ONU condena repressão em Mianmar; China pede 'desescalada e diálogo'

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A China acredita que "é hora de uma desescalada" em Mianmar e de dialogar, declarou o embaixador chinês na ONU, depois que o Conselho de Segurança aprovou, pela primeira vez, uma declaração condenando a junta militar birmanesa, ao mesmo tempo que centenas de policiais e soldados lançaram uma operação em Yangon contra ferroviários em greve.

"É hora da diplomacia", assinalou Zhang Jun em comunicado, informando que a China participou "de forma construtiva" da negociação de seis horas da declaração redigida pelo Reino Unido. Aprovado pelos 15 membros, o documento critica os militares de forma inédita e pede aos mesmos "mais moderação", embora não use a palavra golpe nem mencione possíveis sanções.

O Conselho de Segurança, que "condena firmemente a violência contra manifestantes pacíficos, entre eles mulheres, jovens e crianças", pede às partes que busquem uma solução pacífica, diz o texto, ao qual a AFP teve acesso. O documento também pede "a libertação imediata de todos que foram presos arbitrariamente" desde 1º de fevereiro, quando os generais derrubaram o governo civil de Aung Suu Kyi.

Os Estados Unidos, contudo, anunciaram pouco depois o congelamento em território americano dos ativos dos dois filhos do chefe da junta militar de Mianmar, Min Aung Hlaing, "em resposta ao golpe" e "a matança brutal de manifestantes pacíficos".

A Anistia Internacional denunciou "execuções extrajudiciais" e o uso de armas de guerra contra manifestantes pró-democracia. A organização afirma ter analisado 55 vídeos gravados entre fevereiro e março por civis e a imprensa local, os quais mostram que o Exército birmanês usa "a força letal de forma planejada, premeditada e coordenada".

Aproveitando a divisão até então na comunidade internacional, que enfrentou vetos de Moscou e Pequim, tradicionais aliados da junta militar, os generais mantiveram a repressão. Centenas de policiais e veículos militares foram mobilizados ao redor da área de moradia dos funcionários da estação Ma Hlwa Gone, na zona leste da capital econômica do país.

"Bloqueiam as portas (dos apartamentos) e as destroem para entrar", contou à AFP a familiar de um funcionário, que pediu anonimato por temer represálias. De acordo com a mulher, que expressou sua preocupação "pelos trabalhadores" e suas famílias, cerca de 800 funcionários participam do movimento de desobediência civil nesta estação.

- 'Centenas de detenções' -

Médicos, professores, funcionários de empresas de energia elétrica e das ferrovias pararam de trabalhar desde o golpe de Estado. Os principais sindicatos convocaram a "paralisação total da economia" para tentar interromper as atividades no país e aumentar a pressão sobre os militares. A junta ordenou que o retorno dos funcionários ao trabalho em 8 de março e ameaçou os grevistas de demissão e represálias.

Desde o golpe de Estado, o país é cenário de protestos diários. Na quarta-feira, uma forte presença policial e militar foi visível em Yangon, onde barricadas improvisadas foram incendiadas por manifestantes.

No bairro de Okkalapa, foram feitas "centenas de detenções", segundo um salva-vidas. “Alguns manifestantes foram espancados, há feridos”, acrescentou.

“Pedimos às forças de segurança que se retirem da área, libertem os detidos e permitam que as pessoas saiam com segurança”, tuitou a embaixada dos Estados Unidos, relatando que jovens foram cercados naquela área de Yangon.

A junta parece mais determinada do que nunca a impor o regime, com operações em edifícios residenciais, hospitais, universidades, detenções em larga escala e o uso de munição letal.

Ao menos 60 civis morreram e quase 2.000 pessoas foram detidas desde fevereiro, segundo a Associação para a Assistência aos Presos Políticos.

- Refugiados na Índia -

Os militares também executaram operações contra meios de comunicação independentes e revogaram as licenças de operação. Quase 20 jornalistas foram detidos.

O exército nega envolvimento na morte de manifestantes e justifica o uso da força alegando fraudes nas eleições legislativas de novembro, vencidas por ampla margem pelo partido de Aung San Suu Kyi, a Liga Nacional pela Democracia (LND).

Os deputados que não reconhecem a legitimidade da junta, e que criaram um comitê para representar o governo civil, são acusados de "alta traição", delito que pode ser punido com a pena de morte ou uma sentença de 22 anos de detenção, advertiram os militares.

Dois líderes da LND morreram quando estavam em detenção nos últimos dias.

Nesse contexto, pelo menos 136 birmaneses se refugiaram na Índia desde o golpe e dezenas de outros aguardam na fronteira para fazê-lo, anunciaram as autoridades indianas.

O golpe gerou condenações e sanções de Washington e da União Europeia, mas, indo contra a maré, o Sri Lanka convidou o novo ministro das Relações Exteriores de Mianmar para falar sobre cooperação econômica.

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