Índia ultrapassa as mil mortes por COVID-19 e surpreende especialistas

Trabalhadores municipais com roupas protetoras em Calcutá, Índia

A Índia ultrapassou nesta quarta-feira (29) as 1.000 mortes (dados oficiais) causadas pela COVID-19, registrando cerca de 31.000 casos de infectados, números muito menores do que os da Europa ou Estados Unidos, o que deixou especialistas perplexos.

Eles temiam um desastre na saúde do segundo país mais populoso do mundo (aproximadamente 1,3 bilhão de habitantes), com um sistema de saúde precário e enormes bairros marginais em situação de absoluta miséria.

No entanto, a Índia até agora registrou pouco mais de 31.000 casos e 1.007 mortes, números muito distantes da catástrofe esperada.

"Pode ser que a trajetória da epidemia indiana seja muito diferente das demais por razões que não compreendemos", afirmou à AFP o epidemiologista indo-canadense Prabhat Jha, da universidade de Toronto. "No momento, estamos lidando apenas com hipóteses" para explicar este fenômeno e não temos nenhuma certeza.

Entre os potenciais fatores mencionados está a juventude da população, que resiste melhor a este tipo de vírus.

Poderia ser que a vacina BCG, aplicada massivamente na Índia para combater a tuberculose, proteja mais a população desta pandemia? Investigações sobre os eventuais efeitos protetores desta vacina estão em andamento, mas ainda não há a menor conclusão a respeito.

Os especialistas destacam principalmente a imposição de um confinamento rígido a nível nacional desde 25 de março, apesar até então só terem sido constatados 600 casos e 10 mortes em todo o território do enorme país.

- Muito cedo para proclamar vitória -

A paralisação das atividades significou um golpe terrível para os indianos mais pobres e milhões de trabalhadores, que de repente ficaram sem renda e tiveram que voltar caminhando para seus povoados, às vezes a centenas de quilômetros de distância.

Mas, sem esta medida de confinamento, cerca de 100.000 pessoas poderiam ter se infectado, de acordo com as autoridades, que anunciaram uma prolongação das medidas até 3 de maio.

Ainda é muito cedo para proclamar vitória.

Primeiramente, o número de casos registrados provavelmente está subestimado devido aos poucos meios de detecção disponíveis.

"Constatamos que os números são baixos, mas não sabemos como interpretá-los", resume o virologista T. Jacob John. "Estamos avançando às cegas para obter os números reais", acrescenta.

A dúvida também paira sobre o número real de mortes. Inclusive, mesmo quando a Índia não está enfrentando uma pandemia, quase metade dos 10 milhões de mortos anuais no país não são devidamente registrados, principalmente nas zonas rurais, destaca Prabhat Jha.

No caso da COVID-19, são contabilizadas apenas as mortes em hospitais e é impossível saber qual é a situação nas aldeias mais remotas.