Ícone de estilo, Charlotte Gainsbourg avalia que baixa autoestima afetou carreira e sensualidade

Muitos se referem aos anos 1980 como a “década perdida”, do ponto de vista social e econômico. Outros os louvam por sua importância para a cultura pop, que viveu uma explosão naquele período. Para Charlotte Gainsbourg, de 51 anos, no entanto, aqueles anos remetem a um momento de intensa transformação íntima e profissional. “Amei a minha infância, até os 12 anos. Então, com a adolescência, me tornei muito tímida. Em 1984, com 13 anos, eu já estava fazendo filmes, coisa que adorava, mas achava muito difícil voltar para a vida real, para o convívio com os outros. Quando terminava as filmagens, queria ficar com a equipe”, conta a atriz e cantora franco-inglesa, que cresceu na ponte aérea entre Londres e Paris.

Tais recordações são instigadas pelo tema e o cenário de “Noites de Paris” (“Les passagers de la nuit”, no original), em cartaz nos cinemas brasileiros desde o mês passado. No filme de Mikhael Hers, Charlotte interpreta Elisabeth, uma dona de casa recém-divorciada que se vê obrigada a arcar sozinha com o sustento e a criação dos dois filhos adolescentes.

A trama é ambientada no início dos anos 1980, após a eleição de François Mitterrand, e está cheia de referências ao período, da trilha sonora à direção de arte. Naquela época, os pais da atriz — o provocador poeta e cantor francês Serge Gainsbourg (1928-1991) e a atriz, cantora e ex-modelo britânica Jane Birkin, dois expoentes da cultura europeia — também já estavam separados.

Mas, no caso dos Gainsbourg, a divisão da família não foi exatamente uma experiência traumática. “Eu era muito mimada pelos dois. Passava os fins de semana na casa do meu pai. Foram anos maravilhosos. Lembro de promover o lançamento de filmes. Não havia câmeras de celular. Aquela liberdade era algo muito especial, que perdemos”, reflete Charlotte, acomodada em uma suíte de hotel, durante o Festival de Berlim, onde “Noites de Paris” teve sua estreia mundial. “Acho que o que me incomodava mais, naquele período da vida, era a timidez, que tinha relação com minha aparência. Eu havia me tornado muito consciente do meu corpo, não me achava bonita nem feia. É comum que adolescentes passem por isso. Mas era um problema para mim, porque, na minha família, todos tinham a ver com estética, entende?” “Acho que o que me incomodava mais era a minha timidez, que tinha relação com minha aparência”

No filme de Mikchael Hers, sua personagem se preocupa com tudo, menos com a aparência física. “Mesmo tendo crescido em Saint-Germain-des-Prés (bairro chique e boêmio de Paris), cercada de todas aquelas noções de bom gosto, eu adorava o fato de que Elisabeth não soubesse se vestir direito. Ela é uma dona de casa, uma mulher banal, mas doce e inocente, totalmente voltada para os filhos, e era isso com o que eu me identificava de alguma forma”, explica a atriz. Hers endossa, ao comentar a escalação da atriz para o papel: “Todo mundo conhece Charlotte por seus filmes sofisticados, os ensaios fotográficos para grifes, mas eu sabia que ela seria perfeita para interpretar Elisabeth, uma personagem que vai além das categorias usuais, mostra vulnerabilidade, mas é forte e determinada ao mesmo tempo; é cute e audaciosa; naïf, mas lúcida e inteligente. E Charlotte é capaz de transmitir tudo isso, sensibilidade, fragilidade e força ao mesmo tempo, sem soar falso”.

Charlotte estreou no cinema ao lado de Catherine Deneuve em “Letra e música” (1984), de Élie Chouraqui, e atuou para diretores de renome ao longo da juventude, como Claude Miller (“Ladra e sedutora”, 1988) e Paolo e Vitorio Taviani (“Noites com sol”, 1990). Adulta, construiu a carreira em torno de obras ousadas, como “Não estou lá” (2007), de Todd Haynes, e sexualmente provocadoras, como “Anticristo” (2009), com o qual ganhou o prêmio de interpretação feminina em Cannes, e “Ninfomaníaca” (2014), ambos de Lars von Trier. Aparentemente, a maturidade lhe ensinou a lidar com as inseguranças sobre o próprio corpo. “Só fui capaz de desfrutar da minha juventude muito tarde e, de repente, estava velha (risos). Tenho a impressão de que não fui capaz de aproveitar e me de divertir com a minha feminilidade quando jovem.”

