Ícone do samba em Santa Teresa, Sobrenatural anuncia fechamento e sambistas farão ação para salvar a casa

Gilberto Porcidonio
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Roda de solidariedade promovida por sambista poderá salvar o restaurante Sobrenatural do fechamento
Roda de solidariedade promovida por sambista poderá salvar o restaurante Sobrenatural do fechamento

"Se o Sobrenatural fechar, eu fecho junto. Só de falar nisso, me dá um nó", disse Sérvula Amado, proprietária do restaurante Sobrenatural, no Largo dos Guimarães, em Santa Teresa, que corre o risco de ter os seus 30 anos completos este ano como sendo os derradeiros. A casa, que é a responsável pelo renascimento das rodas de samba nos anos 1990 na cidade, está ameaçada de fechar conforme foi publicado na coluna de Ancelmo Gois.

O motivo principal para o fechamento é a crise que, apesar de existir antes mesmo da pandemia, se intensificou com ela e já fechou outros lugares do bairro boêmio como o Espírito Santa em maio. Assim, a frequência do espaço não tem sido mais a mesma e as contas estão estragulando as finanças.

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— Aqui em Santa Teresa, ninguém está tendo lucro e eu não estou conseguindo honrar com os meus compromissos, a conta não fecha. Não consigo pagar FGTS dos funcionários e agora remandei fazer o auxílio deles para 50%. A conta de luz foi parcelada com ajuda de amigos e o aluguel, que é R$ 10 mil, o proprietário está fazendo por R$ 6 mil e eu não consigo pagar nem R$ 4 mil — relata Sérvula.

Por conta do momento, o mundo do samba já está se articulando para ajudar a casa. Na próxima terça-feira, a partir das 19h, bambas como Paulão Sete Cordas, Mart'nália, Pedro Miranda, Dorina e outros farão uma live onde será lançada uma vaquinha para que o restaurante possa pagar as suas contas e, assim, fazer com que o samba por lá não morra.

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— Tomara que dê certo e eu estou até mais felizinha com esse carinho. Eu não consigo me ver em outro lugar e tudo aconteceu ali. A Beth Carvalho, por exemplo, "morava" lá. Se ela tivesse viva, estaria com a bandeira na frente — afirma a dona, que lembra de um "causo" envolvendo a madrinha do samba:

— Uma vez, a gente estava em obra, a casa começou a vibrar por causa da música e um tijolo acabou caindo na cabeça dela. Depois, ela ficava dizendo: "aqui é o único lugar em que recebi uma tijolada e que eu volto".

Na Vila da Penha, na Zona Norte do Rio, o Sir Walter Pub — que, na Copa do Mundo de 2018, ficou famoso após oferecer uma bebida gratuita para cada tombo de Neymar no jogo do Brasil contra a Sérvia — anunciou que está passando o ponto. O anúncio, que foi feito na última sexta-feira nas redes sociais, pegou os clientes do bar que se especializa em rock desde agosto de 2017 de surpresa.

A casa até tentou encontrar soluções para que pudesse sobreviver à pandemia, mas as dívidas com o aluguel e com as despesas locais não estavam aliviando, o que impediu também que a casa pudesse se adaptar às regras de ouro da prefeitura que incluem o uso de áreas abertas em bares e restaurantes. Por isso, como o imóvel não era próprio, os custos continuavam e acaboaram quebrando a economia da casa nesses últimos seis meses.

— O pub é o nosso "menino dos olhos". Aquele lugar tem vida e já tem uma tradição de ser um local de rock há alguns anos. Eu não arriscaria a abri-lo em outro lugar porque não teria a mesma essência — disse Fernanda Abreu, uma das proprietárias da casa.

Enquanto isso, os clientes continuam ligando diariamente para saber do destino do pub, assim como novos interessados também têm aparecido. Por enquanto, as três sócias estão avaliando as ofertas:

— A nossa esperança é que o novo proprietário continue com o mesmo segmento e com a mesma característica porque o Rio está perdendo grandes casa de rock há alguns anos — espera Fernanda.

De acordo com o Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro, dos cerca de 10 mil bares e restaurantes espalhados pela cidade, 2 mil vão fechar as as portas até o fim do ano em função da pandemia. Somente entre març oe maio deste ano, o setor acumulou 23.708 postos de trabalho fechados e 35% dos empresários com dois pontos ou mais já encerraram as atividades em pelo menos um deles.