Índios retomam Aldeia Maracanã, estopim de protestos de 2013 no Rio

LUCAS VETTORAZZO

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Mais do que o aumento das passagens de ônibus, o estopim para os protestos de junho de 2013 no Rio foi a desocupação violenta da Aldeia Maracanã.

Desde 2006, cerca de 30 índios de cinco etnias faziam do antigo prédio do Museu do Índio, no complexo do estádio do Maracanã, sua moradia. O objetivo era criar ali um centro de referência da cultura indígena no Rio.

Com a proximidade da Copa de 2014 e as obras de reforma no estádio, o governo do Estado deu ordem para desocupar o prédio, um antigo sobrado do tempo do Império, há muito abandonado.

Na noite de 22 março de 2013, ativistas souberam que os índios da aldeia, entre eles mulheres e crianças, estavam prestes a serem removidos.

Cerca de 50 pessoas foram ao local apoiá-los. A Polícia Militar usou bombas de gás, spray de pimenta e tiros de borracha, equipamentos até então pouco conhecidos pelos jovens que mais tarde tomariam as ruas da cidade.

"Meu filho de três anos foi atingido pelo spray de pimenta. Foi uma correria grande, um desespero. Não entendíamos o motivo de nos atacarem daquela forma", recorda Potira Guajajara, 50.

Vinda da tribo Guajajara, original do Maranhão, ela chegou ao Rio em 1994. Morou nas favelas da Rocinha e do Alemão antes de se mudar para a aldeia, onde, pela primeira vez desde que emigrou, convivia com seus pares.

"Decidimos criar a Aldeia para termos, além de uma moradia comum, um espaço vivo de cultura indígena que não fosse simplesmente um museu", explica.

A anedota que circula atualmente no Rio é que, ao ordenar a desocupação, o então governador Sérgio Cabral teria mexido com os espíritos ancestrais dos primeiros ocupantes do Brasil e atraído uma maldição. Em novembro, ele foi preso por por suspeita de corrupção no Estado, após investigações da Lava Jato.

"A única coisa que temos atualmente é a questão espiritual, porque todo o resto nos foi tirado", afirma o cacique José Urutau Guajajara, 55. Ele foi um dos líderes da resistência.

Quando o governo assinou o contrato de concessão do Maracanã ao consórcio formado pela Odebrecht e empresas de Eike Batista, em dezembro de 2013, Urutau subiu em uma árvore ao lado do prédio e ali ficou por quase 48 horas.

Apoiadores jogavam garrafas de água e comida para que o cacique resistisse. Depois de uma operação com o uso até de uma escada do Corpo de Bombeiros, a Aldeia foi mais uma vez desocupada.

RETOMADA

Marcelo Odebrecht, presidente da construtora, está preso. Eike e Cabral também. A Copa passou, assim como as Olimpíadas. O complexo do Maracanã não foi para frente da forma como fora concebido -uma área com lojas, espaço de alimentação e estacionamento que demandaria a demolição de todos os equipamentos do entorno do estádio, com uma escola, um estádio de atletismo e outro de natação, além do antigo prédio do Museu do Índio.

O edifício continua onde estava, abandonado. Sem ter como arcar com os custos do local, a concessionária tenta devolver a concessão. O governo do Estado não tem dinheiro para pagar servidores em dia, nem para reassumir o estádio ou fazer qualquer obra no local.

Os índios sentiram que a falência do Estado era o momento para ensaiar a retomada do espaço.

Um grupo decidiu voltar, em outubro passado. Na impossibilidade de reocupar o prédio, instalaram-se no estacionamento ao lado. Cerca de 20 pessoas habitam o local, numa população que flutua nos finais de semana. Eles vivem de doações e apoio de simpatizantes.

Quem vai ao estádio atualmente encontra seis ocas de palha e bambu instaladas sobre o asfalto, ainda demarcado com as vagas de estacionamento. Quase diariamente, um grupo arrebenta o asfalto com picaretas e pás para chegar ao solo. Hoje, na Aldeia, o que se vê são hortas em desenvolvimento.

Diferentemente de tempos passados, a polícia não os incomoda. Em dias de estádio lotado, as autoridades cercam a o local com grades móveis. Barricadas com troncos foram colocadas pelos índios nos pontos de acesso ao estacionamento, impedindo a circulação de carros.

Os motivos dessa convivência pacífica são dois, na visão de Urutau: o governo de Luiz Fernando Pezão, fragilizado com a grave crise fiscal, não teria interesse em atrair para si mais um foco de oposição.

Uma decisão judicial também permitiu que eles ocupassem o local. Uma ação civil pública foi movida pelos índios na Justiça Federal, requerendo o direito sobre o terreno. Eles obtiveram liminar que garante o manejo da terra no entorno do prédio enquanto a disputa não é julgada.

"Eu nem considero mais uma ocupação, porque agora temos direito a essa terra. Hoje nós chamamos de retomada", diz ele.