'É possível fazer vários filmes a partir do mesmo evento', diz cineasta iraniano acusado de plágio

Três anos depois de “Todos já sabem” (2018), seu primeiro filme falado em língua estrangeira, o diretor Asghar Farhadi volta às paisagens iranianas em “Um herói” (2021), sobre um homem de boa índole tragado por uma espiral de mentiras. Mas o retorno do premiado realizador — vencedor de dois Oscars de produção internacional, por “A separação” (2011) e “O apartamento” (2016) — a seu país não ocorreu sem sobressaltos.

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Em março, quase um ano após o longa conquistar o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes, Farhadi foi acusado de plágio por uma ex-aluna de um de seus workshops. Ela alega ver semelhanças entre “Um herói” e o seu curta documental “All winners, all loosers” (2018), resultado do curso ministrado pelo cineasta, construído em torno de um cidadão que encontra uma bolsa com moedas de ouro e a devolve ao dono.

Esta também é a premissa do novo drama de Farhadi, no qual o protagonista, um detento em licença da prisão, repete o gesto de honestidade e se torna uma celebridade local, impulsionado pela imprensa e pelas redes sociais. Indicado para representar o Irã no Oscar deste ano, “Um herói” chegou esta semana aos cinemas brasileiros embalado pela polêmica, mas também por elogios da crítica em várias línguas.

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— O que fiz não tem qualquer relação com aquele workshop. Meu filme é baseado em um caso ocorrido dois anos antes, e coberto pela imprensa televisiva e impressa. Ele é uma interpretação daquele caso. Documentário é outra abordagem, eles não são iguais de forma alguma — defendeu-se Farhadi, de 50 anos, ao comentar o processo, ainda em andamento na corte de Teerã, no Festival de Cannes, em maio, quando integrou o júri internacional. — É possível fazer vários filmes a partir do mesmo evento, sem que um plagie o outro.

Fenômeno midiático

Artesão de dramas intrincados, que expõem hipocrisias sociais, Farhadi agora se vê refletido nos dilemas morais e éticos de “Um herói”. O novo filme é centrado na figura de Rahim (Amir Jadidi), um calígrafo que cumpre pena por não conseguir pagar uma dívida. Durante uma licença da prisão, ele tenta vender as moedas de ouro encontradas por sua namorada e comprar sua liberdade. Como não consegue negociá-las por um valor expressivo, resolve colocar um anúncio para procurar o dono do ouro, e assim tirar proveito da imagem de bom samaritano.

Rahim se torna uma celebridade midiática da noite para o dia, é acolhido por uma associação de assistência social, que lhe confere um certificado de mérito e inicia uma vaquinha para comprar a sua libertação. Mas logo rumores começam a circular pelas redes sociais, levantando suspeitas sobre a sinceridade do gesto de Rahim.

— As pessoas que acompanham as redes sociais inventam uma nova identidade para aquele homem, que também a alimenta. Cria-se a expectativa de que haja consistência no seu comportamento. É isso que procuro denunciar —esclareceu Farhadi. — É o mesmo caso de nós, cineastas. Temos o direito de ser imperfeitos. Você não pode ter uma imagem suave porque, de longe, parece algo a ser invejado. Isso nos tira a chance de falhar. Mas não podemos progredir sem cometer erros.

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O diretor diz que há muito tempo lê histórias na imprensa iraniana de pessoas comuns que viram manchetes por causa de um ato de altruísmo. No país dos mulás, que impõe cabrestos à liberdade de expressão, a internet ainda é uma área onde parte da população consegue se manifestar um pouco mais livremente. Segundo Farhadi, “Um herói” foi inspirado nessa realidade, e em como a comunicação digital contamina o cotidiano.

— A imagem que as redes sociais refletem da vida de um indivíduo contamina a existência dessa pessoa. A velocidade das redes é necessariamente simplista, não permite expressar a complexidade de um acontecimento, de uma história — acredita Farhadi, que ambientou a trama na antiga cidade de Shiraz, por causa de “seus vestígios históricos e gloriosos da identidade iraniana”. —É por isso que as redes criam mal-entendidos e, em essência, se prestam a polêmicas, a interpretações excessivas e duvidosas.

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