Único paciente que morreu no Rio com variante agressiva do coronavírus teria se contaminado em hospital

Cinta Cruz e Lucas Altino
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RIO — A vida de Adilson Cardoso de Jesus, um morador de Belford Roxo, de 55 anos, foi uma saga que se encerrou de modo trágico. Ele sobreviveu ao desemprego por um ano. E, por um bom tempo, conviveu com uma cardiopatia crônica e uma cirrose. Aliás, foi por causa de um líquido no figado que bateu às portas da emergência do Hospital Geral de Nova Iguaçu (da Posse), onde, segundo a família, foi contaminado e contraiu a Covid-19. Sem ter saído recentemente do estado, ele é um dos cinco pacientes contaminados por variantes mais agrressivas do coronavírus no Rio — quatro por cepas descobertas em Manaus e um por outra do Reino Unido — e o único que morreu. Na noite desta quinta-feira, dia 18, a Secretaria estadual de Saúde e a Secretaria Municipal de Saúde do Rio confirmaram a transmissão comunitária das variantes do vírus no Estado do Rio. Segundo as duas pastas, "O levantamento constatou que, com exceção do paciente oriundo de Manaus, os demais são autóctones, ou seja, a contaminação aconteceu dentro do próprio estado. Desta forma, a avaliação confirmou que as novas cepas já estão circulando em pelo menos um município do estado, o Rio de Janeiro, e provavelmente, Nova Iguaçu".

De acordo com a Subsecretaria de Vigilância em Saúde da Secretaria estadual de Saúde, há a possibiliidade de que a variante do vírus esteja circulando em outros municípios, "uma vez que a capital tem grande atividade econômica e alta circulação de pessoas de várias cidades da Região Metropolitana". No entanto, informou a subsecretaria, "essa informação só poderá ser confirmada a partir de evidências laboratoriais".

Diante da confirmação da transmissão comunitária das novas variantes, as autoridades de saúde do Rio "reforçam a necessidade de que sejam intensificadas as medidas de prevenção de contágio: uso de máscaras, higienização das mãos e distanciamento social".

Paciente passou por duas unidades de saúde

Adilson deu entrada no Hospital da Posse em 15 de janeiro. No dia 28, sua família foi informada que ele estava com Covid-19, e que fora transferido para uma ala específica da doença. O quadro se agravou, e Adilson foi levado, em 1º de fevereiro, para o Instituto Evandro Chagas, da Fundação Oswaldo Cruz, onde morreu.

— Ele foi contagiado no quarto do Hospital da Posse, não era nem na CTI. Nos falaram, no hospital, que ele pegou de um outro paciente, que acabou falecendo também. Depois, foi rapidamente entubado, e chegou no Evandro Chagas em estado grave — conta a nora Cíntia, localizada pelo GLOBO, acrescentando que a família foi informada do óbito um dia depois: — Só consegui entrar em contato com o hospital no dia seguinte (sábado, dia 6), quando nos comunicaram do falecimento.

A família relata ainda que, na enfermaria de isolamento, Adilson ficou internado junto com outros seis pacientes, todos com direito a um acompanhante, mesmo havendo o risco de contágio. Diz ainda que, apesar de a morte ter ocorrido no dia 5 de fevereiro, apenas anteontem uma equipe de Vigilância em Saúde de Belford Roxo foi à casa da ex-esposa de Adilson. Ontem, no fim da tarde, esteve na casa de Alan e Cíntia.

Variante de Manaus

De acordo com informações dadas pela Secretaria estadual de Saúde (SES), em entrevista na quarta-feira, dia 16, o caso do paciente de Belford Roxo — confirmado ao GLOBO nesta quinta-feira, dia 17, como sendo Adilson, pela Secretaria estadual de Saúde e pela Prefeitura de Belford Roxo — é de contaminação pela variante P1, oriunda de Manaus.

Cíntia é casada com o filho caçula de Adilson, o instalador de som automotivo Alan Silva Cardoso de Jesus. A vítima tinha, ainda, outros dois irmãos. Ele, contudo, morava sozinho há cerca de cinco anos.

— O meu sogro não viajou para canto nenhum. Nem costumava viajar — garante Cíntia, acrescentando que nem ela nem o marido tiveram sintoma recente de Covid.

O GLOBO localizou também uma irmã de Adilson. A auxiliar de serviços gerais Deise Maria Cardoso lembrou dos problemas de saúde do irmão:

— A barriga dele inchava muito por causa da cirrose. Ele fazia tratamento há cerca de um ano. Mas saiu de casa sem sintoma de Covid.

