É #FAKE que operação da PF fez cidade do Rio de Janeiro excluir 1,1 mil mortes por Covid-19 da estatística oficial

Roberta Pennafort (CBN)
É #FAKE que operação da PF fez cidade do Rio de Janeiro excluir 1,1 mil mortes por Covid-19 da estatística oficial

RIO - Mensagens têm viralizado nas redes sociais dizendo que mortes pela Covid-19 na cidade do Rio de Janeiro foram retiradas da estatística oficial em razão da operação da Polícia Federal realizada no escopo das investigações sobre irregularidades na compra de equipamentos para conter a doença. É #FAKE.

A Secretaria Municipal de Saúde rebate a informação: “É mentirosa, fake news. Não procede de forma alguma a afirmação”.

A operação “Placebo”, realizada pela PF na terça (26), diante de suspeitas de desvios em ações que visam conter a pandemia de coronavírus, como a compra de respiradores, foi centrada no governo do estado do Rio, não no município.

Foram cumpridos 12 mandados de busca e apreensão, inclusive nos endereços do próprio governador Wilson Witzel e da primeira-dama, Helena Witzel: o Palácio Laranjeiras, residência oficial, e a casa do casal, no bairro do Grajaú.

A questão da contagem de mortes citada na mensagem falsa envolve a prefeitura, não o governo do estado. A mensagem usa a foto de uma tela de TV com uma reportagem da GloboNews, em que se lê: “Prefeitura do Rio exclui 1.177 mortos da estatística de Covid-19”. A reportagem em nenhum momento diz que o fato teve a ver com a operação da PF.

A alteração na contabilização ocorreu apenas no mesmo dia. Foi quando o Painel Rio Covid-19 passou a considerar os dados dos atestados de óbitos fornecidos pelos cemitérios – via Coordenadoria Geral de Controle de Cemitérios e Serviços Funerários (da Secretaria Municipal de Infraestrutura, Habitação e Conservação) – em detrimento das informações dos hospitais onde os pacientes passaram e foram testados para o coronavírus – via Secretaria de Saúde.

A diferença, a depender da fonte de informação, se dá porque muitas vezes o paciente morre em decorrência da Covid-19, mas isso não chega a constar do atestado de óbito, por falhas ou atrasos.

Dessa forma, as 2.978 mortes na cidade do Rio passaram a ser 1.801. Ou seja, 1.177 a menos – por isso as mensagens falsas falam em “mortos ressuscitados” e “milagre”. Ou seja, houve, de fato, uma diminuição momentânea de óbitos na divulgação dos dados no Rio, mas isso não teve qualquer relação com a ação policial, como afirma a mensagem falsa.

A mudança na metodologia criou uma discrepância entre as estatísticas estaduais e municipais, e foi muito criticada por especialistas, que afirmaram se tratar de um empecilho para se avaliar o real avanço do coronavírus no Rio. A alteração foi encarada como uma manobra da prefeitura para falsear a gravidade da situação no Rio e para poder respaldar sua intenção de reabrir o comércio e reanimar a economia.

A tese foi reforçada pelo fato de o prefeito Marcelo Crivella ter estado com o presidente Jair Bolsonaro – que é contra as medidas de distanciamento social que vigoram no Rio e em outras capitais – no dia 21, ou seja, cinco dias antes da mudança na divulgação dos dados. Ao deixar a reunião com Bolsonaro, em Brasília, Crivella afirmou que pretendia afrouxar a quarentena na cidade (o que ainda não aconteceu).

Na quarta-feira (27), por força de uma decisão judicial, o município voltou atrás na forma como dispõe os dados no Painel Covid-19. A decisão liminar do Tribunal de Justiça foi em resposta a uma provocação da Defensoria Pública do Rio e do Ministério Público Estadual, e obrigou a prefeitura a voltar a informar as mortes, com destaque, de acordo com a contagem dos hospitais.

A tela do painel ficou assim: de um lado, aparece o número de óbitos oficial do Ministério da Saúde (os mesmos da Secretaria de Saúde do estado); de outro, a contagem referente aos dados de sepultamentos.

A prefeitura já estava sendo criticada pela população e por especialistas que usam as informações oficiais em suas análises por conta de um apagão nos dados, ocorrido antes da mudança. Durante uma semana, os números deixaram de ser divulgados.

Procurada pela CBN, a Secretaria Municipal de Saúde diz que os dados sobre sepultamentos de pessoas que morreram por Covid-19 “traduzem em tempo real o número diário de mortes pela doença na cidade, diferentemente dos dados da Vigilância em Saúde”. E que isso, segundo a pasta, justifica a divulgação dessa forma.

“Trata-se de uma informação complementar, com outra metodologia, para ajudar a entender a dinâmica dos óbitos pela doença de forma mais imediata. Os dados analisados pela Vigilância em Saúde, conforme orientação do Ministério da Saúde, se referem aos óbitos investigados e qualificados para a confirmação. Essa investigação é dependente de notificação pelo serviço de saúde, resultado de exames e análise de dados de declaração de óbitos pelo Sistema de Investigação de Mortalidade. Este processo gera um dado final, porém, com temporalidade posterior”, explica o comunicado.

A secretaria salienta que não houve qualquer mudança nos esforços contra o coronavírus. “As ações para conter o avanço da Covid-19 continuam sendo tomadas com base nos dados epidemiológicos, de acordo com critérios do Ministério da Saúde”, diz o texto oficial.