o trabalhista Isaac Herzog buscará o apoio dos árabes-israelenses para obter uma maioria parlamentar.

O número um da aliança de partidos árabes, Ayman Odeh, advogado de 40 anos, conquistou uma tripla proeza. Ele reuniu em uma mesma lista judeus e árabes, comunistas, islamitas e nacionalistas árabes. Ele conseguiu mobilizar de árabes israelenses a grandes absenteístas e, sobretudo, permitiu à sua lista existir na campanha.

Este filho de Haifa, a grande cidade mista de Israel, pôs seu discurso tanto ao lado do público árabe como de seus concidadãos judeus. Segundo admitem seus detratores, militou com obstinação impressionante durante a campanha para tecer os laços com todos em Israel que reclamam "a legalidade e a justiça social".

O presidente Reuven Rivlin se reunirá em breve com os representantes de partidos com cadeiras no Parlamento, que irão lhe dizer a quem eles apoiam para o cargo de primeiro-ministro.

A lista árabe poderá propor Herzog ou se abster de bloquear sua investidura, sem fornecer ministros ao seu gabinete. É o chamado "apoio exterior", que os deputados árabes já ofereceram ao trabalhista Yitzhak Rabin no começo dos anos 1990. Até agora, Odeh tem deixado pairar a dúvida. "Primeiro vamos ouvir o que eles vão nos propor", disse à AFP.

'Nós estamos prontos'

"Nós estamos prontos, mas eu duvido que Herzog seja tão corajoso quanto Rabin", afirmou a seus partidários após os primeiros resultados.

Ele diz isto pois o apoio é uma faca de dois gumes para Herzog, que a direita acusa de liderar o "partido do estrangeiro dependente dos árabes", em alusão à sua nacionalidade irlandesa.

Os líderes da lista árabe citam o episódio do último premiê trabalhista, Ehud Barak, que seus eleitores apoiaram maciçamente em 1999, e que não impediu a repressão sangrenta da segunda Intifada e a morte de 13 árabes israelenses nas mãos da polícia em 2001.

Se a "suposta esquerda" chegar ao poder, disse Odeh na noite desta terça-feira, "ela permitirá a Israel recuperar uma pureza aos olhos do mundo". Ora, a linha vermelha da coalizão árabe não será alterada: sem aliança com aqueles que desejam uma guerra contra os palestinos ou apoiam a ocupação.

Ao contrário, ao se isolar na oposição, os árabes israelenses poderiam, asseguram, chegar à presidência das comissões parlamentares. "Nós não podemos ter as comissões da Defesa e das Relações Exteriores, mas queremos as Finanças ou Assuntos Sociais", disse Odeh à rádio pública. Mais de um árabe israelense em cada dois vive abaixo da linha da pobreza.

Se Herzog e Netanyahu formarem um governo de união nacional, Odeh será - um precedente histórico - alçado a líder da oposição e o primeiro-ministro terá que consultá-lo para tomar as grandes decisões.

Odeh também teria o direito de tomar a palavra após o premiê, quando este se dirigir à Knesset ou em cerimônias oficiais.