'É muito cansativo emocionalmente remover esse fundo', diz filho de Tim Lopes 20 anos após morte do pai

Tem 20 anos que o jornalista Tim Lopes foi capturado, torturado e executado por traficantes do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, quando fazia uma reportagem sobre aliciamento de menores e tráfico de drogas num baile funk da Vila Cruzeiro. A memória e o legado de Tim foram lembrados com homenagens por toda a cidade. Pela primeira vez em duas décadas, porém, o filho dele, o também jornalista Bruno Quintella acompanhou apenas uma delas, a missa no Cristo Redentor celebrada pelo padre Omar, na manhã desta quinta-feira.


— Sei que é difícil dissociar, mas este ano quis celebrar o meu pai e não o jornalista. Fui à missa e passei o dia com a minha família — disse Bruno. — Procurei ter um dia mais leve. É muito cansativo emocionalmente remover esse fundo.
Mais cedo, nas redes sociais., Bruno escreveu sobre a falta que ele faz em família, no convívio mais íntimo:

"Vinte anos hoje , pai. Metade da minha vida sem você por perto, sem o seu abraço, sem ouvir a sua gargalhada, em trocar ideias, sem ir aos jogos do Vasco. É uma saudade que não passa nunca. É uma dor que não vai acabar, mas que tentamos a cada ano — minha família, eu, seus amigos — a lidar com ela".

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Com um filho de 4 anos, Bruno fala do que aprendeu com ele como jornalista e acredita que é hora de mudar o tom desse luto.

— O jornalista precisa voltar a ocupar certos espaços. Entendo que tragédia afastou a gente. O caso do meu pai foi um divisor de águas, sim. Mas essa quarentena do Tim Lopes acabou. É preciso zerar o cronômetro, ver como está a temperatura da água e voltar para o campo. O luto não vai acabar, vamos conviver com ele, mas vamos usá-lo como impulso para fazer novas coisas.


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Para Bruno, o maior legado deixado pelo pai foi justamente o olhar e o respeito que ele tinha com as pessoas.

— Aprendi com ele a sempre respeitar o outro, o lugar do outro, a opinião como o outro. Ele não santificava nem demonizava ninguém. Era uma observação cuidadosa, mas nunca em tom de julgamento.

E o que o profissional Tim Lopes, que imprimiu uma nova forma de fazer jornalismo nas favelas do Rio, estaria fazendo agora?


— Hoje, num mundo onde todo mundo tem imagem de tudo, acho que ele pouco recorreria à microcâmera. Acho que ele apostaria mais na força humana do que na tecnologia. Talvez ele estivesse de volta às favelas com uma caneta e um bloquinho, conversando com as pessoas para entender o que está acontecendo.

Homenagens a Tim Lopes

Homenagem a Tim Lopes aconteceram durante todo o dia. Pela manhã, uma instalação com fotos do jornalista e textos assinados por Alexandre Medeiros foi montada em frente à Câmara dos Vereadores. Em seguida, houve uma missa no Santuário Cristo Redentor, com a presença de familiares e amigos. À tarde, um ato na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), em parceria com a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), com a Associação Brasileira de Jornalistas Investigativos (Abraji) e com o Sindicato de Jornalistas do Município do Rio de Janeiro lembrou a trajetória do jornalista.

Relembre o caso

A morte do jornalista Tim Lopes, em 2002, foi um dos crimes mais chocantes que o Rio já testemunhou. O gaúcho Arcanjo Antonino Lopes do Nascimento, então com 52 anos, desapareceu no dia 2 de junho de 2002, quando fazia uma reportagem sobre abuso de menores e tráfico de drogas em um baile funk da Vila Cruzeiro, na Penha, Zona Norte carioca. Depoimentos de testemunhas e dos envolvidos no caso indicaram que Tim fora sequestrado, torturado, julgado e executado por traficantes, comandados por Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco. Em 9 de junho, a polícia confirmou o assassinato do jornalista.

O corpo foi carbonizado, numa fogueira de pneus, o chamado microondas. Somente em 5 de julho, um exame de DNA confirmou que os restos mortais encontrados num cemitério clandestino, no alto da favela, eram mesmo do jornalista. O enterro aconteceu no dia 7 de julho.

Entre os 41 fragmentos de ossos retirados do cemitério clandestino, técnicos da UFRJ identificaram o DNA de outras três pessoas, também vítimas do tribunal do tráfico. A polícia prendeu sete acusados do crime, levados a julgamento em 2005. Elias Maluco foi preso no dia 19 de setembro de 2002, 109 dias depois da morte de Tim Lopes.

Elias Maluco foi condenado, no dia 25 de maio de 2005, a 28 anos e seis meses de prisão. Elizeu Felício de Souza (Zeu), Reinaldo Amaral de Jesus (Cadê), Fernando Sátyro da Silva (Frei), Cláudio Orlando do Nascimento (Ratinho) e Claudino dos Santos Coelho (Xuxa) foram senteciados a 23 anos e seis meses de detenção. Já Ângelo Ferreira da Silva (Primo) recebeu uma pena menor, de 15 anos.

Tim decidira fazer a reportagem após receber denúncias de moradores da Vila Cruzeiro de que menores eram obrigadas a participar dos bailes funks, usando drogas e se prostituindo. O jornalista da TV Globo tinha experiência nesse tipo de cobertura. No ano anterior, recebera o Prêmio Esso de Telejornalismo e o Prêmio Líbero Badaró, com a série “Feira das drogas”, na qual denunciava a ação de traficantes, livres de qualquer repressão, nas favelas da Grota, da Rocinha e da Mangueira e em ruas da Zona Sul.

Quando foi brutalmente assassinado, Tim Lopes já tinha mais de 30 anos de carreira, em uma trajetória marcada pelo combate à violência, às injustiças e às desigualdades sociais por meio das reportagens.

Não era incomum que o jornalista assumisse disfarces para fazer reportagens. Para revelar irregularidades em clínicas de tratamento, ele fingiu ser dependente químico. Disfarçou-se de pedreiro para mostrar as dificuldades enfrentadas por trabalhadores nos canteiros de obra. Certa vez, vestiu-se até de Papai Noel para mostrar o Natal de crianças que não tinham sequer a esperança de receber uma visita do Bom Velhinho.

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