Último dia de petista assassinado teve manhã especial, culinária e pagode

FOZ DO IGUAÇU, PR (FOLHAPRESS) - O guarda municipal Marcelo de Arruda vinha planejando o seu aniversário de 50 anos havia um bom tempo. Ele queria que aquele fosse um dia inesquecível.

Os preparativos em Foz do Iguaçu incluíram o aluguel de salão de festas em um clube local e a encomenda da decoração vermelha e branca, feita para ser adaptada à temática escolhida, uma homenagem ao PT e ao ex-presidente Lula. Marcelo era um atuante militante petista.

Aquele dia 9 de julho, porém, terminaria com o assassinato de Marcelo pelo policial penal bolsonarista Jorge Guaranho, que invadiu a festa, gritou palavras a favor do presidente Jair Bolsonaro (PL) e contra o PT e atirou em seguida.

O sábado que acabou trágico amanheceu com celebração.

Marcelo ganhara de presente um café da manhã especial de um de seus melhores amigos, André Alliana, dono de um camping. Ele, a mulher e a filhinha de 40 dias do casal encontraram uma mesa farta quando chegaram ao local, por volta das 9h.

Marcelo estava feliz, segundo relato do amigo. Acabara de ser pai pela quarta vez, o que lhe dava um ar ainda mais alegre que de costume. O papo, descontraído, durou por volta de uma hora e meia.

"Como o Marcelo era o cozinheiro da festa, ele gostava de fazer as comidas, ele precisava finalizar algumas coisas", lembra a viúva, Pâmela. O cardápio do dia era um prato chamado entrevero, uma mistura de carnes bovina, suína e de frango.

Era um aniversário especial para Marcelo, que incluiu preparativos que não foram feitos em anos anteriores. "A princípio, a gente não ia fazer por questão de grana. Mas depois falamos: 'Quer saber, grana sempre vai faltar. Vamos fazer porque não é todo dia que se faz 50 anos'".

Marcelo disse que, já que haveria a festa, queria escolher o tema -o assunto escolhido foi o PT, partido do qual era tesoureiro e pelo qual já disputara eleições para vereador e vice-prefeito.

A relação dele com o partido era longa, datava da época que se impressionou com a figura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nos anos 1990, quando também se engajou no sindicalismo ao entrar na Guarda Civil Municipal de Foz do Iguaçu.

Como não havia decoração com temática do PT para alugar, o jeito foi pedir uma vermelha e branca, que depois seria incrementada com adereços da sigla, incluindo uma toalha do ex-presidente.

O local da festa seria a Aresf, uma associação de funcionários de Itaipu, cujo salão foi alugado por um irmão de Marcelo, ex-funcionário da companhia.

A festa seria à noite, mas, por volta das 15h, Marcelo saiu de casa com a família rumo ao salão de festas, em um trajeto de apenas cerca de cinco minutos de carro.

Logo em seguida quem apareceu foi Leonardo, 26, o mais velho entre os quatro filhos de Marcelo. Ele lhe deu de presente um copo térmico que o pai pedia havia tempo. A cor, para combinar com a festa, era vermelha.

Leonardo encontrou o pai atarefado com o trabalho na cozinha. Acabou incumbido de cortar o vinagrete e fazer os molhos -Marcelo era exigente na apresentação dos pratos e cobrava cortes padronizados nos alimentos.

A essa altura, em outro lugar na mesma cidade, o policial penal Jorge Guaranho, 38, também estava incumbido de assuntos de cozinha, em uma comemoração da família de sua mulher.

"Pediram para ele ir acender a churrasqueira e fazer o churrasco para eles", diz a mãe dele, Dalvalice Rosa. Depois de um tempo, segundo ela, a mulher de Guaranho, mãe de um bebê recém-nascido, também foi até o local, embora estivesse um pouco contrariada.

O casal havia se conhecido quatro anos antes, quando o policial penal se mudou do Tocantins para o Paraná. Ambos viviam em uma casa espaçosa, em um bairro de classe média de Foz do Iguaçu, a apenas quatro minutos de carro da Aresf -associação frequentada pelo policial e onde ocorria a festa de Marcelo.

Veio a noite em Foz do Iguaçu, e o aniversariante estava ansioso. Poucos convidados haviam chegado à festa.

"Ele estava meio preocupado, disse que tinha feito bastante comida: 'Não sei se o pessoal vai chegar, se o pessoal vai vir'", lembra o filho, que tranquilizou o pai dizendo que aqueles que viessem seriam os que deveriam estar lá com ele naquele dia.

Os amigos começaram a chegar, e a tensão inicial de Marcelo se dissipou. Leonardo aproveitou para elogiar o evento: "Tua festa tá massa". "Você é o cara, me ajudou", o pai respondeu.

