É urgente deter escalada de violência na arena política

É intolerável — embora fosse previsível — que a escalada de violência, ódio e intolerância na campanha política tenha resultado em morte. Era só questão de tempo. No sábado, o guarda municipal e tesoureiro petista Marcelo Aloizio de Arruda foi assassinado em Foz do Iguaçu (PR), durante a festa de seus 50 anos, cujo tema era a campanha do pré-candidato Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência. Os tiros foram disparados pelo policial penal federal Jorge Guaranho, simpatizante do presidente Jair Bolsonaro. “Aqui é Bolsonaro!”, gritou Guaranho, segundo relatos. Mesmo caído, antes de morrer o petista disparou contra ele, que continuava ontem em estado grave.

O episódio lamentável acontece na sequência de outros que, embora não letais, precisam ser condenados com a mesma veemência. Num comício de Lula no Centro do Rio, um artefato com fezes explodiu perto da multidão. A polícia agiu rápido e autuou em flagrante o responsável. Caso parecido aconteceu no mês passado em Uberlândia (MG). Apoiadores de Lula que aguardavam um comício foram atingidos por fezes lançadas de um drone.

O assassinato do petista, sob investigação da polícia do Paraná, foi repudiado pela classe política. Chamou a atenção a reação tíbia do presidente Jair Bolsonaro, ele próprio atingido gravemente por uma facada na campanha de 2018. Bolsonaro republicou uma mensagem afirmando que dispensa “apoio de quem pratica violência contra opositores”. Ontem citou o caso como “uma briga entre duas pessoas” e criticou quem se refere ao autor dos disparos como “bolsonarista”.

Assassinato de petista: 'O que eu tenho a ver com esse episódio?', diz Bolsonaro

Bolsonaro deveria lembrar as vezes em que ele próprio insuflou a intolerância. Depois da invasão do Capitólio nos Estados Unidos, disse que poderia haver no Brasil baderna pior caso fosse derrotado. Na semana passada, em solenidade no interior de São Paulo, repetiu seu discurso beligerante e cobrou dos militares que se preparem para “agressões internas”. O bolsonarismo também não economiza esforços para facilitar o acesso a armas e munição, num incentivo tácito ao conflito. Horas antes do assassinato em Foz do Iguaçu, seu filho Eduardo Bolsonaro declarou num ato pró-armas: “A esquerdalha nunca imaginou que tantas pessoas pudessem vir às ruas para falar que, sim, eu quero estar armado”.

Morte de petista em Foz do Iguaçu: o que já se sabe sobre o caso

O próprio Lula, que enlutado condenou o assassinato, nem sempre se pauta por discurso que promova a tolerância. No sábado, teve o desplante de agradecer ao ex-vereador petista Manoel Eduardo Marinho, preso durante sete meses sob a acusação de tentativa de homicídio, pela agressão, em 2018, ao empresário Carlos Alberto Bettoni, que se manifestava contra o PT. Trata-se de comportamento inaceitável para qualquer um que aspire ao mais alto cargo da República.

Não adianta a classe política condenar o assassinato e depois insuflar o ódio em comícios ou nas redes sociais. A campanha política polarizada entre Lula e Bolsonaro é um terreno propício para a explosão dos ânimos. Com o episódio de Foz do Iguaçu, certamente a temperatura subirá mais. É óbvio que cabe à polícia agir nos casos em que a contenda ultrapassa as cordas do ringue. Mais que isso, é preciso que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e os políticos atuem de forma conjunta e responsável para apaziguar o clima e deter o descalabro. O pior cenário eleitoral é transformar uma disputa política acirrada num bangue-bangue.

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