Exilado nos EUA, turco chora ao conhecer decisão do STF e prepara volta para o Brasil

PATRÍCIA CAMPOS MELLO E FLÁVIA MANTOVANI
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 11.12.2017: O turco naturalizado brasileiro Mustafa Goktepe. (Foto: Mastrangelo Reino/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O turco naturalizado brasileiro Mustafa Goktepe, 41, exilado nos Estados Unidos há quatro meses, chorou de alegria ao saber da decisão do Supremo Tribunal Federal nesta terça-feira (6). O STF negou a extradição do turco naturalizado brasileiro Ali Sipahi, 31, solicitada pelo governo da Turquia.

"Estou comprando a passagem, finalmente vou voltar para minha casa, em São Paulo", disse Goktepe à Folha, por telefone, dos EUA. Sipahi e Goktepe são sócios em um restaurante em São Paulo.

No dia 30 de março deste ano, Goktepe embarcou para os Estados Unidos a trabalho, levando uma mala com roupas para os dez dias que planejava ficar.

Ele havia viajado com a família e com Sipahi.

Sipahi foi preso no dia 6 de abril, assim que desembarcou em Guarulhos, por causa de um pedido de extradição do governo Recep Tayyip Erdogan.

Goktepe voltaria dia 9 de abril, mas desistiu, temendo também ser preso, e está exilado nos EUA desde então.

Tanto Goktepe como Sipahi são membros do Hizmet, movimento fundado pelo clérigo muçulmano Fethullah Gülen, desafeto do presidente turco.

O Hizmet é considerado um movimento terrorista pelo governo Erdogan.

Sipahi foi solto pela Justiça após pouco mais de um mês e aguardava o julgamento em liberdade. Nesta terça-feira, por unanimidade, a Segunda Turma do STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu negar sua extradição.

"Sei que ainda há risco de me prenderem quando eu chegar ao Brasil, mas acredito na justiça; a decisão mostra a posição clara do STF e a independência do judiciário", disse Goktepe.

Ele ficou meses sem ver a mulher, que é brasileira, e as filhas de 7 e 2 anos.

"Acreditamos que a decisão do STF estabelece um precedente, o que tranquiliza outros membros da comunidade turca no Brasil; cerca de 300 turcos estavam sob risco de extradição pelo mesmo motivo", diz Kamil Ergin, porta-voz do Centro Cultural Brasil Turquia (CCBT), ligado ao Hizmet.

Procurado, Sipahi não quis dar entrevistas. Ele comemorou a decisão do STF comendo "lahmajun", uma pizza turca, no CCBT.

Desde uma tentativa frustrada de golpe ocorrida em 2016, que Erdogan atribuiu ao clérigo Gülen, o presidente vem empreendendo um expurgo dentro e fora do país contra integrantes do Hizmet, acusando-os de serem terroristas --embora não haja registros de atos desse tipo cometidos pelo movimento.

Dirigentes do CCBT afirmam que a Turquia teria feito pelo menos dez pedidos de extradição de turcos no Brasil. Como essas ações correm em sigilo, não é possível saber se chegaram ao país ou em que estágio estão.

Goktepe é descrito no jornal governista turco Sabah como "o imã brasileiro do FETÖ " --o governo de Erdogan só se refere ao Hizmet com essa abreviação, de "organização terrorista de Fetullah".

Após o julgamento no STF, o advogado que representou a Turquia, João Batista Lira Rodrigues Júnior, afirmou à Folha de S.Paulo que o governo turco discorda da decisão e qye vai recorrer. "O governo da Turquia respeita o posicionamento do STF, mas discorda, e vai recorrer", disse.

Segundo ele, é possível recorrer ao plenário do STF.

De acordo com Goktepe, desde 2016, mais de 25 famílias turcas deixaram o Brasil em direção à Europa e à América do Norte, com medo de serem alvo de pedidos de prisão e extradição. Após a prisão de Sipahi, ao menos sete famílias saíram, disse.

Procurada, a Embaixada da Turquia não respondeu.

Em contatos anteriores com a reportagem, a embaixada enviou uma nota reafirmando que as evidências reunidas até agora apontam Güllen como mentor da tentativa de golpe de 2016.

"O chamado movimento 'Hizmet' é, na verdade, um nome utilizado para disfarçar as atividades da organização criminosa e terrorista FETÖ. A FETÖ, cujo líder é Fetullah Gülen, é uma organização clandestina sem precedentes em termos de alcance global, ambições e métodos. A FETÖ é uma séria ameaça para a Turquia, assim como para outros países", diz o texto.

Segundo o comunicado, o Hizmet "se disfarçou como um movimento de educação" para se infiltrar no governo e "gradualmente se transformou em uma estrutura operacional sigilosa com o objetivo de transformar a sociedade, assumindo o controle do Estado turco".

"Fetullah Gülen é o líder de uma organização secreta, altamente hierárquica e antidemocrática (o chamado movimento Hizmet) que tentou o mais violento ataque terrorista da história turca na noite de 15 de julho de 2016", afirma o texto.