'É preciso derrubar o mito de que criatividade não se aprende', diz educador

Rafael Garcia

SÃO PAULO — A criatividade é hoje uma das carcterísticas mais procuradas em pessoas no mercado de trabalho e venerada no mundo corporativo, mas cercada de mitos e tabus. As pessoas nascem criativas? Podem se tornar criativas? É possível dar nota para a criatividade?

Essas questões que desafiam os educadores são tema de um seminário realizado nesta semana pelo Instituto Ayrton Senna em São Paulo, reunindo educadores influentes para discutir o assunto. Um deles é Filip de Fruyt, da Universidade de Ghent, na Bélgica, especialista no desenvolvimento de traços de personalidade.

Em entrevista ao GLOBO, ele conta como a criatividade pode ser construída coletivamente e pode ganhar espaço num planejamento formal das escolas, em vez de ser considerada um dom mágico reservado a poucos.

Muitas pessoas consideram a criatividade um traço de personalidade inato. A criatividade é algo que pode se aprender? Qual resposta a ciência oferece hoje a essa pergunta?

A coisa é mais sutil do que dizer que características como a criatividade são inatas e não são maleáveis. Hoje, existe um consenso geral de que traços de personalidade têm um componente inerente, mas também que eles se desenvolvem ao longo da vida das pessoas, mesmo após os 50 anos. Alguns desses padrões de desenvolvimento são semelhantes para a maioria de nós, o que chamaríamos de tendências normativas de desenvolvimento, mas ainda existe uma variabilidade importante entre os indivíduos em termos de suas trajetórias.

Algumas das nossas pesquisas estão mostrando que nossas vidas profissionais afetam nossa personalidade. Ao envelhecerem, as pessoas se tornam mais agradáveis, altruístas e leves, mas pessoas que trabalham em ambientes corporativos competitivos exibem menos desse aumento, mostrando que o trabalho afeta aquilo que nós somos em um dado momento no tempo.

Os traços de personalidade são um ingrediente importante de nossas habilidades sócio-emocionais, e há evidências substanciais de que estas podem ser impactadas e desenvolvidas intencionalmente na escola. Isso é basicamente o que queremos alcançar na educação com nossos alunos, para que eles estejam mais bem equipados para os desafios do século 21.

Como os cientistas definem a criatividade para estudá-la de maneira sistemática? É fácil definir algo que é considerado quase mágico por muitas pessoas?

Existem várias maneiras de definir criatividade. Dean Simonton, por exemplo, definiu criatividade como "originalidade" em contraposição a "adequação". Em outras palavras, é uma pessoa fazer uma contribuição original e única, mas, ao mesmo tempo, essa contribuição precisa ser avaliada em um contexto, precisa ser viável e considerada apropriada em um momento no tempo e em um contexto particular. Essa é uma das maneiras de defini-la, e eu a considero interessante, porque realça o poder da criatividade de encontrar soluções para os problemas de adaptação que estamos enfrentando. Nas habilidades atuais do século 21, isso é central.

É interessante que você se refira à criatividade "como algo que é considerado quase mágico por muitas pessoas". Essa é apenas uma das maneiras de pensar em "criatividade", entre aspas mesmo: as contribuições criativas espetaculares e com impacto considerável. Você pode ter em mente as possibilidades oferecidas pelo lançamento da Internet ou pelo uso de telefones celulares, por exemplo, mas igualmente importantes são as manifestações menos "espetaculares" da criatividade.

Por exemplo, veja o caso de uma professora que pediu a seus alunos de dez anos que pintassem autorretratos (sem permitir uso de texto escrito) e colocou as pinturas em suas carteiras na sala de aula antes de uma reunião de pais e mestres. Na noite daquele dia, os pais das crianças entraram na classe para aprender como a lição de casa seria organizada na escola, e o professor pediu que eles se sentassem à mesa de seu filho ou filha. Eles não conheciam o mapa das carteiras, e precisavam identificar seus filhos pelos retratos que eles mesmos haviam pintado.

Este é um exercício adorável, porque mostra aos pais as manifestações criativas de seus filhos; alguns até têm dificuldade em encontrar o lugar certo. Assim todo mundo aprende. As crianças aprendem a se expressar de maneira única e criativa, e os pais precisavam recorrer à criatividade para descobrir onde se sentar, por isso também foi um bom exercício para eles aprenderem mais sobre seus filhos.

Você participa hoje de um seminário que discute o papel da criatividade no pensamento crítico. Qual é esse papel?

Acho correto dizer que criatividade e pensamento crítico estão entrelaçados, e acho que formas de pensamento divergentes são o cerne de ambas as habilidades. Da maneira como você pergunta, considera primeiro o pensamento crítico e pergunta qual o papel da criatividade nele.

