É #FAKE que foto mostre caixão enterrado vazio para inflar dados de mortos por coronavírus em Manaus

Roberta Pennafort (CBN)

Uma foto de um caixão vazio e aberto circula na internet. Junto dela está uma outra imagem de uma vala comum e a informação de que caixões sem corpos estão sendo enterrados em Manaus para que a população fique impressionada e acredite que o número de mortos pelo novo coronavírus é maior que o real. É #FAKE.

A imagem de um caixão com apenas um saco plástico em seu interior, que tem sido compartilhada nas redes sociais, diz: “Denúncia gravíssima. Na Amazônia, caixões vazios. Só para causar pânico na população com número alto de óbitos por Covid-19”. Uma outra mostra uma vala comum sendo aberta num cemitério em Manaus com uma retroescavadeira.

A foto do caixão vazio não foi nem sequer tirada na cidade. Ela foi feita em São Carlos (SP) há três anos e veiculada pela imprensa para ilustrar uma reportagem sobre um golpe do seguro: criminosos forjaram a morte de uma pessoa para receber valores de apólices feitas irregularmente, usando documentos dela. O crime foi descoberto e o caixão foi fotografado aberto, sem um corpo dentro. Ou seja, a imagem nada tem a ver com a pandemia de Covid-19.

A outra foto foi colocada junto para dar uma falsa impressão de correlação. A abertura de valas comuns no maior cemitério de Manaus, porém, foi amplamente divulgada nas últimas semanas. Foi uma forma que as autoridades públicas encontraram de dar celeridade aos sepultamentos com o aumento da demanda. Ou seja, a foto é verdadeira, mas a informação de que são caixões vazios contidos nela é totalmente falsa.

O Amazonas é o quinto estado brasileiro em casos de coronavírus. Além disso, já são 380 os óbitos registrados no estado pela Covid-19. Em Manaus, já foram confirmados 3.273 casos de coronavírus, e 268 pacientes estão internados. Os casos suspeitos somam 954 (também hospitalizados). Oficialmente, as vítimas da doença são 77, mas é possível que esse número seja sete vezes maior, descontada a subnotificação.

A prefeitura da cidade refuta a informação de que caixões estejam sendo sepultados sem cadáveres dentro nos cemitérios públicos da cidade. “O número de sepultamentos mais que triplicou nas últimas semanas, saindo de uma média diária de 30 (antes da pandemia) e já ultrapassando os 100 enterros”, informa.

“Com a alta demanda, a Secretaria Municipal de Limpeza Urbana adotou, no cemitério Nossa Senhora Aparecida, no bairro Tarumã, na Zona Oeste da cidade, o sistema de trincheiras (valas comuns), para fazer o sepultamento preservando a identidade dos corpos e os laços familiares”, diz a prefeitura.

A situação ficou dramática no estado neste mês de abril, em especial na capital. Do dia 1º ao dia 25 foram realizados 1.815 sepultamentos nos cemitérios públicos de Manaus. A prefeitura ressalta que a maior parte dos óbitos é por síndromes respiratórias compatíveis com a doença provocada pelo novo vírus.

Em nota, a administração municipal explica que “o número de enterros por Covid-19 corresponde ao número de casos confirmados pelo órgão responsável, nesse caso, a Fundação de Vigilância em Saúde, do governo estadual". "Por outro lado, o aumento na demanda de sepultamentos está muito acima dessas confirmações, e a maior parte se dá por síndrome ou insuficiência respiratória, além de causas indeterminadas ou desconhecidas, como estão sendo registradas no atestado de óbito.”

No último fim de semana, por exemplo, de acordo com a prefeitura, dos 244 sepultamentos ou cremações, apenas 16 tiveram como causa oficial a Covid-19. Mas a alta na demanda leva a crer que muitos casos ainda não confirmados são mesmo da doença, só não tiveram resultados de testes.

O que está por trás de mensagens como essas é a tese de que a crise do coronavírus não é tão grave no Brasil. Isso não é verdade. Segundo levantamento exclusivo do G1 junto às secretarias estaduais de Saúde, já há 5,6 mil mortes provocadas pela Covid-19 no país. Os casos começaram a ser registrados no fim de fevereiro, e o número de óbitos superou o da China, onde a pandemia teve início em dezembro do ano passado. Os números, porém, são ainda maiores que os divulgados oficialmente em razão da subnotificação.