'É a vida do meu filho que está aqui dentro', disse pai de paciente ao saber que não haveria atendimento no Hospital de Bonsucesso

Rafael Nascimento de Souza
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O aposentado Geovani da Silva ao lado do filho Douglas Ribeiro da Silva, em tratamento de Linfoma de Hodgkin no Hospital Federal de Bonsucesso
O aposentado Geovani da Silva ao lado do filho Douglas Ribeiro da Silva, em tratamento de Linfoma de Hodgkin no Hospital Federal de Bonsucesso

“Gente, vocês não sabem o que é acordar e levantar todo dia e saber que o seu filho pode morrer. Gente, pelo amor de Deus, é a vida do meu filho que está aqui dentro. Ele depende desse tratamento”. O desabafo emocionado é do aposentado Geovani da Silva, de 46 anos, pai do desempregado Douglas Ribeiro da Silva, de 25 anos, na porta do Hospital Federal de Bonsucesso, nesta quinta-feira, após o filho ser impedido de fazer mais um dia de diálise. O rapaz foi diagnosticado com Linfoma de Hodgkin, um câncer raro no sangue, há dois anos.

Pai e filho moram em Paraíba do Sul, no interior do Rio, e saem de casa três vezes ao mês às 3h, em um carro da prefeitura, para o tratamento. Após a TV Globo mostrar a saga dos dois, o hospital deixou que o jovem fizesse o tratamento. Nesta quinta-feira, a unidade de saúde presta atendimento somente a pacientes com diálise marcada. Consultas estão suspensas.

— (Quando chegamos aqui) o hospital não deu informação nenhuma. Só pegou o nome dele e disse que iria remarcar (a diálise). As meninas da oncologia, após verem a reportagem, entraram em contato com a gente para retornar, porque a medicação já estava aqui (e eles) iriam aplicar a medicação nele —- conta o aposentadoO carro da Prefeitura de Paraíba do Sul já estava na metade do caminho quando Geovani recebeu a ligação.

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Após quase quatro horas de quimioterapia, o rapaz deixou a unidade ao lado do pai. A partir de 4 de novembro, dia agendado para a próxima seção, Douglas ficará à disposição do Governo Federal para ser informado sobre o novo hospital onde ele dará continuidade ao tratamento.

— Foi aplicada a medicação, e eles falaram que a partir de novembro ele será encaminhado para outro hospital (para fazer a quimioterapia). Eles não falaram qual hospital — desabafa Geovani.

O aposentado diz que, “foi um alívio muito grande” a ligação para que o rapaz fizesse o tratamento.

— Cada dia importa muito para o meu filho que está com esse linfoma e, infelizmente, pode morrer. Quando a medicação é aplicada nele, eu penso: meu filho tem mais um dia de fôlego de vida. E quando você chega aqui e aquilo que a gente ficou seis meses após de biópsia, exame, correndo atrás de médico, e no dia não vai ser aplicado, é desesperador.

Há dois anos Douglas segue na luta contra o câncer. Todo o tratamento foi no HFB. No entanto, há pouco mais de seis meses o câncer voltou mais agressivo.

— (Hoje) foi o segundo ciclo da químio que ele vem fazer. Após o primeiro, o linfoma veio mais forte e ele até terá que fazer o transplante de medula. Se o meu filho não fizer o tratamento, ele pode morrer — desabafa o aposentado, que vai além:

— Eu só peço que, quem tem o poder nas mãos, olhem para a gente como se fosse um parente que necessita de um atendimento. A gente não tem saída, não tem o que fazer. Eu, pai de família e que recebe um salário mínimo, fui procurar saber quanto era o medicamento para comprar para o meu filho. O preço é de R$ 30 mil. Parece que abriu um buraco e eu desabei. Se eu tivesse dinheiro o meu filho estaria sendo tratado em um hospital participar, mas eu dependo disso aqui. A vida do meu filho está aqui dentro.

O medo de Geovani é que o hospital feche e seu filho não resista antes de conseguir o tratamento em outra unidade de saúde.

'O meu sonho é poder comer e beber o que eu quiser'

O que era para ser algo comum para qualquer pessoa é um obstáculo para o jovem Douglas Ribeiro da Silva, de 25 anos. Comer e beber o que quiser não está na lista do rapaz que tem Linfoma de Hodgkin (um câncer no sangue). Há dois anos o jovem luta contra a doença.

— O meu sonho é ter saúde. Poder comer e beber o que eu quiser e viver uma vida normal. Peço que eles me socorram. Muitas pessoas igual a mim precisam disso daqui. Se eu não tomar o medicamento, daqui a pouco eu começo a ter vários caroços pelo corpo, tenho muita tosse que chego até a vomitar, tenho desânimo, não tenho força para fazer nada.

O rapaz diz que teme pela vida caso o tratamento seja interrompido.

— Se fechar, eu temo pelo meu tratamento. Estamos lutando para curar, após a médica me dizer que eu tenho que fazer transplante de medula para acabar com isso. Interromper esse tratamento no meio do caminho é o símbolo da minha morte.