É preciso conter letalidade das ações da Polícia Rodoviária Federal em favelas

Em janeiro do ano passado, uma portaria assinada pelo então ministro da Justiça, André Mendonça, autorizou a Polícia Rodoviária Federal (PRF) a participar de operações conjuntas, fora das estradas, com outras forças de segurança, além de fazer incursões em locais alvos de mandados de busca e apreensão. Os resultados dessa mudança de rota têm se revelado desastrosos.

Em 24 de maio deste ano, a PRF participou de uma ação na comunidade de Vila Cruzeiro, na Zona Norte do Rio, ao lado do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) da Polícia Militar. Ao fim da incursão, havia 23 mortos, entre eles uma moradora, atingida por bala perdida durante o confronto entre policiais e traficantes. Não foi caso isolado. Um levantamento feito pelo GLOBO, com base em dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, mostra que só nos primeiros seis meses deste ano 40 pessoas foram mortas em ações da PRF no Rio, quase todas em favelas.

Operação no Alemão: Ação que deixou 18 mortos repercute na imprensa internacional

O número supera a soma dos últimos três anos. Na última quinta-feira, a PRF deu apoio a mais uma incursão letal, no Complexo do Alemão, que deixou 18 mortos, entre os quais duas moradoras e um policial. Embora não tenha atuado diretamente nos confrontos, por falta de armamento (82 fuzis foram apreendidos para perícia após o episódio da Vila Cruzeiro), a PRF ajudou no resgate de equipes encurraladas na comunidade, em mais uma operação trágica de resultados duvidosos.

Essa realidade se repete em outros estados. Em outubro do ano passado, uma operação conjunta da PRF com a Polícia Militar e o Bope de Minas Gerais, em Varginha, resultou na morte de 25 acusados de pertencer a uma quadrilha de assaltos a bancos. Os suspeitos estavam escondidos em chácaras nas imediações de um quartel da PM.

Combate ao tráfico: Polícias do Rio realizaram duas operações em favelas por dia desde decisão do STF

Após questionamentos do Ministério Público Federal, em 7 de junho uma liminar da Justiça Federal suspendeu os efeitos da portaria do Ministério da Justiça em todo o território nacional, por estar em desacordo com a Constituição, que limita a atuação da PRF “ao patrulhamento ostensivo das rodovias federais”. Dois dias depois, a liminar foi derrubada pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF 2) sob o argumento de “acarretar grave lesão à ordem e segurança públicas”.

A PRF tem papel importante na fiscalização das normas do Código de Trânsito Brasileiro, na redução dos acidentes nas estradas e no patrulhamento das rodovias federais, conhecidas rotas do tráfico. Não é pouco. Por isso deveria se concentrar na missão para a qual foi criada. Juntar-se às polícias estaduais e demais forças de segurança em operações desastradas e letais nas favelas pouco ou nada acrescenta no combate às organizações criminosas. Interceptar carregamentos de drogas, armas e munição antes que cheguem às quadrilhas de todo o país é uma contribuição mais eficaz à luta contra o crime organizado.

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