Índia vê aumento de casos de fungo raro em pacientes recuperados da Covid-19

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NOVA DÉLHI — Epicentro global da pandemia de Covid-19, registrando mais de 10 milhões de casos apenas nos últimos quatro meses, a Índia vê mais um complicante para tratar seus pacientes. Médicos pelo país relatam o aumento dos casos de uma infecção fungal raríssima entre pacientes em recuperação e já recuperados do coronavírus, relata a BBC.

A mucormicose, nome desta doença, causada pela exposição a um tipo de fungo comumente encontrado no solo, plantas, esterco e frutas e vegetais em decomposição. Ele afeta os seios da face, o cérebro e os pulmões e pode ser fatal em diabéticos ou em indivíduos com o sistema imunológico debilitado.

Os médicos acreditam que a mucormicose, que tem uma taxa de mortalidade de 50%, pode ser desencadeada pelo uso de esteróides, parte central do tratamento para pacientes de Covid-19 em estado grave. Os remédios reduzem a inflamação pulmonar e ajudam no combate aos impactos do coronavírus, mas também reduzem a imunidade e causam um aumento das taxas glicêmicas no sangue. Assim, criam um ambiente propício para a infecção fungal.

Ao site britânico, o médico Akshay Nair, um cirurgião oftalmológico em Mumbai, disse que tratou cerca de 40 pacientes com a doença em abril, muitos deles diabéticos. Entre dezembro e fevereiro, cinco de seus colegas, em seis cidades, relataram sozinhos 58 casos da infecção, que geralmente aparece de 12 a 15 dias após a recuperação da Covid-19.

Apenas o hospital Sion, de Mumbai, relatou 24 casos de mucormicose nos últimos dois meses, quatro vezes mais que a média anual de seis casos, disse Renuka Bradoo, diretor de otorrinolaringologia do hospital, à BBC. Onze pessoas precisaram perder um olho e seis morreram.

Na cidade de Bengaluru, o médico Raghuraj Hegde disse que habitualmente não vê mais de um ou dois casos da doença por ano. Apenas na última semana, foram 19, vários deles debilitados demais para serem operados.

Os pacientes, muitos deles jovens, geralmente apresentam sintomas como sangramentos nasais, olhos e dor no olho e queda das pálpebras. Conforme o quadro progride, há perda de visão. Outro sintoma comum são manchas pretas no nariz.

A maior parte dos pacientes chega ao hospital já em estado avançado, e os médicos não raramente precisam remover cirurgiamente o olho para conter a infecção e impedir sua chegada ao cérebro. O único remédio efetivo contra a doença, aponta a BBC, é uma injeção intravenosa que custa 3,5 mil rúpias (R$ 251) a dose e precisa ser aplicada diariamente por oito semanas.

Enquanto isso, a pandemia não dá sinais de arrefecer no país do Sul Asiático. No sábado, a Índia registrou mais de 4.000 mortes por Covid-19 em 24 horas e mais de 400 mil novas infecções, embora os especialistas acreditem que os números oficiais sejam muito subestimados.

Em entrevista à AFP, a cientista-chefe da Organização Mundial de Saúde (OMS), Soumya Swaminathan, alertou que a variante B.1.617, detectada pela primeira vez em outubro, agrava a pandemia em seu país. Segundo a especialista, a cepa é mais contagiosa e tem características que podem tornar as vacinas menos eficazes.

A B.1.617 "apresenta mutações que aumentam a transmissão e que também podem torná-la potencialmente resistente aos anticorpos desenvolvidos pela vacinação ou pela contaminação natural", ela afirmou. Ela ressalta, no entanto, que a variante não é a única culpada pelo aumento dramático de casos na Índia, que parece ter baixado a guarda muito cedo.

No último mês, enquanto a cepa se espalhava por todos os 28 estados do país, a média móvel de novos casos aumentava mais de cinco vezes e a de mortes, mais de oito. Apesar disso, o primeiro-ministro Narendra Modi autorizou a realização de dois festivais e inúmeros comícios políticos superlotados, sem nenhuma medida de proteção — tendo ele próprio participado de vários desses eventos, de olho nas eleições legislativas.

Seu governo promoveu tratamentos ineficazes contra a doença, enquanto dizia que a pandemia já havia chegado ao fim. O casos, contudo, continuavam a crescer gradativamente, até explodirem em abril.

— Esses primeiros sinais foram ignorados até (as transmissões) atingirem um ponto de decolagem vertical — disse a cientista.

Até o momento, a Índia, maior produtor mundial de vacinas, inoculou duas doses em apenas 2% de sua população. Apesar dos esforços para acelerar a campanha, a pesquisadora alerta que deverá levar meses "talvez anos, para chegar a um índice de 70 a 80%" da população imunizada. Enquanto isso, ela diz, são urgentemente necessárias o endurecimento das medidas sanitárias e de distanciamento.

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