2 - Nos anos 80, Belchior ilustrava sem pressa a 'Divina Comédia'

8 - Belchior será velado nesta segunda em Sobral; enterro será em Fortaleza

THALES DE MENEZES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em 1987, no segundo ano de profissão, recebi a missão de entrevistar alguns artistas conhecidos que tinham como passatempo outras atividades criativas. A pauta era encontrar quem tinha sucesso em uma arte e gostava de se dedicar a outra nas horas vagas. Um dos entrevistados, por exemplo, foi o ator Paulo Autran (1922-2007), que passava horas criando peças de tapeçaria.

Outro foi Belchior. Descobri que ele dedicava boa parte de seu tempo a desenhar. Segundo minha fonte, não era uma proposta modesta. O cantor estaria produzindo um material volumoso de desenhos.

Na data marcada, entrei em sua casa na zona oeste de São Paulo para entrevistá-lo e, confesso, fiquei surpreso.

Não seria correto dizer que ele havia montado uma gigantesca biblioteca dentro de casa. Mais parecia que o imóvel era originalmente uma biblioteca e que ele teria colocado ali alguns elementos para dar uma cara de residência, como um sofá aqui e um guarda-roupa ali. Nos armários, roupas e discos disputavam espaço atrás das portas.

Os livros estavam por toda parte. Nos banheiros. Na cozinha. Ele colocou uma pilha de livros nas pontas de cada degrau da escada que levava ao andar superior. Quem passasse por ela teria pouco mais da metade do degrau para colocar os pés. Se havia alguma ordem naquele mundo de livros, eu não conseguia enxergá-la em parte alguma.

DIVINA COMÉDIA

Muito simpático e visivelmente achando graça da minha reação àquele ambiente, Belchior só assumiu um ar mais sério ao começar a falar de sua paixão pela "Divina Comédia", poema épico escrito pelo italiano Dante Alighieri no século 14.

O cantor falava sem parar sobre a obra que estava inspirando sua produção de ilustrações. A proposta era criar 3.000 desenhos sobre as várias passagens do poema, e a metade já estava desenhada. Um trabalho de anos. Uma paixão quase juvenil foi tomando conta de seu discurso. Dante era, sem dúvida, a maior influência comportamental, filosófica e artística assumida por Belchior.

Os desenhos estavam em várias caixas, algumas com conteúdo disposto em rigorosa ordem. Outras, em amontoados caóticos, que pareciam deixar o próprio autor perdido. Belchior dispensava vários minutos procurando sofregamente por um ou outro desenho que considerava essencial para ser mostrado ao repórter.

Havia unidade de traço nos desenhos, alguns que pareciam mais finalizados, com um trabalho intenso de sombras, e outros que indicavam ainda estar numa fase de esboços.

Belchior não tinha ideia de quando terminaria esse trabalho. Acreditava que levaria mais alguns anos para completar os 3.000 desenhos, mas não estava contente com uma grande parte deles. Disse que provavelmente deveria refazer algumas vezes uma boa parte do material, sem a mínima pressa para acabar.

FASE FINAL

Durante quase três horas de conversa, ele fugiu de todas as perguntas sobre música. Lançara meses antes um álbum ao vivo, com boa recepção. Conversar sobre sua música não o interessava porque, afirmava tranquilamente, era algo já encaminhado, uma missão em fase final.

"Gosto de cantar e gosto de escrever canções, mas depois que você compõe e grava, tudo é capaz de andar por conta própria. Um dia eu vou morrer e minhas músicas vão continuar por aqui. Terei deixado as minhas gravações, e uma boa parte delas foi gravada de modo brilhante por outras pessoas. Mas esses desenhos ainda precisam muito da minha dedicação."

Na despedida, Belchior deu ao repórter um exemplar do disco mais recente, com autógrafo carinhoso na capa, e disse: "Desculpe, mas ainda não posso dar um desenho a você. Eu não considero nenhum deles como terminado."