Último dia de horário eleitoral no Rio tem apelo por voto útil contra Crivella e ataques entre Paes e Martha

Paulo Cappelli, João Paulo Saconi e Bernardo Mello
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Foto: Foto: Montagem/ Propaganda eleitoral
Foto: Foto: Montagem/ Propaganda eleitoral

RIO - Uma estratégia semelhante foi adotada pelos candidatos à prefeitura do Rio Eduardo Paes (DEM) e Martha Rocha (PDT) nesta quinta-feira, último dia de propaganda eleitoral no rádio e na televisão antes do primeiro turno. Tanto o ex-prefeito quanto a delegada apostaram no alto índice de rejeição do prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), o maior entre todos os postulantes, para moldar o discurso e turbinar a campanha às vésperas da votação. Os dois também trocaram farpas entre si, a exemplo do que vinham fazendo nos últimos dias: Paes tentou minar o voto da esquerda em Martha, que buscou relacionar Paes a Crivella e ao governador afastado Wilson Witzel (PSC).

Martha citou o fato de estar tecnicamente empatada com o prefeito para tentar convencer o eleitorado a "tirar Crivella do segundo turno". Na propaganda, o locutor finaliza: "As pesquisas apontam que Martha Rocha é a única que pode tirar Crivella do segundo turno. A decisão está com você". Com isso, a pedetista mira o voto útil e tenta concentrar na sua candidatura o eleitorado de esquerda, principalmente os simpatizantes de Benedita da Silva (PT).

A petista aparece tecnicamente empatada com Martha, mas com três pontos percentuais a menos que a delegada, segundo a última pesquisa Datafolha divulgada nesta quarta-feira (11). Martha registrou 11% das intenções; Benedita, 8%. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos de acordo com o Datafolha.

Martha Rocha também usou sua propaganda para relacionar Paes a Crivella e a Witzel. Em inserções, afirmou que Nilton Caldeira (PL), vice na chapa de Paes, ocupou cargos comissionados nas gestões do atual prefeito e do governador afastado. "Chega dos mesmos", finaliza a peça.

Paes, por sua vez, usou sua propaganda no rádio e na televisão para dizer que é "o único candidato que dá certeza do Crivella fora da prefeitura". Baseada em pesquisas eleitorais que fizeram simulações de segundo turno, a estratégia do ex-prefeito é convencer o eleitorado de que um embate entre entre Martha e Crivella seria um cenário indefinido, ao passo que, com ele, a vitória sobre o prefeito estaria garantida. O objetivo é, também, enfraquecer o discurso de Martha, vista por Paes como uma adversária mais difícil de ser batida no segundo turno. Ao longo da campanha, o ex-prefeito martelou que o Rio "não pode eleger Crivella de novo" e tampouco um "novo Witzel", numa referência indireta à delegada Martha Rocha.

Paes tentou ainda minar o voto útil da esquerda em Martha Rocha. Em inserções veiculadas ao longo do dia, a campanha de Paes afirmou que, como chefe da Polícia Civil, Martha Rocha manteve preso Rafael Braga, manifestante que participou dos protestos de 2013 e cuja soltura é pleiteada por militantes do PSOL e do PT.

Já o prefeito Marcelo Crivella, no seu último dia de propaganda eleitoral, continuou apostando na estratégia já implementada ao longo das últimas semanas: vincular sua imagem à do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Na peça, Crivella aparece com Bolsonaro em uma dança protagonizada por ambos em fevereiro deste ano e termina com o próprio presidente falando o bordão que marcou sua campanha eleitoral 2018: "Brasil acima de tudo. Deus acima de todos". Às vésperas da eleição, a campanha do prefeito avalia que boa parte do eleitorado ainda não sabe que Crivella é o candidato de Bolsonaro.

Na propaganda noturna, a imagem de Bolsonaro ocupou menos tempo do bloco de Crivella, dando lugar a um funk lançado em agendas de rua do prefeito há cerca de três semanas. A letra prioriza aspectos da gestão local, e afirma que Crivella foi "destaque no Brasil" por sua atuação na pandemia da Covid-19, quando adotou medidas favoráveis ao distanciamento social, na contramão do que o presidente pregava. O funk vinha sendo usado por Crivella em suas redes sociais num aceno em busca do eleitor mais jovem, segmento no qual o prefeito perdeu apoio ao longo da campanha, segundo as pesquisas.

Benedita da Silva utilizou a última oportunidade de conversar com o eleitorado para reforçar sua aliança com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A propaganda veiculada nesta quinta-feira foi iniciada com duas fotos antigas dos dois juntos, rodeados pela militância petista. Em sua fala, Benedita afirmou já "podia se aposentar", mas "aceitou o chamado para disputar a prefeitura".

