É #FAKE que isolamento social faça contaminados respirarem o próprio vírus e assim aumentam carga viral

Roberta Pennafort (CBN)
É #FAKE que isolamento social faça contaminados respirarem o próprio vírus e assim aumentam carga viral

RIO - Está sendo compartilhado nas redes sociais que pessoas contaminadas pelo coronavírus isoladas em casa, como forma de evitar a propagação do vírus, têm a carga viral aumentada por “autocontaminação”. É #FAKE.

A mensagem que está circulando acompanha uma reportagem sobre a chamada imunidade de rebanho e induz quem lê a pensar que os contaminados devem abandonar o distanciamento social – preconizado pelas autoridades de saúde como forma de se conter a disseminação do vírus.

A legenda diz: “É tão óbvio isso. A Itália foi a maior prova de que as pessoas trancadas em casa respiram o próprio vírus, aumentando a carga viral da Covid-19, gerando uma espécie de superdosagem e tornando a gripe chinesa, que era leve, em grave ou fatal”.

O “alerta” não faz qualquer sentido, segundo especialistas entrevistados pela CBN. O infectologista Leonardo Weissmann, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologista, afirma que não existe a possibilidade de “autoinfecção” pelo coronavírus. “Quem elimina o vírus na respiração não se ‘autocontamina’, e não existe nada disso de ‘superdosagem’. Trata-se de mais uma bobagem sem qualquer evidência científica”, diz Weissmann.

“Além do mais, com os conhecimentos que temos até este momento, é possível afirmar que a carga viral não é o único fator que vai determinar quem ficará doente ou morrer. Isso dependerá de outros aspectos, como genética, defesa do organismo e as mutações do vírus”, ele explica.

Quanto à questão da imunidade de rebanho, que é um efeito de proteção coletivo quando uma determinada porcentagem dos habitantes de uma região desenvolve anticorpos contra uma doença, ele aponta que ainda há muitas dúvidas: a Covid-19 foi descoberta há poucos meses e a pandemia ainda está em curso.

“No caso da Covid-19, não sabemos com certeza que porcentagem é essa, isto é, quantos por cento da população precisa ser infectada para que o vírus não circule mais e a doença desapareça. Além de não sabermos essa taxa, também não se pode afirmar que aqueles que tiveram a doença terão a imunidade por toda a vida e não serão infectados novamente”, esclarece Weissmann.

“Talvez essa imunidade de rebanho seja alcançada algum dia, quando tivermos uma vacina específica contra o vírus, e que tenha sido recebida por grande parte da população. Por enquanto, é necessário continuarmos com as medidas de distanciamento entre as pessoas, usarmos máscaras e fazermos a higienização frequente das mãos”, continua.

O virologista Rômulo Neris, doutorando pela UFRJ, reforça que não há cabimento em falar que a carga viral e a severidade da doença no indivíduo contaminado está associado a respirar o vírus em casa. “Eliminar vírus na respiração ou na fala acontece frequentemente, em várias doenças respiratórias, e isso não parece alterar significativamente a carga viral da pessoa. Ao mesmo tempo, respirar o próprio vírus expelido também não seria o suficiente para potencializar a infecção”.

A explicação é simples, de acordo com Neris: o organismo infectado produz de milhões a bilhões de vezes mais vírus do que o eliminado na respiração. “Existe um risco real de superexposição apenas em indivíduos que nunca foram infectados, e isso pode ser evidenciado pelo alto número de vítimas da Covid-19 entre profissionais da saúde da linha de frente”, afirma.

Ele explica também que o conceito de imunidade de rebanho, ou de imunização em massa da população, geralmente é utilizado para descrever a imunização após eventos de vacinação em massa – o que não é o caso agora.

“Durante surtos - especialmente nessa pandemia de Covid-19 - a relação da circulação da doença com a taxa de proteção não está claro. A cidade de Bergamo, na Itália, tem metade da população com anticorpos contra o novo coronavírus, mas isso depois de ser uma das cidades mais afetadas pelo surto na Itália, chegando a 568% mais mortes que sua série histórica nos últimos 4 anos”, destaca o virologista.

“Além disso, imunidade de rebanho está associada a uma proteção coletiva pela permanência de indivíduos imunizados na população. E estudos recentes sugerem que os níveis de anticorpos contra o novo coronavírus diminuem após alguns meses, o que pode favorecer a recirculação da doença”, sublinha.

A pneumologista Patricia Canto Ribeiro, da Escola Nacional de Saúde Pública, lembra que o espalhamento do coronavírus se reduzirá quando um determinado percentual da população já estiver acometido, mas ainda não se pode relaxar no distanciamento social. Por conta do alto número de mortos que isso pode acarretar, na esteira de um colapso no sistema de saúde.

“A explicação é: quanto menos pessoas suscetíveis, menos o vírus circula. Esse percentual é variável de acordo com o tipo de vírus. Inicialmente, a estimativa para a Covid-19 era de que seriam necessários 70% das pessoas contaminadas para se atingir a imunidade de rebanho. Só que o número de mortes seria muito elevado, com todos adoecendo ao mesmo tempo. Não há sistema de saúde que dê conta. As mortes ocorreriam por falta de assistência”, ressalta.

A médica chama a atenção para a necessidade de quarentena para pessoas sintomáticas, por duas semanas. “Pessoas contaminadas não podem sair de casa, salvo para buscar atendimento médico. Quando se está sintomático é o período de maior eliminação do vírus, com chances de transmissão elevadas. A casa pode ficar ventilada, janelas abertas. E as medidas de higiene têm que ser adotadas”, diz Canto Ribeiro.

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