É #FAKE que chá da casca de quina quina seja eficaz contra o coronavírus

Roberta Pennafort (CBN)

RIO - Circulam nas redes sociais várias mensagens que dizem que o chá feito com a casca da árvore quina quina é eficaz para inibir a infecção pelo coronavírus e curar a Covid-19. É #FAKE.

As mensagens – algumas delas compartilhadas, inclusive, por médicos – afirmam que a quina quina (conhecida também como murta-do-mato), árvore baixa encontrada em áreas do Norte e do Nordeste brasileiro e usada por comunidades locais com fins medicinais, "foi a grande inimiga da malária, e agora é do tal coronavírus".

Um vídeo ensina a fazer o chá a partir das cascas da planta, que podem ser extraídas da natureza ou compradas em lojas de produtos naturais. Há também anúncios da bebida pronta, anunciado como o “chá que previne e combate a Covid-19”. O preço: R$ 30 a garrafa de 220 ml.

Os boatos se baseiam na presença da quinina ou quinino na casca da quina quina. As mensagens fazem um paralelo com a cloroquina. O antimalárico vem sendo propagado como uma possível cura para a Covid-19 até pelos presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump, embora estudos mostrem que a cloroquina não tem eficácia no tratamento do coronavírus.

Médicos entrevistados pela CBN afirmam que não há evidências científicas de que o chá de quina quina possa prevenir a Covid-19 tampouco tratá-la. Eles alertam ainda para o fato de que a cloroquina não poder ser usada como parâmetro, uma vez que pesquisas mostram que a droga não traz benefícios aos pacientes infectados pelo coronavírus, e ainda pode causar efeitos colaterais indesejáveis, como arritmias cardíacas.

A infectologista Eliana Bicudo, assessora técnica da Sociedade Brasileira de Infectologia, lembra que não existem remédios caseiros que possam combater o vírus. “A população não deve apostar nesse chá. Não funciona. Quem faz uso do chá pode ter a falsa sensação de proteção e abrir mão do isolamento social, do uso de máscara e da higienização frequente das mãos. A doença causada pelo novo coronavírus é um grande desafio para todos, inclusive para a comunidade científica. Não ter remédio que possamos usar causa medo e, por isso, a população tende a recorrer a artifícios, chás, banhos, raízes, popularmente utilizadas para várias doenças.”

Segundo a médica, não se pode comparar um chá a um remédio. “Para você ter o princípio ativo de um remédio num chá, neste caso, o quinino, tem que extrair muita quantidade. O chá de quinino é usado popularmente para malária, mas não trata a doença quanto mais o novo coronavírus. Mesmo a cloroquina e a hidroxiclorquina não tratam nem previnem a Covid-19. Só existem estudos sem rigor científico.”

O infectologista Ralcyon Teixeira, diretor da divisão médica do hospital Emílio Ribas, reforça que o chá pode fazer mal à saúde se tomado em grande quantidade. “Além disso, não trará benefícios. Isso não faz qualquer sentido. A cloroquina tem uma molécula do quinino. É por isso que falam dos chás e também da água tônica. Mas não há qualquer evidência de que cure”.

A respeito da mensagem que diz que a água tônica é uma arma contra o coronavírus, a equipe do Fato ou Fake já mostrou que se trata de outra informação falsa. O refrigerante tem sulfato de quinina, ou quinino, substância usada contra a malária antigamente. Só que mesmo que o quinino tivesse ação contra o coronavírus, a concentração na bebida é muito pequena. Além disso, o pneumologista Rodolfo Fred Behrsin, professor do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle, explica que, devido ao uso indiscriminado, as variedades de malária presentes no Brasil ficaram resistentes ao quinino, e foi necessário substituí-lo pela hidroxicloroquina e pela cloroquina. "A gente pode dizer que essas são substâncias ‘parentes’ do quinino, mas são medicamentos diferentes.”

Consultora da Socidade Brasileira de Infectologia e médica do Hospital Aviccena Rede Dor, em São Paulo, a infectologista Roberta Schiavon Nogueira alerta: “O uso de substâncias como chá, refrigerante ou outras que possuam quinino só traz benéfico para os seus produtores, que venderão mais seus produtos e ganharão mais dinheiro. Se ingerido em excesso, o chá pode alterar a mucosa gastrointestinal, causando desde um leve desconforto gástrico até quadros graves de diarreia. Em altíssimas doses, poder gerar arritmias cardíacas”.

Ela sublinha que não há consenso sobre a cloroquina – que vem sendo defendida pelo presidente Jair Bolsonaro como tratamento para Covid desde os primeiros sintomas. Um novo protocolo para o uso do remédio mesmo em pacientes com quadros leves de Covid-19 (e não só nos casos graves, em caráter experimental, como estava estabelecido) deve ser anunciado pelo Ministério da Saúde.

“Atualmente, os principais trabalhos publicados em revistas científicas renomadas, como ‘Jama’, ‘Nature’ e ‘New England’, já mostram de forma bem clara que a cloroquina ou hidroxicloroquina não trazem qualquer benefício para doentes com Covid-19”, diz Roberta.

O infectologista e epidemiologista Bruno Scarpellini, doutor em doenças infecciosas e pesquisador associado do Laboratório de Retrovirologia da Unifesp, reforça que se a eficácia de medicações derivadas do quinino só foi comprovada até o momento em laboratório, não será o chá que irá curar alguém.

“Não existem estudos em seres humanos que comprovem essa eficácia, efetividade nem segurança. Os estudos recentes com a cloroquina e a hidroxicloroquina não se mostraram nem seguros nem eficazes para pacientes com coronavírus. Portanto, a gente não pode recomendar o uso de chá de quina quina, independentemente da dosagem.”

A infectologista Ingrid Cotta, médica da Beneficiência Portuguesa de São Paulo, aponta para o risco de intoxicação. “A toxicidade de uma substância pode afetar a pessoa numa única exposição ou no consumo excessivo. Há que se ter cuidado na ingestão de substâncias que não são comprovadamente eficazes contra o vírus.”

A Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde reiteram que não existem remédios caseiros que possam curar a Covid-19 nem evitar a infecção pelo novo coronavírus até agora. O isolamento social é considerado o melhor meio para a população não se expor ao vírus.