Mundo corre contra o tempo para evitar tragédia italiana

Por Dmitry Zaks, con las oficinas de la AFP
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Pessoal médico recebe homem sem teto em Ostia, Roma

Os países do mundo tentam desesperadamente evitar uma tragédia como a italiana em seus territórios e reforçam medidas para acabar com a pandemia, começando pelo confinamento, que já afeta 1,7 bilhão de pessoas, e aumentando a busca por tratamentos ou vacinas.

A pandemia "acelera" de uma maneira "sensível", mas pode "mudar sua trajetória", afirmou segunda-feira a Organização Mundial da Saúde (OMS), que defende testes de diagnósticos e quarentenas.

O novo coronavírus já matou mais de 15.000 pessoas, 10.000 delas na Europa, e infectou mais de 350.300 em todo o mundo, segundo uma contagem da AFP baseada em dados declarados oficialmente.

As autoridades de mais de cinquenta países ou territórios instaram mais de 1,7 bilhão de pessoas (incluindo 700 milhões na Índia) a não deixarem suas casas, de acordo com dados compilados pela AFP.

Caso desobedeçam essas regras, os infratores são multados e, em alguns países, podem até ser presos.

A Itália, que tem o maior número de mortes no mundo (5.476) e possui 60.000 casos diagnosticados, se apega a uma pequena luz de esperança pela queda no número de mortes diárias no último domingo.

- O remédio é pior que a doença -

Enquanto nos Estados Unidos, o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, instou a estender a todo o território as medidas obrigatórias de contenção adotadas nos estados mais afetados, o presidente Donald Trump expressou suas dúvidas sobre o efeito das restrições e seu impacto na economia.

"Não podemos permitir que o remédio seja pior que a doença", tuitou.

Também aumenta a pressão para o adiamento das Olimpíadas, agendadas para julho no Japão.

O presidente da poderosa Federação Internacional de Atletismo disse que manter os Jogos "não é viável nem desejável". O primeiro-ministro japonês Shinzo Abe também reconheceu que seu adiamento parece "inevitável".

Um a um, os Estados parecem se render às evidências: essa crise de saúde será longa, já que uma vacina, de acordo com os principais grupos farmacêuticos, não estará disponível antes de 12 a 18 meses.

A epidemia permanece imparável na Espanha, o segundo país mais afetado na Europa pelo Covid-19, depois da Itália, onde o número de mortos já ultrapassa os 2.000.

Desse total, 462 foram registrados nas últimas 24 horas, o dia mais fatal desde o início da epidemia.

"Parece que o aumento nos casos que observamos todos os dias está diminuindo gradualmente. No entanto, ainda não temos certeza de que atingimos o pico", disse o diretor de emergências de saúde Fernando Simón, na esperança de chegar a esse ponto nesta semana.

Também preocupa a situação nos lares de idosos espanhóis, tão afetados pela epidemia que precisaram da ajuda do exército. Em alguns, os militares encontraram "anciãos absolutamente abandonados, se não mortos em suas camas", disse a ministra da Defesa Margarita Robles.

E os "dias mais difíceis" ainda estão por vir, alerta o governo do presidente socialista Pedro Sánchez.

- Tratamentos experimentais -

Atualmente, não há tratamento para o vírus, mas os esforços para encontrar um remédio estão se acelerando. Um ensaio clínico europeu, chamado Discovery, começou neste domingo em sete países europeus para testar quatro tratamentos experimentais.

A OMS alertou, entretanto, contra o uso de medicamentos cuja eficácia não foi comprovada porque "pode causar mais mal do que bem" e tornar os medicamentos essenciais mais caros para outras doenças.

Enquanto isso, o remédio mais eficaz parece lavar as mãos com água e sabão e manter distância de outras pessoas.

Na China, para impedir uma segunda onda de contágios de casos "importados" (39 na segunda-feira), os passageiros de voos internacionais para Pequim terão que parar em outra cidade chinesa para serem submetidos a testes.

Mais radical, Hong Kong proibirá que não residentes do exterior entrem no território a partir desta quarta-feira.

O Reino Unido está preparando um projeto de lei sobre poderes extraordinários para combater o coronavírus. A França, onde o governo está preparando a extensão do confinamento, registrou a morte de outros quatro médicos infectados com o coronavírus.

- Fracasso no Senado dos EUA -

Os países da União Europeia aprovaram a suspensão das regras da disciplina fiscal para combater o coronavírus.

Nos Estados Unidos, apesar do aumento nos casos de - 416 mortes e 33.000 infectados, os democratas e republicanos no Senado não conseguiram chegar a acordo no domingo sobre um plano de estímulo que buscava mobilizar quase US$ 2 trilhões para ajudar a economia.

Consequentemente, os mercados asiático e europeu fecharam em vermelho na segunda-feira. A chefe do FMI, Kristalina Georgieva, alertou que o dano econômico do coronavírus à economia mundial pode levar a uma "recessão pelo menos tão ruim" quanto a da crise financeira de 2009.

O ministro da Economia alemão previu que este ano a economia de seu país se contrairá em pelo menos 5%. Na Austrália, onde é evocado o fantasma da Grande Depressão da década de 1930, nesta segunda-feira havia enormes filas de desempregados diante das agências de emprego no primeiro dia do fechamento de muitas lojas. "Algo inimaginável há apenas algumas semanas", disse o primeiro-ministro Scott Morrison.

- Quarentenas e toques de recolher na América Latina -

Na América Latina, com 4.900 infecções e 65 mortos, de acordo com dados compilados pela AFP, muitos países adotaram restrições severas à circulação. O México anunciou o fechamento a partir desta segunda-feira de museus, teatros, cinemas e zonas arqueológicas.

Uruguai e Brasil estabeleceram no domingo o fechamento da fronteira terrestre durante pelo menos 30 dias.

O Chile começou a aplicar um toque de recolher noturno, após medidas similares na Bolívia, Peru e e Equador, que no domingo registrou 14 mortes.

República Dominicana e Guatemala também adotaram o toque de recolher. Bolívia, Argentina, El Salvador e Paraguai optaram pela quarentena total.

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro insiste que a crise do coronavírus responde à "histeria", apesar dos 25 mortos e 1.546 casos confirmados no país.