2º turno ao Senado na Geórgia define poder de Biden no começo do governo

BRUNO BENEVIDES
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mais de dois meses após o pleito que colocou Joe Biden na Casa Branca, os Estados Unidos finalmente vão encerrar o atual ciclo eleitoral nesta terça-feira (5), quando ocorre o segundo turno da disputa no estado da Geórgia para duas vagas no Senado. A votação vai definir em grande medida como será a vida do novo presidente pelos próximos dois anos -- e as últimas pesquisas apontam um leve favoritismo para os candidatos democratas. Na eleição presidencial, Biden levou a Geórgia por pouco menos de 12 mil votos em um universo de quase 5 milhões, numa das disputas mais apertadas do pleito. Seu rival e atual presidente, Donald Trump, nunca aceitou a derrota no estado, que desde 1996 era um bastião republicano, e chegou a pedir que autoridades locais o ajudassem a virar a disputa no tapetão. Os dois nomes republicanos na disputa pela Senado, inclusive, deram declarações em apoio às acusações --sem provas-- de fraudes feitas por Trump, o que acabou por nacionalizar o pleito desta terça. A eleição para o Senado é importante porque, se os democratas levarem as duas vagas em disputa, Biden terá maioria nas duas Casas do Legislativo, o que deve facilitar muito seu trabalho. Mas se os republicanos conquistarem ao menos uma das cadeiras, a sigla vai controlar o Senado --o que significa que o novo governo será obrigado a negociar com a oposição para aprovar seus projetos. A Casa tem cem senadores (dois por estado), sendo que atualmente 50 são republicanos e, 48, democratas (incluindo dois independentes que votam com o partido). Em caso de empate, quem tem o voto de minerva é o vice-presidente do país (que também é o presidente da Casa) --ou seja, a partir de 20 de janeiro, a democrata Kamala Harris, companheira de chapa de Biden. Assim, se chegar a 50 cadeiras, o partido do novo presidente não dependerá dos republicanos e terá mais facilidade para avançar alguns pontos de sua agenda, incluindo a luta contra o aquecimento global e a retomada das negociações com o Irã. Cabe ao Senado, ainda, confirmar as indicações do presidente para juízes de instâncias superiores e para os cargos do gabinete presidencial (o equivalente a ministros). Dada a importância dessa eleição, tanto Biden quanto Trump visitaram a Geórgia nesta segunda (4) em um último esforço para ajudarem seus respectivos candidatos. Apesar da vantagem dos democratas nas pesquisas, analistas afirmam que a disputa segue aberta e que uma virada republicana é bem possível. As duas vagas ao Senado em jogo serão decididas em duas eleições separadas --o candidato que concorre em uma não participa da outra. Na eleição de 3 de novembro, além da disputa pela Casa Branca, também estavam em jogo todas as cadeiras da Câmara dos Representantes (o equivalente à Câmara dos Deputados) e 34 assentos do Senado, dos quais 32 já foram decididos --só na Geórgia haverá segundo turno, portanto. Isso aconteceu porque nenhum dos candidatos superou os 50% dos votos no primeiro turno. Assim, os dois mais bem colocados em cada uma das disputas vão se enfrentar nesta segunda rodada. Uma das eleições opõe o atual senador David Perdue, um republicano, ao democrata Jon Ossoff. O primeiro, um aliado de Trump, fez carreira como executivo de grandes empresas --foi vice-presidente da gigante de material esportivo Reebok-- antes de entrar para a política, em 2014. Já seu desafiante atuou como documentarista e jornalista, além de ter trabalhado como assessor. Ossoff ganhou atenção nacional em 2017, ao disputar uma vaga para a Câmara. Ele acabou perdendo a disputa, mas seu resultado foi considerado surpreendente, já que o distrito tinha maioria conservadora. O democrata é visto como um moderado dentro de seu partido, com posições mais à esquerda do que Biden, mas mais à direita do que a ala progressista da legenda. No primeiro turno, Perdue terminou na frente, com 49,73% dos votos, contra 47,95% de Ossoff. As pesquisas mais recentes, porém, indicam vitória do democrata, que aparece com 49,3% das intenções de votos, contra 47,9%. Os números são da média dos levantamentos calculada pelo site FiveThirtyEight. Quem vencer conquistará um mandato tradicional de seis anos. Já na outra corrida, o que os dois candidatos --a republicana Kelly Loeffler e o democrata Raphael Warnock-- disputam é o direito de terminar o mandato do republicano Johnny Isakson, que renunciou ao cargo no fim de 2019 devido a problemas de saúde. Como nos EUA não existe a figura do suplente de senador, cada estado tem uma regra sobre o que fazer nesses casos. Na Geórgia, a lei determina inicialmente que cabe ao governador, no caso o republicano Brian Kemp, indicar alguém para a vaga. A escolhida foi Loeffler, uma executiva do setor financeiro sem experiência política anterior e que assumiu o cargo em janeiro do ano passado. A legislação estadual, porém, determina que, quando ocorresse uma eleição em nível estadual na Geórgia, deveria ser realizada uma nova votação para determinar quem ficaria no cargo até o resto do mandato, em 2022. É isto que está sendo feito agora. Para complicar, o pleito deve seguir um modelo conhecido como disputa aberta, segundo o qual cada partido inscreve quantos candidatos quiser no primeiro turno. Na prática, isso complicou a vida de Loeffer, que teve de enfrentar um adversário de peso na disputa pelo voto republicano, o deputado Doug Collins. Para ir ao segundo turno, a senadora novata, antes vista como moderada, decidiu se radicalizar e adotar discurso mais próximo ao de Trump. A tática deu certo inicialmente, já que terminou à frente de Collins e passou à próxima rodada contra o líder, Warnock (que não enfrentou rivais de peso entre os democratas). O problema é que a nova versão da senadora afasta eleitores independentes, o que pode favorecer Warnock. Nas pesquisas, o democrata aparece na frente, com 49,6% das intenções de voto, contra 47,6%. Caso os números se confirmem nas urnas, Warnock, um pastor batista, fará história. Ele será não apenas o primeiro senador negro da história da Geórgia, mas também o primeiro democrata afro-americano eleito para a Casa por um estado do Sul dos EUA. O único outro negro eleito por voto popular para o Senado na região é o republicano Tim Scott, que desde 2013 representa a Carolina do Sul. A Geórgia tem ainda um peso simbólico nesse caso, já que é o estado de dois dos mais importantes nomes da luta contra a segregação racial na história americana: o reverendo Martin Luther King Jr. (1929-1968) e o ativista e deputado democrata John Lewis, morto no ano passado. Até por isso, a expectativa de analistas é a de que os negros compareçam em peso para votar. Como aconteceu no pleito presidencial, porém, o resultado ainda pode demorar alguns dias para sair, já que os votos enviados por correspondência com antecedência podem ser decisivos outra vez.