Ícone do surrealismo português, Fernando Lemos tem acervo de duas mil obras adquirido pelo IMS

Nelson Gobbi
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'Eu, poeta': autorretrato de 1949 é uma das obras que passa a integrar o acervo do IMS

RIO — Fernando Lemos dedica as noites ao exercício artístico, que pode partir do desenho, da pintura ou da escrita. “A noite é mais dramática, mais violenta. Quando o primeiro homem entende que é preciso esperar o tempo passar para ver o sol novamente, a noite inventa o futuro”, ressalta o multiartista português radicado no Brasil desde 1952. A fotografia, expressão que o destacou no fim da década de 1940 junto à geração dos surrealistas portugueses, anda deixada um pouco de lado, mas ainda está no coração de sua obra, produzida ao longo de sete décadas.

A maior parte de seu acervo pessoal, com cerca de dois mil trabalhos, entre fotografias, gravuras, desenhos e peças de design, está de mudança marcada de São Paulo para o Rio. O Instituto Moreira Salles, cuja sede carioca completa 20 anos este mês, acaba de anunciar a aquisição do conjunto, o que irá ampliar a coleção fotográfica da instituição, considerada a maior do Brasil, com mais de 2 milhões de itens.

— Hoje quase já não fotografo. Às vezes vejo algo que renderia uma boa foto, mas é como se a fotografia já tivesse sido feita. Existe um mistério em cada coisa, e já não me interessa transformá-la num eco daquele momento — conta Lemos. — Penso no meu trabalho como uma desocultação, em revelar o que não está à vista. Na minha experiência surrealista eu pude explorar os sonhos, que é o terreno onde nada fica oculto.

Após dois anos de negociações, o acervo está sendo inventariado e catalogado antes de ser transportado para o Rio, onde fica a reserva técnica e a área de pesquisa da instituição. Algumas das obras que seguirão para a capital carioca poderão ser vistas a partir de amanhã pelo público paulistano, com a abertura da exposição “Mais a mais ou menos”, nesta quarta, às 19h, no Sesc Bom Retiro. Com curadoria de Rosely Nakagawa, a mostra reúne 86 obras do artista, entre fotografias, postais, desenhos e pinturas, abrangendo desde a década de 1940 até sua produção deste ano.

— O Fernando tem um pensamento gráfico. Não dá para focar só na fotografia, existe toda uma vertente de raciocínios diferentes nas outras formas de expressão artística que ele explora — observa Rosely, que montou a individual na Galeria 111, em Lisboa, de junho a setembro. — Ele conviveu com a intelectualidade portuguesa na década de 1940, fez registros célebres do grupo de artistas que fazia resistência à ditadura salazarista. Ao chegar ao Brasil, nos anos 1950, ele também se integrou ao grupo de pensadores daqui. Em sua primeira exposição, no MAM do Rio, foi apresentado por ninguém menos que Manuel Bandeira.

Após a pesquisa no acervo que chegará ao instituto, as obras de Lemos poderão ganhar uma futura exposição ou ser publicadas em um catálogo.

— A pesquisa é que vai dizer qual é a melhor forma de levar este conjunto ao público — comenta Thyago Nogueira, coordenador de fotografia contemporânea do IMS. — É importante entendermos o que a organização criada pelo Fernando também diz sobre a sua obra. Na nossa coleção do século XIX, por exemplo, levamos em conta aspectos históricos, mas há sempre alguma conjectura. É um privilégio poder contar com o autor para debater aspectos do seu trabalho.

Para Flávio Pinheiro, superintendente executivo do IMS —que também mantém sedes em São Paulo e em Poços de Caldas (MG) —, a aquisição do acervo multifacetado de Lemos exemplifica algumas das mudanças da instituição nos últimos 20 anos. A data será celebrada com uma exposição de fotos da casa da Gávea (a antiga residência do embaixador Walther Moreira Salles, projetada em 1948 pelo arquiteto Olavo Redig de Campos), assinadas por nomes como Marcel Gautherot e Cristiano Mascaro. No domingo, às 18h, Lenine se apresenta no auditório do espaço.

— São duas décadas de transformações, começando pela mudança de uma casa em centro cultural. Em 1995, a foto foi eleita a área de excelência do IMS, mas isso nunca limitou a vinda de outros acervos. Só a coleção do (pesquisador e colecionador) Leon Barg, adquirida recentemente, tem 31 mil discos de 78 rotações — destaca Pinheiro. — À medida que as coleções cresceram, aumentaram nossas ambições curatoriais. Hoje, mais do que um local de guarda e difusão, também queremos ser um espaço de produção de conteúdo.