1º mês do golpe militar em Mianmar: o que mudou e o que querem os manifestantes?

João de Mari
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Eram 18h em Kawkareik, em Mianmar, e o diretor da ONG Harmony Youth Association Saw Albert estava dentro do carro em uma rua pouco movimentada da cidade. “Não tenho confiança para deixar minha comunidade saber onde estou. É arriscado falar com você no momento”, disse. Há um mês, o jovem de 27 anos estaria aproveitando o começo da noite para fazer compras ou “relaxar”, como ele mesmo disse. “Agora está tudo fechado”.

No dia 1º de fevereiro, o exército do país asiático expulsou o antigo governo sob acusão de fraude eleitoral e decretou um golpe de estado. Os militares assumiram o poder do país e declararam estado de emergência, prendendo o então presidente Win Myint e a conselheira Aung San Suu Kyi, vencedora do Nobel da Paz em 1991.

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Mianmar é um país localizado no sudeste da Ásia com cerca de 50 milhões de habitantes e, até 1989, era chamado Birmânia. Os militares que governavam o país mudaram o nome, pois se referia a “apenas uma etnia do país”, segundo eles. Em busca de popularidade, o regime da época alterou para Mianmar.

O país vivia uma fase democrática desde 2011, depois de quase 50 anos de regime militar. De 2011 para cá, haviam sido implementadas eleições para o Parlamento e outras reformas — até um mês atrás.

Desde o início do ano, a Liga Nacional pela Democracia (NLD, na sigla em inglês), partido do antigo governo, estava no comando após vitória com mais de 80% dos votos nas urnas em novembro de 2020. Porém, o comando democrático foi derrubado com a chegada dos militares.

“Eles não deixaram nossos civis saberem que eles fizeram, eles apenas fizeram uma ação muito rápida. Quando nosso presidente e a conselheira estadual Aung San Suu Kyi foi presa, ficamos chocados. Foram presos sem nosso conhecimento”, contou Albert.

Um dos primeiros atos do exército foi cortar as redes de comunicação. Eles também proibiram voos internacionais até maio e determinaram a prisão de manifestantes que protestavam contra a tomada de poder pelos militares.

Número de mortes cada vez maior

Para se ter ideia, só neste domingo (28), ao menos 18 manifestantes morreram e mais de 30 ficaram feridos em Mianmar, em ações das forças de segurança que dispersaram de maneira violenta vários atos, no dia mais sangrento dos protestos contra o golpe de Estado militar de 1º de fevereiro.

Até o fechamento deste texto, mais de de 850 pessoas foram detidas, acusadas ou condenadas, por participação nas manifestações, segundo a ONG de Ajuda Aos Presos Políticos, a AAPP. Mas o número de presos segue aumentando a cada dia.

Por este motivo, Albert contou que teme a repressão dos militares. Ele não consegue entrar em contato com a família — que esta em outra cidade — após o novo governo ter cortado as comunicações.

Além disso, com as fronteiras fechadas, segundo ele, houve um surto de roubos pelo país com pessoas “aproveitando a oportunidade no corte das comunicações para roubar apartamentos”, como ele mesmo disse.

Protestos nas ruas

Saw Albert, de 27 anos, pede libertade para a conselheira Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, presa após intervenção militar (Foto: Arquivo pessoal)
Saw Albert, de 27 anos, pede libertade para a conselheira Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, presa após intervenção militar (Foto: Arquivo pessoal)

Mesmo assim, manifestantes protestaram contra o golpe utilizando máscaras e fazendo um sinal com as mãos, um gesto semelhante ao simbolizado pela saga distópica “Jogos Vorazes".

A saudação de três dedos ficou famosa nos protestos pró-democracia na Tailândia, que viveu sob regime militar entre 2014 e 2019. Além disso, o gesto ganhou força após os manifestantes que levantavam os dedos serem presos e perseguidos pela polícia.

No dia 23 de fevereiro, os ministros das Relações Exteriores dos países do G7 afirmaram que "condenam com firmeza" a violência dos militares contra os protestos em Mianmar. Eles pediram, em declaração conjunta, que "se respeitem os direitos humanos e o direito internacional".

"Usar munição letal contra pessoas desarmadas é inaceitável", disseram os representantes do grupo com as maiores potências econômicas do mundo, formado por Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e Estados Unidos.

No dia 2 de fevereiro, o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), por meio do Itamaraty, publicou uma nota diplomática. Porém, o governo brasileiro não se refere ao golpe de Estado em Mianmar como golpe nem menciona opositores presos pela junta militar.

“Queremos viver livres, livres e independentes. Não queremos viver sob controle militar como costumávamos estar no passado”, disse Albert, referindo-se à recente história do país, que viveu no período de ditadura militar entre 1962 e 2011.

Em um dos poucos momentos com sinal de internet no celular, Saw Albert contou ao Yahoo! Notícias, por vídeochamada, o que mudou no país após o controle dos militares. Este seria o segundo governo da era democrática do país. Confira os principais trechos da entrevista.

