'É mais uma mãe com essa angústia que a minha família vive', diz mãe de João Pedro sobre morte de jovem no Salgueiro

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RIO - Pouco mais de um ano depois, a história se repete. Mais uma família chora a perda de um jovem negro no Complexo do Salgueiro. A vítima é João Vitor Santiago, de 17 anos, que foi morto durante uma operação da Polícia Militar na região do Itaoca, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo na última sexta-feira. João Vitor voltava de uma pescaria com o amigo Alexander Carvalho Ribeiro Motta, de 19 anos, quando foi atingido por disparos durante uma suposta troca de tiros entre policiais e criminosos. Alexander também foi baleado e está internado no Hospital Alberto Torres, seu estado de saúde é estável. Amigos e familiares chegaram a afirmar que os tiros que atingiram o jovem partiram da polícia.

Em junho do ano passado, também no Itaoca, o adolescente João Pedro Matos Pinto, de 14 anos, foi morto durante uma operação da Polícia Civil e da Polícia Federal, quando agentes entraram atirando em uma casa em que o jovem estava com os primos. Os policiais afirmam que tentaram socorrer o menino, que foi levado de helicóptero de São Gonçalo para a Lagoa, na Zona Sul do Rio. O destino não foi comunicado à família, que fez buscas durante horas pelo paradeiro de João em hospitais e no IML.

— Para mim é muito difícil falar, porque a gente vê a história se repetindo mais uma vez. A gente vê que nada é feito para que essas operações mudem. A mesma coisa se repete, e com o mesmo nome do nosso filho. É bem difícil essa situação — afirma a mãe de João Pedro, a professora Rafaela Matos, de 38 anos.

Em junho, a Polícia Civil indiciou três policiais civis da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) pelo assassinato de João Pedro. Para o delegado responsável pelo caso, Bruno Cleuder de Melo, da Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo (DHNSG), os agentes Mauro José Gonçalves e Maxwell Gomes Pereira devem responder por homicídio culposo, quando não há intenção de matar. Já Fernando de Brito Meister deve responder por tentativa de homicídio culposa. O relatório da investigação foi encaminhado ao Ministério Público que vai decidir sobre a denúncia ou não dos agentes.

— Nós estamos no aguardo do Ministério Público. A parte que cabia à Polícia Civil eles fizeram. Só que a gente não entende como foi essa questão de não ter intenção de matar invadindo uma casa cheia de criança e dando mais de 70 tiros — diz a mãe do menino.

Sobre a operação desta sexta-feira, a Polícia Militar afirma que os agentes foram atacados a tiros por criminosos e que uma testemunha teria confirmado aos policiais civis que investigam o caso que os disparos que atingiram João Vitor partiram de criminosos.

— Além da história se repetir, a polícia tem sempre a mesma versão. Nunca foi eles, sempre eles foram recebidos a tiros. Eles tentam de alguma forma fazer com que essa punição não chegue a eles. Eu acredito que não é coincidência. Mais uma criança com o mesmo nome do João. O Estado precisa rever todas essas operações. Alguém precisa fazer alguma coisa para isso parar de acontecer. Quantos mais vão ter que morrer? A gente fica de mãos atadas com essa impunidade — desabafa Rafaela — A gente fica pensando no desespero da família. É mais uma mãe com essa angústia que a minha família vive na espera de justiça.

O corpo de João Vitor Santiago, de 17 anos, foi enterrado neste domingo no Cemitério Municipal de São Gonçalo. O pai do jovem, o motorista Walmir Santiago, de 60 anos, cobrou resposta das autoridades sobre o caso.

— Estamos segurando a onda para ver o que vai acontecer pela justiça de Deus ou do homem. Vamos ver se o governador resolve alguma coisa. Isso acontece em qualquer lugar. Amanhã ou depois pode acontecer com outras pessoas. Quero que o governador veja onde está o erro — disse.

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