A 100 dias dos Jogos Olímpicos, Brasil aposta na força das mulheres

Carol Knoploch
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Desde o momento em que o Japão se candidatou para ser sede dos Jogos Olímpicos de 2020, seus organizadores o consideraram símbolo de superação. De uma crise econômica de décadas, de um terremoto devastador, tsunami e desastre nuclear e, agora, de uma pandemia.

Os Jogos de Tóquio, que iniciam daqui a exatos 100 dias, marcarão a história olímpica. Para o Brasil, a competição pode significar outro divisor de águas: o recorde feminino de medalhas. A expectativa é que o país supere os sete pódios de Pequim-2008.

Para Tóquio-2020, a delegação brasileira já possui 200 vagas asseguradas, sendo 85 para as mulheres. A lista qualificatória segue aberta e a tendência é que a quantidade de atletas do masculino e do feminino seja equivalente.

— Esse recorde pode representar a confirmação de que o investimento no esporte feminino é estratégico e que nossas atletas tem qualidade como já demonstraram ao longo dos anos. O trabalho, em várias frentes, aumentou nosso potencial de conquistas e esperamos que isso estimule o surgimento de novas atletas. Temos espaço para isso —declara Jorge Bichara, diretor de Esportes do Comitê Olímpico do Brasil (COB), para quem a inclusão recente de mais eventos para mulheres no programa olímpico representa boa oportunidade para quem investir na formação dessas atletas.

A primeira medalha feminina olímpica chegou apenas em Atlanta-1996, 100 anos depois da primeira edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna. Mas veio logo em dobro: ouro e prata no vôlei de praia com Sandra Pires/Jacqueline Silva e Adriana Samuel/Mônica Rodrigues. Naquela edição, as mulheres ganharam quatro medalhas no total.

Hoje, a lista de atletas com chance de pódio é grane. Das sete medalhas de ouro conquistadas em Mundiais ou eventos similares em 2019, quatro vieram com as mulheres. Nathalie Moelhousen (esgrima); Bia Ferreira (boxe); Pamela Rosa (skate); e com a dupla campeã olímpica Martine Grael e Kahena Kunze (vela), que venceram o evento-teste em Tóquio. Em 2020, ano atípico, com poucos eventos, quem se destacou foi Ana Marcela Cunha, na maratona aquática, com três pódios internacionais relevantes, e Ana Sátila, ouro em etapa de Copa do Mundo da canoagem slalom.

Ainda aparecem como favoritas a pódio nomes como Rayssa Lemos e Letícia Bufoni (skate), Agatha/Duda e Ana Patricia/Rebecca (vôlei de praia), Laís Nunes e Aline Silva (wrestling), Milena Titonelli (taekwondo), Tatiana Weston-Webb (surfe), Mayra Aguiar (judô) e as equipes de vôlei e futebol.

— Farei de tudo para contribuir com esse recorde. E é bem possível que o Brasil consiga, porque o potencial feminino vem aumenta a cada edição dos Jogos — diz Ana Marcela, que nesta reta final deve se “fechar” para manter o foco apenas na competição. — Tóquio será a Olimpíada da esperança por um mundo melhor. Mesmo que a gente não consiga ouvir aplausos e gritos de incentivo, porque ficamos na água, espero que haja público local.

Recentemente a pentacampeã mundial Ana Marcela venceu os 10km na etapa de retomada do Circuito Mundial em 2021. No ano passado, a brasileira conquistou cinco ouros, duas pratas e um bronze em oito provas.

No judô, modalidade tradicional em pódios para o país, Mayra Aguiar (até 78kg) pode se destacar novamente. Dona de duas medalhas em Olimpíadas e um bronze no Mundial de 2019, ela rompeu o ligamento cruzado do joelho esquerdo durante um treino em setembro de 2020. Após cirurgia, voltou aos treinos em janeiro. Número dez do mundo, ela não compete desde fevereiro de 2020, quando foi prata no Grand Slam de Dusseldorf, na Alemanha.

Entre as atletas do peso pesado, a briga é boa para ver quem vai chegar lá. Maria Suelen Altheman (quarta do mundo) e Beatriz Souza (oitava) são atualmente as judocas melhores ranqueadas do Brasil (entre homens e mulheres). Das seis medalhas conquistadas em 2021 pela modalidade, quatro são delas. O ranking fechará em 27 de junho.

— Sigo firme nesta disputa interna. Estou confiante e ao mesmo tempo ansiosa. Manter o pensamento positivo é muito importante nesse momento — diz Bia, para quem a possibilidade de pódio e recorde feminino não lhe pressiona. — Só aumenta a confiança e a vontade de trazer uma medalha.

Maria Suelen lembra que não é de hoje que o judô feminino é destaque internacional. O processo de ascensão começou em 2005, quando Rosicleia Campos tornou-se treinadora das mulheres. A parceria deu os primeiros frutos três anos depois. O judô é exemplo para outras modalidades que buscam melhores resultados femininos.

— A equipe feminina como um todo está se destacando e isso mostra a nossa força.