Myanmar viveu em uma ditadura até a década passada. Como você explicaria a intervenção militar ocorrida este ano para o mundo?

Gostaríamos que vocês soubessem que estamos sob pressão e sob o controle militar novamente. Como aconteceu em 1988, agora é assim que está acontecendo de novo no nosso país. Então queremos que as organizações internacionais nos apoie.

Nós temos perdido todas as conexões, até mesmo o meu telefone. Eu não podia usar isso [apontando para o celular]. Tenho que usar outro telefone para poder me conectar à guerra, ou contatar meus amigos, ou para deixarem saber qual é a realidade que está acontecendo no Mianmar no momento.

Então perdemos tudo, até o nosso governo, até a nossa “burocrácia” já foi tirada de nós. Nós realmente não queremos voltar para o lado escuro novamente. Viver sob o controle militar, viver sob o controle militar é realmente perigoso. E nós, como uma geração jovem, odiamos e somos contra, contanto que possamos fazer sem violência.

O que mudou em sua rotina após os militares terem assumido o poder?

Pelo país, na maior parte das estradas, você pode ver a polícia e os soldados segurando o equipamento de choque, andando por aí. Meu Deus. É como se houvesse uma assassino em fuga. Mesmo que eles não atirem, eles estão olhando para o nossos rostos realmente de uma forma assustadora.

Neste momento estamos sob a lei do toque de recolher às 20h e a gente não pode sair na nossa terra. A declaração é realmente chocante para nós. Antes disso, a gente podia sair para fazer compras, relaxavamos, nós sentavamos de um lugar para o outro. Agora está tudo fechado. Essa lei prejudicou as pessoas comuns, que estão trabalhando, como os vendedores ambulantes, lojistas, eles tiveram problemas porque não podiam mais abrir seus negócios.

Além disso, quem trabalha para o governo também não pode manifestar contra o controle militar, pois o exército chama qualquer manifestação de CDM (Civilian Disobedience Movement) que é o Movimento de Desobediência Civil. “Se vocês participarem, vocês estão fora do governo. Você vai punido fortemente”, eles dizem.

No poder, um dos primeiros atos dos militares foi cortar as comunicações de telefone e internet. Você conseguiu falar com seus com seus familiares?

Assim que eles tomaram o controle, a gente perdeu toda conexão, toda conexão e todo canal de comunicação, operadoras de comunicação privada, tudo foi perdido. E claro, não consegui entrar em contato com meus amigos, minha família, principalmente porque meu pai e minha família agora moram em outra cidade.

Como consequência, algumas pessoas também aproveitam essa oportunidade para entrar em outras casas, como para roubar, quero dizer, coisas valiosas dos apartamentos e especialmente esta acontecendo nas cidades.

Por exemplo, minha irmã, ela perdeu o telefone porque algumas entraram no quarto da minha irmã e roubaram as coisas de valor, como o celular. Eu estava muito preocupado e tentei entrar em contato com ela novamente e novamente. Eu estava tão desesperado que pedi aos meus amigos que moram em Yangoon (Rangun) para irem verificar minha irmã.

Se alguma coisa está acontecendo agora, eu não sei. Não só eu, mas também muitos dos meus amigos. Tento conectar isso hoje, o dia inteiro para poder entrar em contato e deixar vocês saberem algumas informações. Mas, você sabe, eu não pude fazer nada.

Como estão sendo os protestos? O que os manifestantes querem?

Na verdade, pedimos apenas cinco coisas. A primeira é que “não queremos voltar ao controle do governo militar”. Segunda é, “por favor, libere nosso presidente e nossa conselheira estadual, Aung San Suu Kyi”. A número três é, “por favor, liberte o nosso parlamento, que foi preso depois deles assumirem o controle. A número quatro é, você sabe, eu também sou uma das etnias de Mianmar, então, “por favor, trate-nos da mesma forma”, assim. E a última é que “odiamos viver sob o governo militar.”

Estou feliz em contar e compartilhar as informações de dentro do Mianmar. Na verdade, não sou só eu. Isso é para o meu povo. Todas as pessoas estão preocupadas em viver sob o lado sombrio, temendo e também não sabem o que fazer. Principalmente pelas pessoas comuns. Eles não têm comida, sabe, por causa dos “incêndios” (no estado em que Albert vive, os militares atearam fogo nas casas e vilarejos, isso mesmo antes do controle militar, por serem de um grupo etinico diferente).

Você sente medo?

Eu sinto medo a cada dia de vida. Não sei se quando falo com você agora, talvez, se eles me vissem em algum lugar, tentariam me prender. Porque ninguém no nosso meio fala inglês e eu também não deixei que soubessem que eu teria uma entrevista com outras mídias internacionais, do Brasil.

Não tenho confiança para deixar minha comunidade saber. Além disso, você sabe, eu tenho que falar com você no meu carro. Não é realmente seguro. Estou tentando me proteger. É arriscado poder falar com você no momento.