Ainda havia muito chope, e Marcelo não queria ir embora tão cedo. Tocava pagode, incluindo músicas do grupo Revelação, do qual o petista era fã.

Se no Brasil a polarização política havia interrompido relações de anos, até ali isso não acontecia na festa. Amigos de Marcelo relatam que, entre as brincadeiras da noite, estava tentar fotografar convidados bolsonaristas que passavam próximos aos adereços do PT.

Além das bexigas vermelhas, havia dois tonéis com a sigla PT e uma toalha na parede com a foto de Lula.

O clima de brincadeira com a questão política, inclusive, faria mais tarde com que Jorge Guaranho, ao gritar o nome de Bolsonaro, tenha sido confundido com um amigo do aniversariante. Alguém teria dito a Marcelo: "Vai atender que chegou mais um amigo seu bolsonarista".

No churrasco onde estava Guaranho, um dos convidados abriu o aplicativo com acesso às imagens das câmeras da Aresf, onde era possível ver a decoração petista, segundo testemunha ouvida pela polícia.

O homem era ligado ao clube e tinha o hábito de verificar as câmeras por questão de segurança. O policial penal, que estava na rodinha, fica sabendo da festa. Na hora, não teria comentado nada. Ele continuou por mais de uma hora no churrasco antes de sair e se dirigir até o clube.

Quando o policial chegou no local, com a mulher e o filho em um Hyundai Creta, ouvia a música com os dizeres: "O mito chegou e o Brasil acordou".

Aí o que era festa começou a virar tragédia.

Amigos e familiares relataram à Folha que Guaranho passou uma vez de carro em frente ao lugar, retornou e ficou xingando.

Marcelo, segundo amigos, teria dito: "Cara, vai embora, isso aqui é uma festa particular". As imagens das câmeras mostram o homem gritando algo, Marcelo pegando terra de uma floreira e lançando contra ele.

O policial, então, sacou uma arma. A mulher do petista, que é policial civil, apareceu para apaziguar a situação, e o homem foi embora -segundo relatos ouvidos pela Folha, prometendo voltar.

"Eu pensei na hora: vou ligar pros colegas para levantar a placa e vir uma viatura aqui, mas não deu tempo", relata Pâmela.

Marcelo voltou para dentro da festa relatando a André Alliana o episódio e dizendo que ia buscar uma arma. "Para, ele não vai voltar", disse o amigo. Marcelo respondeu: "Vai que esse louco volta e pega a gente desprevenido".

Marcelo não era do tipo de que vivia grudado com a arma e, durante a festa, havia deixado sua Taurus PT 380 no carro. "Em quase 30 anos, nunca vi ele dar um carteiraço, apontar uma arma, era o cara da paz", diz André.

Daquela vez, porém, Marcelo sabia que não era brincadeira. Foi até o veículo, voltou com a arma e a festa seguiu.

Segundo relato de familiares de Guaranho, que negam a motivação política da agressão, o policial penal se sentiu ameaçado com a reação dos participantes da festa e, por isso, voltou. "Isso não vai ficar assim, nós fomos humilhados", teria dito o policial à esposa, segundo a polícia.

Guaranho não cedeu aos apelos da mulher e, mesmo assim, resolveu voltar. Encontrou o portão fechado e, interpelado pelo caseiro, ele disse: "Sai da frente, o problema não é com você, eu vou entrar".

Às 23h40, ele estacionou novamente o carro em frente ao salão. Algumas pessoas avisaram a Marcelo que Guaranho havia voltado, e o guarda civil carregou a arma e a colocou na cintura.

Com o distintivo na mão, Pâmela tentou argumentar com Guaranho. "Eu estava tentando estabelecer um diálogo com ele para que ele se acalmasse. Na minha ideia, aquele tipo de briga é idiota, não tem cabimento ficar discutindo se sou Bolsonaro e PT. Estava dizendo baixa a arma, aqui é polícia, e ele, quando viu o Marcelo, fez os disparos".

Antes dos tiros, porém, Marcelo e Guaranho, armados, pediram um para o outro abaixarem a arma por alguns segundos. Até que o policial penal aperta o gatilho primeiro e disparou na direção de Marcelo com uma Taurus .40, sua arma funcional.

Em seguida, ele correu para dentro do salão de festas e mira em Marcelo, caído no chão. No total, foram quatro tiros, sendo que dois atingiram o petista.

Pâmela veio atrás e consegue derrubá-lo -ela diz que só sabe exatamente o que fez por ter visto o vídeo ("se falar que lembro, não lembro, o corpo responde tão rápido").

É nesse momento que Marcelo, mesmo baleado no chão, reagiu. Ele deu dez tiros, e quatro atingiram o policial penal.

A festa terminou com ambos caídos, um de cada lado do salão: Marcelo, que morreria no dia de seu aniversário, e Guaranho, gravemente ferido.

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