De fato, o pensamento crítico em si é uma coisa distinta. É você questionar suposições criticamente e separar fatos das opiniões. Uma outra coisa é fazer uma contribuição original e encontrar uma solução bem informada para um problema de adaptação, e nisto a criatividade é uma etapa necessária. Questionar criticamente é uma peça importante, elaborar uma solução criativa é a segunda peça.

Hoje, muitos educadores estão preocupados com as tecnologias emergentes que parecem atrapalhar crianças nas tarefas que exigem foco e paciência. Você acha que o excesso de tempo na tela, por exemplo, está afetando a maneira como as crianças desenvolvem sua criatividade?

Sua pergunta levanta dois assuntos diferentes. Certamente, mais tempo na tela interfere na concentração. E ter acesso eletrônico a uma miríade de informações, soluções, opções, opiniões etc. dá às pessoas a sensação de que tudo está próximo e deveria ser imediatamente acessível online. Por exemplo, um táxi Uber mostrando que está a 1 minuto de chegar até você.

Esse ambiente alterado certamente representa desafios para desenvolver habilidades de autogerenciamento em crianças e estudantes. E não se esqueça dos adultos — eles também estão em aprendizado.

Certamente, acreditamos que isso também impacte a criatividade e a maneira com que nossas manifestações criativas podem ser distribuídas rapidamente e para um público amplo. Isso certamente afetará o componente "adequação" de que acabei de falar na definição de criatividade de Simonton. Para os mais jovens, que estão desenvolvendo suas identidades, isso significará que eles experimentarão criativamente suas identidades por meio das mídias sociais, postando fotos e histórias e, algumas vezes, compartilhando seus sentimentos e conteúdo íntimo, eletronicamente.

Nosso grupo de pesquisa em Ghent está realizando estudos para examinar os efeitos desses ambientes eletrônicos no desenvolvimento de identidades e habilidades sócio-emocionais.

O que as escolas podem fazer para ajudar as crianças a serem mais criativas?

Eles podem fazer muito, tanto estruturalmente, organizando a escola, quanto em seus programas de ensino, na BNCC (Base Nacional Curricular Comum), por exemplo. Também sabemos que a pessoa do professor é fundamental nos resultados dos alunos, incluindo a criatividade. Portanto, os programas de treinamento de professores precisam incluir um componente explícito de treinamento para promover habilidades socioemocionais, incluindo criatividade e pensamento crítico.

Um ponto crucial é trazer o vocabulário de habilidades socioemocionais para as escolas, para que cada parte interessada fale sobre construções semelhantes e seus níveis, desde o aluno até o professor, incluindo pai, diretor, secretário estadual...

Por isso, investimos fortemente com o Instituto Ayrton Senna no desenvolvimento de um modelo que possa nos ajudar a alcançar esse objetivo. Este exercício leva tempo, mas uma vez que o vocabulário é introduzido, podemos começar com o desenvolvimento intencional de habilidades e monitorar esse desenvolvimento.

As crianças aprendem por observação, então o professor precisa ser criativo em sua própria abordagem, como no exemplo dos retratos pintados. Pedir autorretratos aos alunos não é a invenção mais original, mas o modo com que a professora os usa é brilhante, transformando-os em um exercício que envolve os pais no processo.

Precisamos de mais pequenos passos como esse em nossas salas de aula. Além do aprendizado observacional — praticar aquilo que você prega — os professores também precisam explicar mais suas ações, porque a pesquisa mostra que isso amplia o efeito do aprendizado. Ou seja, além de praticar o que você prega, você também precisa pregar o que pratica.

Existe uma maneira sistemática de avaliar a criatividade nas pessoas? Como se mede o fracasso ou o sucesso dos programas educacionais para promover a criatividade?

Bom ponto. Alguns já demonizaram a avaliação e a consideraram "a morte" da criatividade. Mas ela não é. Por que não pensamos de modo crítico e criativo sobre essa afirmação e buscamos maneiras de fazer a avaliação alimentar o processo de desenvolvimento, em vez de bloqueá-lo? Se considerarmos essas habilidades como objetivos de desenvolvimento, precisamos apoiar os ambientes escolares para avaliá-las de maneira construtiva.

Estudantes, pais, escolas e sociedades têm a responsabilidade compartilhada de preparar os jovens para desafios futuros. A escola é um bom ambiente para monitorar o desenvolvimento de habilidades. Há evidências substanciais de que o desenvolvimento de habilidades socioemocionais também ajuda e facilita o aprendizado na escola. Portanto, trabalhar "foco", "pensamento crítico" e "criatividade" também ajuda os alunos a obterem melhores notas em matemática, português ou ciências.