Árvores próximas da morte em SP levantam temor de 'apagão verde'

EMILIO SANT'ANNA
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 03.03.2020: Árvores Tipuanas na praça Conde de Barcelos, na zona oeste de São Paulo. (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Foram quase 90 anos de trabalhos ininterruptos e gratuitos pela cidade. Da maturidade dessa imigrante argentina brotou a velhice; com ela, a estafa, as doenças, e a aposentadoria inapelável que veio com o corte.

No lugar que ocupava, no Alto de Pinheiros, um retângulo de cimento liso no chão, sem nome, sem data, e sem sucessora à altura, ignora que ali viveu uma das tantas tipuanas de São Paulo.

Ignora também a importância dessas árvores -muitas delas próximas da morte- para a manutenção das condições do meio ambiente urbano, como a regulação da temperatura e as trocas gasosas.

"Elas são como senhoras de 80, 90 anos, mas em má condição de saúde. Como são substituídas por espécies menores, em dez anos, poderemos ter um apagão verde na cidade", diz o botânico Ricardo Cardim, que há uma década se dedica ao assunto.

Espécie exótica, facilmente encontrada em Buenos Aires, as tipuanas foram trazidas para o Brasil, ainda no início do século 20, como parte do processo de urbanização promovida pela Companhia City -empresa fundada em Londres, em 1911, e que se instalou na capital no ano seguinte, com o nome City of São Paulo Improvements and Freehold Land Company Ltda.

Até a década de 1960, era ainda uma das espécies mais plantadas na cidade, assim como as sibipirunas, nativas da mata atlântica, diz Cardim.

Impossível dizer com precisão quantas são ou onde estão -a maior cidade do Brasil tem um inventário de suas árvores, elaborado em 2010 e entregue em 2015, que aponta a presença de 625 mil unidades (sem contar as que estão em parques e praças) mas não individualiza as espécies.

Há também um levantamento das espécies presentes na capital, de 1988, feito a na gestão de Jânio Quadros na prefeitura, além da lei municipal de arborização, de 1987.

Para Cardim, o problema maior é que, com as tipuanas perto do fim da vida, o plano de manejo e a substituição por espécies de porte e valor ambiental equivalente não é devidamente cumprido.

"Se você perde uma tipuana e planta um ipê branco no lugar, por exemplo, essa árvore nova vai equivaler a um galho da antiga. Estamos substituindo grande parte dessas espécies por árvores anãs."

Além disso, a mera reposição não é garantia de sucesso se não houver acompanhamento adequado. Um exemplo disso ocorreu na gestão de Paulo Maluf (1993-1996), com o programa "1 milhão de árvores". Segundo a secretaria do Verde e do Meio Ambiente disse na época, das 500 mil árvores plantadas, só 146 mil sobreviveram.

Algumas espécies que poderiam ser introduzidas no lugar das tipuanas prestes a se aposentar, diz o botânico, são o pau-viola, a copaíba e o jacarandá paulista, árvores de grande porte e equivalentes em serviços ambientais.

Para o diretor do Instituto de Biociências da USP, Marcos Buckeridge, a cidade perde sem árvores como as tipuanas, mas é precipitado falar em apagão verde.

"Em termos de sombreamento, sim, mas em termos de [produção] de vapor d'água algumas espécies podem ser iguais", diz Buckeridge, que também é coordenador do Programa USP Cidades Globais, no Intsitituto de Estudos Avançados. "Não consigo te dar um dado científico que dê suporte à afirmação que podemos ter um apagão."

Buckeridge lembra que nem só o porte das árvores conta no peso dos serviços ambientais. Fatores como o tamanho da folha e a dinâmica da abertura e fechamento dos estômatos (estruturas celulares que fazem as trocas gasosas com o meio ambiente) são importantes para definir o peso ambiental da espécie.

De acordo com um técnico contratado pela prefeitura para coordenar podas e remoções, que pede para não se identificar, a cidade pode passar por um apagão definitivo, mas sim temporário, no período entre o fim do ciclo de vida de árvores de grande porte e o crescimento das novas.

Ele ressalta, porém, que árvores com o porte de tipuanas nas ruas podem causar problemas para a cidade como a quebra de calçadas e interferência na fiação elétrica. Mesmo com a troca por espécies nativas, o que deve ocorrer é a substituição por árvores de estatura e copa médias, diz.

Ele afirma que muitas espécies menores e exóticas são plantadas pelos moradores.

O bairro em que viveu a imigrante argentina do início deste texto, o Alto de Pinheiros, surgiu de um loteamento da Companhia City, na década de 1920. Com ruas arborizadas e calçadas verdes, à primeira vista não há nada que aponte para algum problema.

Em algumas vias, um túnel verde de tipuanas em ambas as calçadas formam sombra durante o dia. Em outras, porém, árvores de menor porte não chegam nem perto do efeito das anciãs portenhas.

Nas ruas que circundam a praça Conde de Barcelos, ipês amarelos e resedás, nativos da Ásia, ocupam os lugares que já foram de árvores maiores. No mesmo quarteirão, tipuanas frondosas revelam cicatrizes de podas malfeitas por onde doenças se instalam.

Em outros pontos, há vias como a alameda Santos, nos Jardins, que já foram verdadeiros corredores verdes formados por tipuanas, diz Cardim.

"Se elas tivessem sido repostas por espécies equivalentes teríamos hoje árvores com muito tempo de serviços ambientais pela frente", afirma ele, que diz se lembrar da rua mais verde do que hoje.

No caso da senhora do Alto de Pinheiros resta um retângulo de cimento liso no chão.

NOVO PLANO

De acordo com o secretário adjunto do Verde e do Meio Ambiente, Luiz Ricardo Viegas de Carvalho, a cidade terá ainda neste ano novos plano de arborização -previsto para junho- e levantamento das espécies que vivem na capital paulista. "Essa é uma ferramenta que já deveria ter sido feita. A estratégia da agenda verde ficou parada no tempo", diz.

Segundo ele, o que temos hoje são indícios de onde estão a maioria das espécies. Sabe-se, por exemplo, que as árvores com as copas maiores, e maior peso nos serviços ambientais, se concentram nos distritos da região central.

O novo manual de arborização de São Paulo prevê o uso de espécies nativas da mata atlântica e regulamenta as substituições por árvores de porte semelhante, respeitando as características locais como o tamanho da calçada e a presença de fiação elétrica.

"O estado faz seu inventário florestal de dez em dez anos. Aqui, ficamos 32 anos sem fazer o mapeamento", diz Viegas

Ele afirma que a cidade não corre o risco de sofrer um apagão verde nos próximos anos. Primeiro porque prepara um novo plano de arborização; segundo, por sua localização próxima a regiões de mata atlântica, com espécies que podem facilmente se adaptar.

Viegas, porém, não desconsidera os vazios verdes da capital, como a zona leste, a segunda região da cidade com o maior percentual verde, mas também a com a maior população. "Temos regiões de expansão como a zona leste em que esse processo de arborização precisa ser intensificado", pondera ele. "Hoje, estamos numa situação mediana."