2 - Cadeia da propina encarece produtos para saúde, diz especialista

EVERTON LOPES BATISTA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A descoberta de irregularidades na saúde, que teve um dos seus ápices com a denúncia, em 2015, da máfia das próteses, um sistema que estipulava comissões a médicos que usassem os produtos de determinadas empresas, ainda está apenas começando, segundo Pedro Ramos, diretor da Abramge (Associação Brasileira de Planos de Saúde).

"Quando as denúncias chegam à mídia os preços caem, mas sem nenhuma ação efetiva, os valores acabam voltando ao que eram", afirmou.

Ramos fez as declarações na manhã desta segunda (27) em um debate durante o 4º Fórum Saúde no Brasil: Transparência e Prevenção, promovido pela Folha de S.Paulo e patrocinado por FenaSaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar), Amil e Abimed (Associação Brasileira da Indústria de Alta Tecnologia de Produtos para Saúde).

Para ele, a solução para a corrupção no setor pode estar em acordos feitos diretamente com a indústria, que barram empresas que praticam preços irregulares e dão margem à corrupção.

A Abramge processa 11 companhias estrangeiras fornecedoras de produtos para a saúde nos Estados Unidos e com uma delas, segundo Ramos, um acordo que reduz o preço do produto pela metade já foi fechado na última semana.

"Esse custo não era logística ou outra coisa, era corrupção", afirmou ele, que também é autor do livro "A Máfia das Próteses - Uma Ameaça à Saúde" (Ed. Évora).

"O que encarece o produto é a cadeia da propina. Maus médicos formam uma máfia e nos roubam."

REDUÇÃO DE CUSTOS

Para Solange Mendes, presidente da FenaSaúde, o dever de casa mais urgente da saúde suplementar, que inclui operadoras de planos e seguros de saúde privados, é cortar os custos.

Segundo ela, as operadoras precisam zelar pelo dinheiro do cliente. "Não podemos pagar essa conta cegamente", disse durante o debate. "As operadoras devem concentrar todos os esforços na redução de custos."

Sobre a corrupção na saúde, Mendes lembrou a importância da transparência nos registros de materiais utilizados e procedimentos realizados. "A maior responsabilidade é a do médico. Ele é o profissional que dá início a todo esse processo", afirmou.

"As universidades devem se empenhar na formação desse profissional do ponto de vista humanista e comportamental", completou.

Gláucio Pegurin Libório, presidente do Conselho de Administração do Instituto Ética Saúde, disse que problemas de corrupção no setor envolvem não só médicos e distribuidores de produtos, mas também os hospitais e os planos de saúde.

"A transparência deve estar em toda a cadeia de fornecimento desses produtos", afirmou. "Precisamos colocar todos juntos para discutir o problema".

Mendes, da FenaSaúde, disse que iniciativas voltadas para a promoção da ética na saúde são bem-vindas, mas, acrescentou, "precisamos de ações mais imediatas".

O evento acontece nesta segunda (27) e terça (28) no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo.