É #FAKE que resultado de teste de Covid-19 saia mais rápido para os mortos que para pacientes vivos

Roberta Pennafort (CBN)

RIO - Circula nas redes sociais a informação de que o teste para Covid-19 tem resultado “na hora” no caso de pacientes mortos e que a análise leva de 10 a 20 dias se a pessoa está viva. É #FAKE.

Os principais exames para detecção de coronavírus são o RT-PCR em tempo real, que informa a presença do SARS-CoV-2, e os imunológicos (testes rápidos ou sorologia), que fazem a pesquisa de anticorpos. O fato de a amostra biológica ter sido colhida de um indivíduo vivo ou post mortem não influi na rapidez do resultado, esclareceram o Ministério da Saúde e também médicos ouvidos pela CBN. O que impacta é a demanda da testagem, que cresce junto com o número de casos de Covid-19, explicam os especialistas.

O infectologista Renato Kfouri, presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria, ratifica que os testes são iguais em indivíduos vivos e post mortem, e que a demora no resultado se dá pela alta demanda, variando dependendo do local do Brasil.

“Não é verdade essa diferença de tempo. O teste é exatamente o mesmo, o processamento é o mesmo, o tempo de resultado é o mesmo. Não há por que os laboratórios priorizarem a realização de um na frente do outro. Aliás, se fosse priorizar, em teoria, seria quem está vivo. Dependendo do estado, há fila às vezes para os exames, e para termos os resultados”, afirma Kfouri.

“Tem muita gente sendo enterrada sem diagnóstico porque o resultado não sai ou porque nem teve teste. Quando se fala em subestimativa do número de óbitos, é por isso. Tem paciente que chega mal, não é feita a coleta, ou, se colheu, não teve resultado ainda”, completa.

O infectologista Paulo Santos, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, também explica que não há discrepância de tempo para o resultado sendo as amostras de pacientes vivos ou mortos. “É possível realizar os testes para a detecção de coronavírus post mortem, desde que realizados imediatamente após o óbito; no entanto, não há diferença em relação ao tempo para o resultado, em se comparando com um exame realizado em um indivíduo vivo. Uma vez que se trata do mesmo tipo de exame, não há diferenças de processamento das amostras biológicas.”

Diante do aumento da demanda por testes, laboratórios particulares que prestam serviço de coleta domiciliar para exame rápido vêm anunciando o resultado de forma expressa. O exame é realizado a partir de um furo no dedo da pessoa, e o resultado é enviado por e-mail e mensagem de texto no celular “em aproximadamente uma hora”, informam anúncios de laboratórios cariocas.

Este teste mais rápido faz a pesquisa de IgM e IgG no organismo, e é indicado para o período a partir de dez dias após o início dos sintomas. Funciona assim: a IgM reagente informa se a pessoa está infectada no momento do teste; a IgG reagente indica que a pessoa já esteve infectada anteriormente e já criou anticorpos. Segundo a Sociedade Brasileira de Análises Clínicas, é possível ter o resultado desses testes num período entre 10 e 30 minutos.

O resultado do RT-PCR, que faz uso do chamado swab nasal ou oral (com análise de secreção e mucosa), em geral requer mais tempo, de 12 a 24 horas, a depender da agilidade dos laboratórios e da demanda. Mas não é possível afirmar que levem de 10 a vinte dias, como diz a mensagem falsa. O que altera esse tempo é a alta procura – que vem ocorrendo mesmo por pessoas que não desenvolveram a Covid-19, mas que desejam saber se foram infectadas –, não o fato de o paciente estar vivo.

Ou seja, mesmo em se tratado do teste com o resultado mais demorado, é possível que a análise seja concluída e o laudo, entregue ao paciente no dia seguinte ao da coleta; no entanto, com a pandemia, o prazo tem se alongado, chegando a um tempo bem maior.

O Ministério da Saúde esclarece, em nota, que “no início da pandemia” o prazo para o resultado do exame RT-PCR variava de três a sete dias, e que, hoje, isso foi encurtado, graças à “ampliação da capacidade instalada nos laboratórios e o fornecimento regularizado e crescente de reações de PCR”. Informa ainda que o prazo varia de acordo com o estado e de município para município (o protocolo adotado por cada um determina isso). No caso dos testes rápidos, “o resultado é verificado após 15 minutos da realização, conforme descrito na bula do produto”.

O médico Luis Fernando Waib, especialista em infectologia hospitalar, lembra que o que determina a espera maior pelo resultado é a metodologia usada. “Testes não automatizados levam muito mais tempo que testes automatizados. Mas o status do paciente não interfere no tempo para resultado de nenhum teste. Os testes imunológicos, no entanto, não são indicados para a fase aguda da doença.”

A respeito da subnotificação de Covid-19 no Brasil, o Ministério da Saúde faz uma ressalva: “É importante esclarecer que não é esperada subnotificação dos pacientes internados por Síndrome Respiratória Aguda Grave, pois todos seguem com fluxo de coleta de amostras que são enviadas aos laboratórios, juntamente com a cópia da ficha de notificação. Os pacientes que evoluem ao óbito também, afinal, todas as mortes de SRAG por Covid-19 são de notificação obrigatória e serão investigadas". Ou seja, apesar da demora nos resultados, eles deverão ser divulgados, segundo a pasta.

O órgão informa também que tem “empenhado esforços para ampliar a testagem do coronavírus no Brasil, por meio da aquisição de novos testes, seja por compra direta ou por meio de doações”. Até o momento, foram distribuídos aos estados 6,1 milhões de testes para diagnóstico, sendo 2,1 milhão RT-PCR e 4,4 milhões de testes rápidos, segundo a pasta.