2 - Chavista, TV aberta venezuelana mostra 'realidade alternativa'

DIEGO ZERBATO, ENVIADO ESPECIAL

CARACAS, VENEZUELA (FOLHAPRESS) - O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, passou a tarde do último domingo (2) em um parque próximo a Caracas contando histórias de sucesso das ações do governo e desferindo ataques à oposição e à OEA (Organização dos Estados Americanos).

A plateia de militantes chavistas aplaudia cada intervenção de seu líder, mas eles não eram os únicos a ver o discurso. A elocução é o princípio básico dos "Domingos con Maduro", seu programa semanal na TV.

A atração, produzida pela estatal VTV, é transmitida simultaneamente em todas as outras sete emissoras estatais. Elas são mais da metade das 13 que compõem a grade da televisão aberta venezuelana.

O programa começa às 13h, mas não tem hora para acabar. No domingo foi até as 18h, na maior parte do tempo com Maduro falando. Toda a programação prevista para o horário ficou para outro dia.

As cinco horas dão a sensação de que o mandatário já falou tudo o que tinha para falar. No dia seguinte, porém, convocou cadeia nacional, obrigatória para todas as emissoras, às 20h e falou por uma hora e meia ao vivo.

O tempo semanal na TV mostra que Maduro herdou o costume do padrinho, Hugo Chávez (1954-2013). O pai da Revolução Bolivariana já chegou a ficar 12 horas em cadeia nacional discursando à população.

Juntando com o programa dominical, Maduro apareceu quatro vezes em rede nacional nos últimos dez dias, e nenhuma delas durou menos de uma hora. No Brasil os pronunciamentos costumam levar cinco minutos.

PROPAGANDA

A presença constante de Maduro na TV é só uma das funções dos canais estatais. No resto do tempo, as emissoras transmitem programas sobre as benfeitorias de sua gestão e programas de debates.

Geralmente os últimos são feitos com especialistas que referendam a opinião do apresentador, não raro um militante do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela), deputados ou ministros.

Número dois do chavismo, Diosdado Cabello comanda o "Con el Mazo Dando" (Batendo com o Porrete, em tradução livre do espanhol), com seus discursos inflamados e entrevista com aliados políticos.

Outros são o ministro das Comunicações, Ernesto Villegas, que aparece em dois canais, e Jorge Rodríguez, ex-vice-presidente hoje prefeito de Libertador, município da Grande Caracas.

Na segunda-feira (3), ele chamou o partido opositor Vontade Popular de organização terrorista após mostrar uma suposta gravação entre filiados da sigla preparando uma intervenção dos EUA para derrubar Maduro.

"É formado por assassinos, sociopatas e esquartejadores. Nunca vi tanta gente com transtorno de personalidade", disse Rodríguez, que foi o negociador-chefe do governo no diálogo com oposição.

Os adversários são atacados também nos intervalos. Com tom de suspense, fazem referência aos perigos da "direita fascista", com fotos de líderes como Lilian Tintori, Freddy Guevara, Henrique Capriles e Julio Borges.

GRADE

Os canais seguem a lógica de outros setores da economia chavista, como supermercados e os bancos. Além da VTV, há a PDVSA TV, ligada à petroleira estatal, a TV das Forças Armadas e a educativa ViVe.

Outros dois canais ocupam o lugar de TVs que saíram do ar por conflitos com o chavismo. O Tves, que tenta emular as TVs comerciais, foi lançado em 2007 após Chávez não renovar a licença da privada RCTV.

A última aquisição foi a ANTV, tomada em janeiro de 2016. A emissora foi criada para exibir a atividade da Assembleia Nacional, mas passou para o Executivo desde que a oposição dominou o Legislativo.

A produção audiovisual não é suficiente para a abundância de tempo dos canais. Em alguns momentos do dia, dois ou até três deles transmitem o mesmo programa ao mesmo tempo.

Os estatais dividem a grade com três canais privados comerciais: a Televen, a Venevisión e a Globovisión, que ainda ouvem a oposição, embora tenham amenizado suas linhas editoriais contra o chavismo.

Eles, assim como a católica TV Família, estão sujeitas às cadeias nacionais de Maduro, que podem ser convocadas a qualquer dia. Para evitá-las, os venezuelanos recorrem à TV por assinatura.

REALIDADE ALTERNATIVA

Diferentemente dos "fatos alternativos" -expressão cunhada por Kellyanne Conway, assessora do presidente americano Donald Trump-, o mote da imprensa chavista é a "realidade alternativa", ou seja, contar os fatos de outra forma.

Este princípio é seguido pelo governo russo, com a Russia Today (RT), cujo lema é "questione mais", e foi usado nos meios de comunicação ligados a Cristina Kirchner de 2009 a 2015 na Argentina.

Ao comentar sobre a decisão da OEA sobre a violação da Carta Democrática Interamericana, apresentadores questionaram, assim como Maduro, porque a organização não falou sobre a crise no Paraguai.

Sobre os protestos da oposição desta terça (4), disseram que "a direita provocou a violência". Em seguida, mostraram imagens do confronto com a polícia, acompanhados por uma trilha sonora de suspense.