A última entrevista de Daniella Perez

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Eu não podia imaginar, por mais abominável que seja esse clichê do jornalismo, desaconselhado nos manuais de boas práticas da profissão, eu não podia imaginar que estava fazendo a última entrevista de Daniella Perez.

Era uma matéria do tipo fofa e só podia ser desse jeito. Aos 22 anos, ela brilhava, talento e beleza aos montes, como a revelação de 1992, a Yasmim malandrinha carioca da novela “De corpo e alma”. Na vida pessoal, seu único drama era decidir se investia na carreira de atriz, e se tornava, quem sabe?, uma Fernanda Montenegro, ou continuava na vocação descoberta desde a infância, a dança, e, quem sabe?, entrava para a companhia de Twyla Tharp, a coreógrafa americana de quem era fã.

No texto fofo eu juntei essas questões de uma existência feliz com o sucesso nacional, a sensualidade elegante no formato de uma mulher baixinha, nada muito além de 1,60, e comparei-a com outras musas da mesma proporção – a pequena notável Carmen Miranda, a pimentinha Elis Regina.

Daniella Perez começava a substituir a também mignon Regina Duarte, atualizando com modernidade, garota Zona Sul do Rio, o perfil de namoradinha do Brasil – e, no entanto, quem poderia imaginar? Poucos dias depois desse nosso encontro delicado no alto do Jardim Botânico, no aconchego da casa de sua mãe, a escritora Gloria Perez, ela estaria morta, 18 facadas de uma selvageria tal que o coração ficou exposto fora do peito.

Por mais que eu tivesse passado a infância me preparando para a vida e para o jornalismo com a leitura semanal de “O impossível acontece”, seção da revista O Cruzeiro, era uma tragédia que não dava para imaginar.

“Pacto brutal – O assassinato de Daniella Perez”, a série que a HBO Max exibe desde a semana passada, atualiza a memória do horror – já se matavam mulheres pelo fato de elas serem mulheres – e deixa o país estarrecido. Não é só pela monstruosidade do crime passado, mas pela constatação de que nada mudou.

Agora, em cinco capítulos de imagens inéditas, esta antiga namoradinha do Brasil voltará a ser morta no mesmo momento em que as novas continuam tombando. De faca, bala ou porrada, todo dia há mulheres exterminadas no noticiário que antecede a novela.

São vítimas de maridos, namorados, toda sorte de amantes que, por decisão delas, já deixaram de sê-lo faz tempo, mas eles não se conformam. Todos se acham no direito de algum tipo de vingança violenta que lave a honra do macho – e, como Guilherme de Pádua no matagal da Barra da Tijuca, matam suas Daniellas.

A matéria, que eu não imaginava seria a última entrevista de Daniella Perez fora do estúdio de gravação, já estava impressa quando houve o crime. Foi melhor assim. A revista saiu com os verbos no presente, os projetos da atriz conjugados num futuro promissor – “tenho essa carinha de pura, mas quero fazer uma vilã” –, sonhos de felicidade que a morte deixou no passado.

O primeiro capítulo de “Pacto brutal” mostra várias vezes o edifício onde aconteceu a entrevista, no alto da Rua Maria Angélica, e a minha memória particular, fora dos arquivos da HBO Max, vai editando as cenas daquele fim de tarde alegre: o café com bolo, a coreografia em que Daniella Perez me reproduz os passos engraçados de um balé visto na véspera – e o assombroso perfume da flor da noite, quem poderia imaginar?, que abençoava de paz as ladeiras do Jardim Botânico.

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