Óleo chega a 200km da divisa do Espírito Santo com Rio de Janeiro, e estado capacita municípios

Giselle Ouchana

RIO — O governo do Rio já capacitou cerca de 200 pessoas, incluindo servidores de 25 municípios costeiros, na preparação para uma eventual chegada à costa fluminense do óleo derramado, que já afeta dez estados brasileiros. Segundo dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama), a praia mais ao Sul atingida pelo petróleo é a Formosa, em Aracruz, no Espírito Santo, a pouco menos de 200 quilômetros da divisa com o estado do Rio.

No fim de outubro, o governador Wilson Witzel (PSC) criou um grupo de trabalho especial para monitorar o avanço do óleo, encabeçado pela secretaria de Ambiente e Sustentabilidade. Segundo a titular da pasta, Ana Lucia Santoro, não é possível garantir que o óleo não atingirá as praias do estado, mas a chegada também é tida como incerta. O trabalho, diz ela, visa garantir que as equipes responsáveis pela limpeza estejam capacitadas se o pior se confirmar.

— Precisamos agir de uma forma preventiva. Não podemos ficar de braços cruzados diante da possibilidade, ainda que incerta, de chegar aqui. Ninguém recebeu do governo federal nenhuma orientação de que não vai chegar ou que (o óleo) se esgotou — explica a secretária. — O que recebemos do governo federal, na verdade, é só muita incerteza.

Os municípios que estão sendo treinados são: São Francisco do Itabapoana, São João da Barra, Campos dos Goytacazes, Quissamã, Carapebus, Macaé, Rio das Ostras, Casemiro de Abreu, Cabo Frio, Búzios, Arraial do Cabo, Araruama, Saquarema, Maricá, Niterói, Itaguaí, Mangaratiba, Angra dos Reis, Paraty, São Gonçalo, Guapimirim, Magé, Itaboraí, Duque de Caxias e Rio de Janeiro.

A raiz do problema estaria na origem desconhecida do vazamento, o que dificulta a previsão da trajetória do óleo, mesmo através da modelagem de correntes. O petróleo vem avançando na direção Sul da costa e, por isso, a primeira etapa do treinamento contempla os municípios do Norte e Noroeste do estado, os primeiros que seriam atingidos pelo petróleo.

Inicialmente, os trabalhos começaram internamente, com servidores do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), que depois agiram como multiplicadores nos municípios escolhidos pelo grupo de trabalho. O treinamento tem uma parte teórica e outra prática, realizada em uma praia reservada do Exército, para “não gerar uma comoção descabida” por parte da população, que poderia se assustar com o contingente de funcionários treinando na praia e portando equipamentos de proteção individual (EPIs).

Óleo 'diferente'

A próxima fase da capacitação incluirá a Região dos Lagos e, por fim, as cidades da Região Metropolitana e do Sul Fluminense. A probabilidade de avançar tanto no litoral do estado, no entanto, é muito improvável, na avaliação de Ana Lucia.

— Se olharmos a costa do estado, a corrente de água quente que desce do Nordeste, que teoricamente está trazendo esse óleo, “encosta” no estado só na região Norte. Há em Arraial do Cabo uma área de ressurgência, que é uma água fria que vem de baixo (do mar), e afasta a corrente de água quente da costa — detalha. — A corrente do Nordeste nem chega na Região Metropolitana e Sul do Estado. Então a probabilidade de chegar nesses locais é ainda mais baixa.

Ana Lucia, que acabou de retornar da Semana Brasileira do Clima, em Pernambuco, se reuniu com todos os secretários estaduais equivalentes à sua pasta, e disse ter trocado muitas informações com os pares do Nordeste. A secretária também destacou que o Inea conta com um plano de contingência que incluiu estratégias de emergência na hipótese de óleo nas praias. Embora haja um “modus operandi” definido, a colaboração nordestina é importante para traçar possíveis cenários para o Rio.

O óleo que chegou ao Espírito Santo, segundo ela, tem “características totalmente diferentes” do Nordeste, o que mitigaria os impactos do material que porventura chegue em praias fluminenses.

— É a mesma origem, mas ele já está diferente. O que chegou no Nordeste formava aquelas borras grandes e moles, e o que está chegando no Espírito Santo forma umas manchinhas menores e com grau de maturação bem diferente pelo intemperismo da água. São como pedrinhas — exemplifica. — Precisaríamos definir onde descartaríamos o óleo. Estamos abertos a todas as possibilidades, desde cimenteiras, que acho que não será possível pela diferença do óleo, até o descarte em aterro sanitário caracterizado para esse tipo de material.