'É como entrar no cheque especial aguardando um 13º que pode não entrar a tempo', diz infectologista sobre uso indevido de 2ª dose da vacina

João Pedro Fragoso
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RIO - A falta de controle sobre a aplicação de vacinas contra a Covid-19 em nos municípios de São Gonçalo e Duque de Caxias tem gerado preocupação não só a secretaria estadual de Saúde, mas também especialistas do setor. Segundo Celso Ramos Filho, infectologista, epidemiologista e professor da faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o principal risco oferecido pelo não cumprimento do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação é a possibilidade de faltar a segunda dose da vacina para grupos de risco.

- A segunda dose é o reforço. Se eu tenho um número X de vacinas para um determinado número de pessoas, e eu uso para vacinar mais, corre o risco de eu não ter pra vacinar na segunda dose e eu perder o reforço da imunização. É como se alguém resolvesse entrar no cheque especial aguardando o 13º e o patrão avisa que houve um problema e só vai depositar o 13º em janeiro - disse o médico.

Em São Gonçalo e Duque de Caxias, idosos que receberam a primeira dose na semana passada não receberão a segunda dose nesta segunda-feira. As prefeituras explicaram que o foco será a imunização de profissionais da saúde. Em ambas as cidades, houve vacinação de pessoas pertencentes a grupos que não são prioritários de acordo com o plano nacional de vacinação contra a Covid. O Ministério Público do Rio de Janeiro chegou a notificar as prefeituras dos dois municípios, cobrando explicações sobre o caso. Para Celso Ramos Filho, o problema da falta de controle nas vacinações municipais também passa pelo governo federal.

- Se nós tivéssemos uma logística adequada da vacina para Covid, estaria tudo ok. Se não estivéssemos só com duas vacinas, se estivéssemos com mais de duas opções, com um fornecimento garantido, se tivéssemos iniciado a vacinação com um numero certo para vacinar os idosos, tudo bem... Mas o Brasil só vacinou 2% da população. Levamos um mês. Se mantivermos esse ritmo, leva 10 meses para vacinar 20% da população. A questão é essa. O nosso planejamento de vacinação que deveria ser federal, simplesmente não existe. O governo só decidiu comprar vacinas quando não tinha outro jeito. É só vermos o Canadá, que encomendou 4x mais vacinas do que o número da população - afirmou.