Procurada, a Prefeitura de Belford Roxo confirmou que, “de acordo com relatos da família, ele não viajou para outro estado ou município e não recebeu visita de parentes de outras cidades”. Sobre a investigação do caso, disse que “toda a família é monitorada, principalmente as pessoas que conviviam diariamente com o paciente”.

A Prefeitura de Nova Iguaçu se manifestou dizendo que os pacientes que estavam internados na mesma enfermaria que Adilson no Hospital da Posse não apresentaram sintomas sugestivos para Covid-19 e que, por isso, não foram testados. Acrescentou que não é possível afirmar em que local o paciente foi infectado pela variante da Covid-19, e que Adilson manifestou falta de ar ao dar entrada ao hospital devido à cirrose, à insuficiência cardíaca e à anemia.

Ainda conforme a prefeitura, Adilson “fez um primeiro exame de tomografia com resultado negativo para Covid-19, passou por novo exame de imagem, de rotina, para cuidar do quadro clínico, que apontou resultado sugestivo à doença”, sendo isolado e feito o teste RT-PCR por swab".

Disse também que o Hospital da Posse criou protocolos exclusivos para minimizar a transmissão por Covid-19, “como a montagem de alas isoladas para receber pacientes com a doença, diminuição no número de visitas, cadastro de apenas um acompanhante por pessoa, aumento de dispensadores de álcool em gel e determinou que as pessoas só podem entrar no hospital utilizando máscara".

Transmissão comunitária

Já o médico Alexandre Chieppe, da Subsecretaria de Vigilância de Saúde da SES, embora considere essa probabilidade, disse que ainda não tem "informação conclusiva” sobre transmissão comunitária do vírus. Ele explicou que, caso seja localizada a fonte primária do vírus contraído por Adilson, e, se for uma pessoa que havia acabado de chegar de Manaus, ainda não seria caracterizada a transmissão comunitária. Ou seja, caso Adilson tivesse contato recente com alguém que “importou” o vírus. Mas, o médico acredita que, com as informações obtidas pelo GLOBO, caminha-se para a conclusão de transmissão comunitária.

— Se ele pegou de alguém que acabou de chegar do Amazonas, não caracteriza transmissão local. Mas se não localizarmos origem fora do Rio, provavelmente é transmissão autóctone (local).

Por volta das 14h30 desta quinta, o filho mais novo de Adilson, Alan de Jesus, recebeu uma ligação de um agente de saúde de Belford Roxo. Ele, entretanto, não foi avisado sobre a identificação da variante do vírus no seu pai. Questionado sobre isso, Chieppe explicou que o procedimento correto seria a informação, até pela necessidade de contextualização e perguntas sobre possíveis viagens do pai.

Mas Alan disse que apenas recebeu orientação para fazer o teste de Covid.

— Disseram que vão continuar ligando pelos próximos 15 dias e me orientaram fazer o teste. Vou fazer sim, provavelmente no hospital municipal. É a primeira vez que entraram em contato desde o falecimento do meu pai.

Notificação do MPF

Enquanto médicos e cientistas debatem a forma de transmissão das variantes da Covid-19, o Ministério Público Federal (MPF) pediu à Justiça Federal a notificação pessoal do secretário de Atenção Especializada à Saúde do Ministério da Saúde e do superintendente estadual do Ministério da Saúde no Rio. Querem informações sobre notícia de descumprimento de acordo judicial que estabeleceu fila única de leitos hospitalares no território do município do Rio de Janeiro.

O pedido foi feito a partir de ofício da Secretaria estadual de Saúde do Rio, informando que a transferência de 34 pacientes com Covid-19 de Manaus (AM) para o Rio de Janeiro, realizada pelo Ministério da Saúde, não foi previamente comunicada à Central Única de Regulação, responsável pela gestão dos leitos. Esses pacientes foram internados nos Hospitais Federais do Andaraí e dos Servidores do Estado.

O acordo, firmado em 19 de julho de 2018 no curso de uma ação judicial, estabeleceu que a regulação do acesso dos pacientes aos leitos disponíveis em toda a rede SUS no município do Rio de Janeiro será feita por meio da Central Única, em regime de cogestão pelas secretarias estadual e municipal de Saúde. No acordo, a União se comprometeu a disponibilizar todos os seus leitos à gestão da Central.

