É mentira que Jô Soares escondia o filho autista

Tempos atrás, na década de 2000, entrava-se em comunidades de pais de autistas na internet e se lia que Jô Soares escondia o filho. Espera-se que não aconteça mais isso, pois é mentira. Jô levava Rafael ao Jockey Club, ao Fluminense, ao Clube Campestre, a livrarias. Mas o artista parecia compreender por que as pessoas cobravam dele.

Patrícia Kogut: 'Não existe a História da televisão brasileira sem Jô'

Fábio Porchat: 'Para o Jô Soares eu queria dar o mundo', diz humorista 'descoberto' pelo humorista aos 18 anos

“Sei que muitas pessoas falaram que reneguei e escondi o meu filho. Não posso negar que a maneira como o Rafinha veio ao mundo mexeu muito comigo. Hoje consigo entender bem o que ocorre com pais de filhos especiais. Mas as pessoas não conhecem o dia a dia de uma criança autista, o seu horror ao contato com outras pessoas, a sua necessidade de uma rotina rigorosamente igual todos os dias. Ele não queria ver o mundo e não queria que o mundo o visse”, escreveu no primeiro volume da autobiografia “O livro de Jô”, lançado em 2017.

Não convém tomar o texto de Jô como verdade incontornável. Cada autista tem uma personalidade, e há os que são mais sociáveis. Mas é recomendável ser solidário com alguém que enfrenta situações como ele e a atriz Theresa Austregésilo (1933-2021) – que deixou de lado a carreira para se dedicar ao filho – enfrentaram.

'Nunca faça graça de graça. Você é humorista, não político': relembre frases de Jô Soares, que morreu aos 84 anos

Rafael Austregésilo Soares nasceu em 1963 com hipospádia, mal genético marcado pela abertura anormal da uretra. Tinha dores tremendas ao urinar, passou por cirurgias. E foi diagnosticado na infância com autismo, o que à época se assemelhava a uma sentença de morte. Um médico aconselhou Theresa a ter outro filho, pois aquele sequer aprenderia a falar.

Mas Rafael, para sempre filho único, aprendeu a falar, a ler, a tocar piano – Jô dizia que o filho tinha ouvido absoluto – e a desenvolver sua paixão pelo rádio. Tinha um estúdio em casa no qual conduzia diariamente a Rádio AM da Zona Sul. Só quem o visitava escutava a programação, mas ele a fazia com extremo rigor.

Vídeo: Cinco momentos marcantes na carreira de Jô Soares, segundo ele mesmo

Em 31 de outubro de 2014, aos 51 anos, Rafael morreu. Tratava-se havia um ano de um câncer no cérebro. No primeiro “Programa do Jô” após a perda, o apresentador disse que sentia orgulho de ter sido pai de Rafael, por causa do entusiasmo e da paixão que o filho dedicou à vida. Emocionou a plateia, emocionou-se, mas não se deixou tomar pela tristeza: “Um beijo do gordo, e a vida continua”.

* Luiz Fernando Vianna é jornalista e autor de "Meu menino vadio: Histórias de um garoto autista e seu pai estranho"

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos