É #FAKE que vídeos mostrem pessoas se passando por agentes de saúde para contaminar a população

Roberta Pennafort (CBN)
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Imagens são, na verdade, de equipes contratadas para a realização de uma pesquisa, financiada pelo Ministério da Saúde, que mapeia o avanço da Covid-19 pelo Brasil. Entrevistadores são do Ibope e têm autorização para aplicar teste rápido

Nos últimos dias, vêm circulando nas redes sociais imagens de pessoas com crachás e testes de detecção da Covid-19 sendo abordadas na rua. As mensagens que circulam junto aos vídeos dizem que esses grupos têm percorrido cidades brasileiras fingindo serem agentes de saúde para infectar a população com o coronavírus. Isso é #FAKE.

A imagens são, na verdade, de entrevistadores que participam da EPICOVID19-BR, uma pesquisa de abrangência nacional tocada pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul, com financiamento do Ministério da Saúde. O objetivo das visitas domiciliares que vêm sendo feitas – que nada têm de clandestinas – é mapear o alcance da Covid-19 em território nacional por meio de testes rápidos de sangue e questionários.

Intitulado “Evolução da Prevalência de Infecção por Covid-19 no Brasil: Estudo de Base Populacional”, ele vem sendo divulgado pelo Ministério da Saúde em sua página na internet. Não há viés ideológico no levantamento de dados, tampouco risco de contaminação pelo vírus, como afirmam as mensagens falsas compartilhadas desde que o estudo teve início.

A propagação dos vídeos e de teorias conspiratórias vêm gerando desconfiança por parte da população. Mas não há motivo para controvérsia. E a participação não é compulsória. Só quem aceita é testado e responde ao questionário.

Os entrevistadores que estão percorrendo 133 municípios brasileiros são do Ibope, e parte deles vem sofrendo constrangimentos justamente por conta dessas mensagens que circulam nas redes sociais. Alguns já foram até detidos em razão dos boatos, como mostra uma reportagem do Fantástico.

O ministério esclarece, em nota, que a meta das visitas é medir a evolução da prevalência de Covid-19 na população brasileira, e que foram enviados 150 mil testes para serem aplicados na população em suas residências. Cada uma das 133 cidades incluídas recebe 16 entrevistadores, que chegam de carro às casas. O veículo vermelho com os entrevistadores que tem viralizado nas redes é um deles. Há ainda vídeos que mostram os profissionais contratados colocando os itens de proteção.

Sobre a questão da desinformação a respeito das visitas, a pasta informa que oficiou as secretarias estaduais de Saúde sobre a realização da pesquisa, e que também foi enviada uma notificação ao Conselho Nacional de Secretários de Saúde e ao Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde, para que as instâncias estaduais e municipais informassem a população da dinâmica do estudo.

A primeira parte das coletas acaba nesta terça (19). As visitas seguirão entre 28 e 29 de maio, e voltam entre 11 e 12 de junho. Os entrevistadores fazem o teste sanguíneo rápido nos residentes e aplicam um questionário para checar possíveis sintomas da Covid-19 nos 30 dias anteriores e também saber da existência de doenças preexistentes.

Num dos vídeos virais, uma mulher, receosa, pergunta a uma entrevistadora se ela é enfermeira; ao ouvir a negativa, diz que ela então não pode aplicar os testes. A respeito disso, o Ibope Inteligência, braço do Ibope a cargo do trabalho de campo, informa que, junto com a universidade, consultou a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, do Ministério da Saúde (instância que avalia aspectos éticos das pesquisas que envolvem seres humanos no Brasil), e recebeu autorização para que entrevistadores não formados em enfermagem possam participar; isso, por se tratar de um procedimento simples.

“O teste utilizado é o rápido. O entrevistador chega à casa, pergunta se há interesse e disponibilidade em participar. Para tirar dúvidas o cidadão pode ligar para 0800 800 5000 ou enviar um e-mail para pesquisa.covid-19@ibopeinteligencia.com”, informa o Ministério da Saúde.

Os vídeos, captados em diferentes estados e cidades, mostram moradores em clima de suspeita, lançando uma série de questionamentos aos profissionais quando eles chegam às residências com os materiais para os testes de Covid-19. A mensagem que passa é que eles são falsos agentes de saúde, e que os questionamentos dos vídeos “provam” isso. Mas vale reiterar: não há qualquer irregularidade neste tipo de abordagem.

A pesquisa foi anunciada pela UFPel como “o maior estudo populacional sobre o coronavírus no Brasil”. O levantamento é coordenado pelo seu Centro de Pesquisas Epidemiológicas, que tem experiência de cerca de 40 anos.

O EPICOVID19-BR teve início no Rio Grande do Sul, onde foram testados 13.189 cidadãos de nove cidades, “com total sucesso”, de acordo com o Ibope. A empresa informa que os entrevistadores só vão às ruas depois de testados para o coronavírus, e sempre usando equipamentos de proteção individual. Explica ainda que as equipes foram treinadas por biomédicos e técnicos de enfermagem, e a aplicação do teste rápido não exige pedido médico.

Os realizadores logo tomaram conhecimento que equipes foram acossadas. “Em cerca de 30 cidades, os pesquisadores estão de braços cruzados, esperando autorização dos gestores municipais, num processo burocrático que pode causar prejuízo aos cofres públicos, visto que a pesquisa é financiada com recursos públicos”, diz o Ibope. “Nas situações mais graves, os entrevistadores foram detidos, com uso de força policial, tendo sido tratados como criminosos.”

A empresa mobilizou cerca de 2 mil pessoas, e ressalta que a pesquisa “pode salvar milhares de vidas”. O Ibope pede que os trabalhadores recebam proteção das forças de segurança, e não sofram perseguições.

“Por mais que a comunicação formal do Ministério da Saúde aos municípios possa ter chegado muito perto do início da coleta de dados, nada justifica o comportamento de ‘xerifes’ assumido por alguns gestores municipais, que impedem ou atrapalham a realização da pesquisa”, diz a nota oficial.