Êxito eleitoral republicano vai ditar oposição 'terra arrasada', diz professor da Johns Hopkins

VINICIUS TORRES FREIRE
·5 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A grande votação do Partido Republicano deve favorecer uma oposição "terra arrasada" ao governo de Joe Biden. Caso sigam como minoria no Senado, os democratas teriam dificuldade de passar reformas importantes. É a análise de Filipe Campante, economista político e do desenvolvimento, professor de economia da Universidade Johns Hopkins, brasileiro do Rio, há 18 anos nos Estados Unidos, ex-professor da Escola de Governo de Harvard, onde se doutorou. Na política externa, o conflito com a China e o ceticismo com o livre comércio são tendências que independem de Donald Trump, embora um governo Biden venha a agir de modo menos grosseiro e volte a estabelecer boas relações com aliados. No caso do Brasil, que nem de longe seria uma prioridade americana, "o anti-ambientalismo e o iliberalismo da política bolsonarista trarão custos ainda maiores, acho que insustentáveis", diz Campante. Folha - As divisões econômicas, sociais, regionais, políticas e ideológicas não vão desaparecer tão cedo, e algumas, nem muito tarde. Em que medida essas polarizações podem ser um problema para um governo Biden? Pode-se esperar um plano de pacificação, por assim dizer? Johns Hopkins - Os republicanos saem fortalecidos com o desempenho surpreendente de Trump e do partido em geral, e por isso adotarão a estratégia de oposição "terra arrasada". Isso pode significar um empecilho intransponível a qualquer agenda positiva sob as regras atuais do Senado. Se os republicanos ficarem com a maioria, há pouco que o governo Biden possa fazer --talvez algo na área de saúde. Nesse caso continuará um ambiente de "gridlock" [impasse], discórdia e exacerbação do esgarçamento institucional. Folha - A inflexão nacionalista na política externa dos Estados Unidos foi um reflexo de Trump ou manifesta tendências subterrâneas relevantes na sociedade e na economia americanas? Johns Hopkins - Isto é, persistiriam a aversão ao multilateralismo, certo protecionismo, um conflito com a China na intensidade que temos visto etc.? Não há dúvida de que há questões de fundo por trás da ascensão de Trump, e isso ficou ainda mais claro com seu desempenho eleitoral acima do esperado. Acho que a grande novidade que irá sobreviver, qualquer que seja o partido no poder, é uma relação mais conflituosa com a China. É realmente notável como em Washington existe quase uma obsessão com a China, e um ceticismo muito grande em todos os lados do espectro. Creio que o que muda sem Trump é uma ênfase no aspecto multilateral, inclusive para confrontar essa percepção de ameaça chinesa. A visão não trumpista é a de que alianças são importantes, e acho que Biden vai priorizar a recomposição dessas alianças depois do desgaste dos últimos anos. No âmbito do comércio, acho que há hoje uma visão bem mais cética do livre comércio como princípio, particularmente pela evidência de que houve efeitos negativos em âmbito local, que ajudaram a eleger Trump. Dito isso, a abordagem deve ser bem mais sofisticada que o uso tosco de tarifas, o que Trump demonstrou que não funciona, para surpresa de nenhum economista. Vide o déficit comercial recorde em relação à China, para não ir mais longe. Folha - Com a vitória de Biden, o que muda em relação ao Brasil? Ou, então, qual mudança americana merece atenção da política e da diplomacia brasileiras? Johns Hopkins - Primeiramente, é preciso ressaltar sempre que o Brasil, sob Trump ou Biden ou qualquer presidente, é um país relativamente desimportante do ponto de vista geopolítico e seguirá sendo. Dito isso, acho que a mudança fundamental vai se dar em relação ao prisma sob o qual o governo brasileiro será visto sob Biden: a do meio ambiente e a da onda populista da qual Bolsonaro é um símbolo mundial. Então obviamente o comportamento da diplomacia brasileira nos últimos anos terá que mudar, não só porque o alvo principal daquele comportamento [Trump] não estará mais lá, mas por uma questão de fundo: o anti-ambientalismo e o iliberalismo da política bolsonarista trarão custos ainda maiores, acho que insustentáveis, sob um novo regime americano. Folha - É possível que a ala esquerda dos democratas tenha influência maior no programa concreto do governo Biden? Johns Hopkins - O fato é que a influência da ala esquerda do partido já está incorporada ao programa de governo de Biden, que o elaborou em conjunto com as facções derrotadas nas primárias. Como isso vai influenciar a prática depende em larga medida da resposta à primeira pergunta acima: estarão os democratas em maioria no Senado e, em estando, optarão eles por fazer as reformas [políticas] que lhes permitirão implementar quaisquer medidas? No momento, parece que não. Folha - O que se pode esperar de ação prioritária do governo Biden, além da aprovação de um pacote de estímulo fiscal tal e qual o proposto pelos democratas até agora? Johns Hopkins - A ação mais imediata será parte da resposta à crise trazida pelo coronavírus. Mais a longo prazo, creio que a diferença dependerá da resposta dos democratas à questão do déficit. É óbvio que os republicanos, como de hábito, irão retomar as preocupações que sempre deixam de lado quando um presidente do partido está no poder. A pergunta é: como reagirão os democratas? Se optarem pela preocupação com o déficit, estarão amarrando as próprias mãos e preparando sua própria derrota política, tal como nos tempos de Obama. Se temperarem a preocupação, dado o cenário de taxas de juros baixíssimas, creio que uma mudança importante será no tipo de prioridades, em comparação com os déficits republicanos: por exemplo, infraestrutura em lugar de cortes de impostos. Como em tudo o mais, o quanto vai mudar depende do que vai acontecer no Senado, e, no momento, como disse, antevejo impasse.