Apesar de tradicional, o horário eleitoral não foi necessariamente a faixa mais prestigiada pelas campanhas este ano, até aqui. A estratégia dos candidatos acabou sendo revelada em outros momentos da programação de TV e rádio: as curtas inserções veiculadas ao longo do dia. O conteúdo delas teve tom mais quente do que o das faixas pré-definidas no início da tarde e da noite, cuja audiência caiu em relação a anos anteriores.

Foi através das inserções que se deu a principal disputa midiática deste turno, entre Paes e Martha Rocha. Em um dos momentos mais expressivos da corrida pela prefeitura, o candidato do DEM passou a desgastar a adversária quando ela começou a subir nas pesquisas de intenção de voto — essa tendência não se refletiu nos levantamentos mais recentes do Ibope e do Datafolha.

Confira abaixo os momentos mais importantes da campanha na TV e no rádio:

No fim de outubro, o presidente Jair Bolsonaro declarou publicamente apoio à reeleição de Crivella. Embora o prefeito já tivesse recebido autorização para explorar a imagem de Bolsonaro, a declaração foi comemorada pela campanha dele, que tem como principal estratégia a vinculação com o presidente.

— Se Deus quiser você vai ser reeleito prefeito do Rio de Janeiro — disse Bolsonaro, na gravação feita ao lado de Crivella.

O anúncio, no entanto, não fez a campanha do prefeito decolar e ele permanece empatado tecnicamente com Martha Rocha e Benedita da Silva. No início desta semana, a Justiça Eleitoral chegou a suspender a veiculação de uma das propagandas com a presença de Bolsonaro, porque o tempo de exposição do presidente superava o permitido por lei.

Para tentar convencer o eleitor a não optar pela pedetista, Paes recorreu a um recorte antigo do "Jornal do Brasil", de junho de 1996, abordando um afastamento de Martha de suas funções na Polícia Civil. A delegada havia sido mencionada no depoimento da mulher do bicheiro Castor de Andrade como parte de um esquema criminoso envolvendo policiais. As investigações da época, no entanto, concluíram que Martha não tinha cometido irregularidades. O jornal também relatou, à época, que a policial mantinha um relacionamento com um delegado preso na investigação, o que foi explorado por Paes em inserções na TV. Questionada sobre o tema em entrevista na rádio Tupi, Martha defendeu sua atuação, mas não comentou sobre o referido relacionamento.

Paes também utilizou o espaço na TV para comparar Martha ao governador afastado Wilson Witzel (PSC), seu rival na eleição de 2018 para o Palácio Guanabara. A imagem da candidata do PDT foi associada com frequência à frase: "O Rio não merece um novo Witzel".

Na tentativa de conter a desconstrução da própria imagem, que também foi encampada pela campanha de Luiz Lima (PSL), Martha Rocha inserções para reagir a Paes. A parlamentar tentou colar no ex-prefeito o rótulo de "malandro", numa referência indireta às acusações que ele recebeu de delatores da Odebrecht. A delegada também fez referência à ideia de que limparia o Rio, chegando a exibir a imagem de produtos de limpeza para o eleitor.

Em um desses movimentos defensivos, Martha chegou a veicular uma inserção intitulada "Direito de resposta" sem que tivesse conquistado judicialmente o espaço para responder às afirmações exibidas por Paes diante dos eleitores. O caso foi judicializado pela equipe do ex-prefeito, sob o argumento de que a candidata mentiu ao público que acompanhou a propaganda.

Após Martha subir nas pesquisas, Paes afirmou em sua propaganda, por meio de um locutor: "Tem o candidato do Lula (Benedita da Silva), tem o candidato do Ciro Gomes (Martha Rocha), tem o candidato do Bolsonaro (Crivella)". Na peça, Paes afirma que é "o candidato do Rio". A estratégia buscou explorar a rejeição dos caciques citados e reforçar o discurso de que terá boa relação com o governo federal, seja quem for o presidente.

As aparições de Lula nos vídeos de Benedita da Silva também marcaram o horário eleitoral da petista neste primeiro turno. O ex-presidente gravou mensagens com pedidos de votos para a correligionária e também foi homenageado por ela diversos comerciais, como um exibido no dia 27 de outubro: "O homem que dedicou a vida a fazer justiça merece justiça. Lula, 75 anos. Parabéns. Comemore dia 15 de novembro", afirmou um locutor, em referência à data da votação.