É #FAKE que vídeo mostre bebê sendo salvo do novo coronavírus da mãe contaminada ao nascer dentro de bolsa

Roberta Pennafort (CBN)
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Mensagem falsa diz que médicos tiraram o bebê empelicado para que ele não se contaminasse. Não é verdade. Parto ocorreu na Costa Rica em janeiro, antes da chegada dos casos ao país. Transmissão vertical do vírus ainda não foi comprovada cientificamente

Uma mensagem que vem sendo compartilhada nas redes sociais mostra o nascimento de um bebê empelicado, ou seja, ainda dentro da bolsa da mãe, e afirma que o procedimento médico foi feito dessa forma porque a mãe estava com coronavírus e esse foi o jeito encontrado de proteger a criança. É #FAKE.

A mensagem que viralizou diz: “Que emocionante! A mãe estava com coronavírus, e os médicos fizeram o parto antes que a bolsa se rompesse e o bebê se contaminasse”. Só que o bebê em questão, da Costa Rica, nasceu em janeiro, bem antes de o coronavírus chegar ao país. E o fato de a bolsa, ou saco amniótico, não ter se rompido durante a cesariana aconteceu de forma espontânea e natural. Não houve intervenção médica para tal.

Em entrevista à CBN, a mãe, Veronica Salazar, confirma que teve filhas gêmeas no dia 8 de janeiro, e que não estava infectada pelo coronavírus. “Usaram o vídeo do nascimento de uma das minhas gêmeas com uma informação falsa, e isso viralizou”, conta Veronica.

“Naquela época, nem sequer se sabia o que era o coronavírus. Os médicos gravaram o nascimento porque ela nasceu com o saco amniótico intacto, e isso chamou a atenção. Gravaram e nos mandaram. Não tenho ideia de quem postou. Eu nunca quis publicar, achei que era muito particular da nossa família.”

Segundo o médico Waldemar Carvalho, ginecologista e obstetra da Beneficência Portuguesa de São Paulo, nos nascimentos pós-pandemia não vem sendo verificada a contaminação intrauterina. Mas ainda não há estudos conclusivos sobre a possibilidade de transmissão.

“Como obstetras com gestantes infectadas, não temos visto a infecção passando dessa maneira de mãe para filho. Não se encontra o coronavírus quando se colhe material vaginal, líquido amniótico e leite materno”, diz o médico.

“Este coronavírus é novo, muitos aspectos ainda estão sendo estudados. Existem uns poucos relatos de caso de transmissão logo que o bebê nasce. Felizmente, a maioria das gestantes com infecções por coronavírus, de leve até casos graves, tiveram como maior risco só a prematuridade. Para o risco de transmissão intrauterina ainda não se tem conclusão”, explica.

Carvalho esclarece também que no caso de cesarianas, o procedimento médico padrão para evitar contaminações no momento da retirada do bebê pelo médico é usar agentes desinfetantes na pele da mãe. O fato de a bolsa estar íntegra não tem peso, afirma.

“É raro nascer empelicado, e não haveria necessidade de ser empelicado para que o bebê fosse protegido do coronavírus. Não traria benefício, não teria mais risco ou menos risco. Tecnicamente é possível fazer com que nasça empelicado. Mas não é garantido conseguir, porque na hora em que você encosta na bolsa, a membrana pode estourar”, diz.

Ele pondera que, no caso do HIV, por exemplo, para que não haja infecção do bebê no momento do nascimento, é muito mais importante que a gestante esteja tomando antirretrovirais do que evitar que a bolsa dela se rompa.

Sobre a possível transmissão do coronavírus de mãe para filho, o infectologista Renato Kfouri, presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria, alerta que a contaminação pode se dar após o nascimento.

“Não há documentação sobre a transmissão vertical, ou seja, pelo sangue do cordão durante a gravidez. Há muitas doenças documentadas, como a sífilis congênita, catapora, rubéola, zika. Nesses casos, a infecção é transferida. São poucos os estudos que detectaram o Sars-Cov-2 no recém-nascido. São raros os casos, e os bebês podem ter adquirido o vírus no primeiro contato, no berçário, na amamentação, e não necessariamente na barriga da mãe.”