Último grito de agonia da ditadura soviética completa 30 anos

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em uma semana no qual os fantasmas de Natais passados assombram a geopolítica, como os anos de ocupação soviética do Afeganistão que de certa forma desembocaram nas guerras do Taleban, um aniversário passa ao largo das manchetes.

Nesta quinta (19) são completados 30 anos do início do golpe de Estado fracassado contra o que sobrava do governo de Mikhail Gorbatchov, o último presidente da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

O golpe, engendrado pela temida KGB (serviço secreto e polícia política do regime) e pela cúpula do Partido Comunista, foi o último grito de agonia da linha-dura de um regime que já não mais subsistia havia alguns anos.

Historiadores debatem acerca do papel decisivo ou de conduíte inevitável exercido por Gorbatchov no ocaso soviético, mas uma coisa transparece de suas entrevistas e documentários do período.

Ao assumir as pesadas estruturas deixadas pelos anos de estagnação sob Leonid Brejnev (1964-82) e seus dois fugazes sucessores, em 1983, ele parecia de fato acreditar que a União Soviética era viável no mundo moderno.

Não era, como a combinação de exaustão econômica alimentada por baixos preços internacionais de petróleo, uma corrida armamentista preconizada pelos EUA de Ronald Reagan e a percepção de que o socialismo soviético e liberdade eram compatíveis provaram.

Inicialmente, o mundo se rendeu ao charme de um líder do Kremlin que não ameaçava aniquilar o Ocidente e era afável, com uma primeira-dama glamourosa e habilidades interpessoais indiscutíveis.

Só que a reestruturação econômica ("perestroika") e abertura política ("glasnost") destamparam uma panela de pressão fechada há décadas, movendo forças incontroláveis em um sistema que era bem menos monolítico do que parecia.

O bloco comunista na Europa Oriental caiu rapidamente a partir de 1989, com a decisão fatídica de Gorbatchov de deixar a Alemanha seguir seu curso e reunificar-se no ano seguinte. Os alarmes acenderam entre a cúpula burocrática do regime, que nunca aceitou a liberalidade do líder.

O federalismo soviético permitiu que a cunha aberta pelos pedidos de independência das repúblicas do Báltico e a Armênia fosse amplamente aumentada pela Ucrânia, segunda mais importante república soviética, que se recusou a assinar o tratado que refundaria a União em março de 1991.

Isso só fez crescer o temor da ossificada liderança abaixo de Gorbatchov de que o império iria se desmanchar. Eles estavam certos, mas errados na receita, que se provou fatal para o regime que queriam defender.

De todo modo, eles aplicaram a fórmula. Na tarde de 18 de agosto de 1991, Gorbatchov desfrutava de férias das quais ele bizarramente não abriu mão na Crimeia, na datcha número 3 de Foros.

A cidade, encravada num canto de montanhas que descem ao mar Negro, é um lugar belíssimo e que atraía a cúpula soviética desde sempre.

Nikita Khrushchov tinha uma dessas casas de veraneio lá, herdada por Vladimir Putin após conquistar em 2014 a península que o antigo antecessor havia dado a seus compatriotas ucranianos.

Às 16h30, as linhas de comunicação foram cortadas, e a tensão passou a crescer. Gorbatchov acabou sendo informado no fim da noite de que uma junta formada por figurões da linha-dura, o vice-presidente Guennadi Iandeiev à frente, tomaria o poder se ele não recuasse do tratado de reforma da união.

O texto seria assinado no dia 22. Gorbatchov disse não e acabou detido na madrugada seguinte, quando forças da KGB e do Ministério do Interior cercaram a datcha.

"Ninguém passava por aqui, soldados por todos os lados", contou ao jornal Folha de S.Paulo em 2019 Diliaver Kubedinov, um taxista que em 1991 era um jovem egresso do serviço militar.

À 1h do dia 19 o Comitê de Emergência do Estado fez seu primeiro decreto, informando os soviéticos de que Gorbatchov estava fora do jogo por inexistentes motivos de saúde -ironia do destino, com 91 anos hoje ele é o único vivo entre os protagonistas do drama.

A história se desenrolou de forma vertiginosa, para usar o adjetivo aplicado à reconquista do Afeganistão pelo Taleban. Em três dias, uma resistência política com apoio de setores das Forças Armadas, lideradas pelo então primeiro presidente da Rússia ainda soviética, Boris Ieltsin, desarticulou o golpe.

Isso ocorreu com mais de 50 mil moscovitas indo às ruas enfrentar blindados e tanques, traições militares em favor de Ieltsin e uma sucessão de vaivéns que deixou o Ocidente sem fôlego. Naquele momento, afinal, a União Soviética parecia um indestrutível colosso montado em armas nucleares.

Os conflitos mataram três civis e três golpistas -estes se suicidaram, inclusive o ministro do Interior Boris Pugo (que levou junto sua mulher, que nada tinha a ver com a história). Os restantes da chamada "gangue dos oito" líderes do "putsch" foram presos e depois perdoados.

Ao fim, Gorbatchov foi desembarcado assustadiço em Moscou às 2h do dia 22, com Ielstin sendo louvado como o salvador da pátria. Era o fim de seu governo, na prática.

O caráter soviético da união esmaecia: na noite seguinte, moradores de Moscou forçaram a derrubada da estátua do criador da polícia política que deu origem à KGB, Felix Djerzinski.

Com Ieltsin robustecido, um Gorbatchov sem musculatura política residual foi para um fim melancólico de governo, renunciando e colocando fim ao projeto de Vladimir Lênin iniciado em 1917 na noite do 25 de dezembro de 1991.

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