“É certo que a União detém legitimidade para coordenar e executar medidas emergenciais de âmbito nacional em saúde pública. Não se coloca em dúvida, tampouco, o caráter humanitário da transferência de pacientes de uma cidade onde o sistema de saúde encontra-se em colapso para outras unidades da federação que possam recebê-los e dar-lhes tratamento adequado. Entretanto, a natureza emergencial e a excepcionalidade da situação em apreço não afastam o necessário respeito à autoridade sanitária do território nem a exigência de observância dos fluxos e protocolos regulatórios aplicáveis à espécie”, sustentam os procuradores da República Alexandre Chaves e Roberta Trajano.

A lenta cronologia de uma emergência sanitária

Dia 15/1: O desempregado Adilson Cardoso de Jesus, de 55 anos, morador de Belford Roxo, é internado no Hospital municipal da Posse, em Nova Iguaçu, com problemas hepáticos. Ele fica fica numa enfermaria com outros cinco doentes e seus acompanhantes.

Dia 28/1: O hospital informa à família que Adilson recebeu o diagnóstico de Covid-19.

Dia 1º/2: O estado de saúde de Adilson se agrava, e ele é transferido para o Hospital Evandro Chagas, da Fiocruz.

Dia 5/2: Adilson morre.

Dia 6/2: A família é informada sobre a morte. O enterro é no dia seguinte.

Dia 16/2 (terça-feira): Fiocruz confirma a presença da variante de Manaus no Rio, sem dar mais detalhes.

Dia 17/2 (quarta-feira): Agente da Secretaria de Saúde de Belford Roxo vai à casa da ex-mulher de Adilson, que não teve contato com o paciente. Ela avisa os filhos sobre a visita do servidor.

Dia 18/2 (quinta-feira): Por volta do meio-dia, O GLOBO localiza os filhos e a nora de Adilson, que ainda não sabiam que o pai tinha a variante do vírus. Um dos filhos diz que, duas horas depois, um funcionário da Secretaria de Saúde de Belford Roxo lhe telefona , pergunta se a família tem sintomas da doença e pede que todos façam o teste no hospital da cidade. Só às 16h30m, em outra ligação, a família diz ter sido comunicada por um servidor sobre a contaminação pela variante de Manaus e que hoje vão à casa deles para colher o exame.

Veja a nota completa das autoridades de saúde confirmando a transmissão comunitária

A Secretaria de Estado de Saúde (SES) e a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (SMS-Rio) concluíram, nesta quinta-feira (18.02), a análise do histórico de quatro das cinco pessoas contaminadas pelas novas variantes do coronavírus. Foram registrados um caso com a cepa do Reino Unido (VOC 202012/01, linhagem B.1.1.7) e outros quatro com a mutação de Manaus (VOC P.1, linhagem B.1.1.28). O levantamento constatou que, com exceção do paciente oriundo de Manaus, os demais são autóctones, ou seja, a contaminação aconteceu dentro do próprio estado. Desta forma, a avaliação confirmou que as novas cepas já estão circulando em pelo menos um município do estado, o Rio de Janeiro, e provavelmente, Nova Iguaçu.

A Subsecretaria de Vigilância em Saúde (SVS) da SES alerta para a possibilidade de o vírus já estar circulando por outros municípios, uma vez que a capital tem grande atividade econômica e alta circulação de pessoas de várias cidades da Região Metropolitana. Porém, essa informação só poderá ser confirmada a partir de evidências laboratoriais. Para tanto, a SVS/SES está reforçando e apoiando os municípios nas ações de monitoramento e vigilância de casos suspeitos, conforme Nota Técnica enviada em 17.02.

Diante da confirmação dos casos autóctones e em função da pouca disponibilidade de informações científicas sobre os possíveis impactos no cenário epidemiológico da Covid-19, a SES e a SMS-Rio reforçam a necessidade de que sejam intensificadas as medidas de prevenção de contágio: uso de máscaras, higienização das mãos e distanciamento social.

Sobre os casos:

Dos quatro casos registrados com a cepa de Manaus, dois são moradores da capital e já estão recuperados; um é um paciente transferido de Manaus que permanece internado no Hospital Federal do Servidor; e outro é um morador de Belford Roxo, que ficou internado em Nova Iguaçu. Apenas o caso de Belford Roxo evoluiu para óbito, porém não é possível afirmar que o paciente teve agravamento do caso devido à mutação do vírus, já que ele foi internado em função de cirrose hepática e problemas renais. A análise do período de internação em Nova Iguaçu e posterior transferência para o Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, no Rio, está em fase de conclusão.

Quanto ao paciente contaminado com a cepa do Reino Unido, ele é morador da capital e já está recuperado. Entre os moradores da capital e o de Belford Roxo, não foi identificado histórico de viagem ou de contato com pessoas que tenham passado por locais com circulação das novas variantes.