Ao chegar aos 40, ouviu da própria agente: “Você não pode ter qualquer papel. O que esperava com essa idade?”. Agora, aos 50, as ofertas de trabalho continuam chegando, embora limitadas a papéis de sua faixa etária. Mas Charlotte não se conforma com a ideia do envelhecimento físico e as limitações que ele impõe. “Sinto que nós, mulheres, atingimos nossa melhor forma lá pelos 38 anos. A gente entra nos 40 e tudo ainda parece maravilhoso, e então, de uma hora para outra, tudo vai por água abaixo: você tem que aceitar as mudanças no corpo, a falta de elasticidade da pele. Não gosto disso. Claro que admiro mulheres mais velhas, amo observá-las, há uma certa poesia nelas. Mas é difícil aceitar que isso aconteça com você mesma, com seu corpo. Especialmente quando se é uma atriz. Você não quer se ver na tela quando está em momento desfavorável. Quando a luz é boa, ótimo; quando não, você percebe que já não é tão bonita quanto costumava ser.”

Tal como a Elisabeth, Charlotte é dedicada aos filhos. Os dois mais velhos, Alice e Ben, já são independentes, não vivem mais sob o mesmo teto que os pais, mas estão sempre por perto. Joe, o mais novo, de 10 anos, ainda garante a rotina de deveres de casa e levar e trazer da escola: “Não quero perder esses momentos das vidas deles”. Uma dinâmica familiar bem diferente da que experimentou na juventude, dividindo a atenção de pais famosos, que viviam em endereços — e até países — diferentes. Os três são frutos da união com o ator e diretor Yvan Attal, que dirigiu Charlotte em comédias como “Viveram felizes para sempre” (2004) e “Meu cachorro e eu” (2018). Mulher e marido dividem o set novamente em “A acusação”, drama de tribunal em cartaz no Brasil desde o final de outubro, no qual a atriz contracena com Ben, hoje com 25 anos.

Inspirado no livro homônimo de Karine Tuil, “A acusação” descreve o clima de dúvida em torno do julgamento de um universitário, vivido por Ben, acusado de estupro pela filha do novo marido de sua mãe, interpretada por Charlotte. Mais uma vez, a dinâmica da família foi posta à prova. “Quando li o livro, vi o Ben e a Charlotte na minha frente, nesses papéis”, diz Attal. “Não foi difícil para mim, mas talvez tenha sido para eles, pois foram tratados como quaisquer outros durante a filmagem. Em geral, não sou um diretor diplomático, mas também não costumo passar a noite com meus atores em casa. A vantagem é que os conheço tão bem que posso identificar, em uma fração de segundos, o que é real ou soa falso em uma cena. Então provavelmente eu fui mais exigente com eles no set.”

Ano passado, Charlotte lançou “Jane par Charlotte”, documentário sobre o qual diz “buscar por minha mãe” e, ao mesmo tempo, resgatar a memória do pai. “Minha mãe tinha uma beleza incrível, sentia-se livre, e foi muitas coisas ao mesmo tempo. Meu pai também foi uma pessoa original demais para eu me identificar com a forma que ele exerceu a paternidade”, esclarece. No filme, Jane confessa ter tido curiosidade sobre o corpo da filha pré-adolescente, em transformação, mas sentiu-se constrangida pela timidez da pequena Charlotte: “Você era intimidadora, muito misteriosa, como um território inexplorado. Suas respostas eram sempre surpreendentes. Você era tão discreta, tão cheia de segredos. Eu não tinha ideia de como lidar contigo. Mas, desde muito cedo, me sentia privilegiada por estar em sua presença.”

Por muito tempo, Charlotte odiou falar sobre os pais, famosos por sua arte mas também por suas atitudes, transgressoras para a época. Os excessos de Serge Gainsbourg em relação às mulheres, por exemplo, não sobreviveriam hoje, na era do #MeeToo. Em 1984, ele lançou a canção “Lemon incest”, uma espécie de carta de amor para Charlotte, então com 13 anos. No videoclipe para a música, os dois aparecem deitados numa cama, com Serge sem camisa. Dois anos depois, o cantor dirigiu e coestrelou, com a filha, o filme “Charlotte for ever”, sobre um viúvo que desenvolve sentimentos eróticos pela filha adolescente. Charlotte parece ter trabalhado muito bem esse passado conturbado da família: ela prepara-se para abrir, ainda este ano, a casa de Serge em Paris, fechada desde sua morte, como um museu dedicado ao pai: “Tudo o que eu fiz com o meu pai é um tesouro para mim”.