2020 foi o ano do caos na educação. O que esperar para 2021?

Redação Notícias
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Por Milena Buarque (@mibuarque) e Ruam Oliveira (@oliveiraruam)

Quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) caracterizou a Covid-19 como uma pandemia em 11 de março deste ano, os impactos no calendário escolar, em todos os níveis educacionais, foram sentidos logo na semana seguinte. A partir daquela segunda-feira, dia 16, escolas, faculdades e universidades se viram com classes vazias e tendo de repensar metodologias e modalidades de ensino.

Com um período muito pequeno para planejar o esquema de aulas, essas instituições precisaram adaptar a expertise que já possuíam com o ensino remoto e digital. Além de dificuldades e barreiras, como o acesso à internet e a disponibilidade de ferramentas e recursos para os estudantes, houve a necessidade de se repensar inteiramente o calendário acadêmico, no caso do ensino superior, sem perder de vista a disseminação da doença pelo país.

Em entrevista ao Yahoo Notícias, representantes da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e Estácio de Sá (Yduqs) relatam os efeitos imediatos da pandemia na educação, tanto pública quanto privada, e arriscam expectativas para o próximo ano.

Períodos especiais

A pandemia pegou a todos de surpresa. E quando se trata de planejamento e organização, grande parte das instituições de ensino se viu obrigada a repensar métodos e formas de continuar o ano letivo.

No caso da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o semestre foi substituído por "períodos especiais". Essa modalidade, que é diferente do formato usual adotado pela universidade, é aplicada quando o calendário acadêmico está suspenso. "Normalmente a gente usa esse expediente, chamado período especial, para oferecer disciplinas e cursos de férias para os estudantes", explica Eduardo Barra, pró-reitor de graduação da UFPR.

A instituição suspendeu as aulas em 27 de março deste ano e desde então formou um comitê para planejar como se dariam as atividades de ensino remoto. Com mais de 27 mil estudantes em 159 cursos, Barra comenta que foi um longo período de negociações na UFPR, que envolveu toda a comunidade acadêmica, inclusive reforçando a participação dos estudantes. "Não podemos entender que esse processo pedagógico seja de mão única. Não é só o professor que ensina, é o estudante que aprende, sobretudo."

A universidade então investiu em uma pesquisa direta para verificar as condições de vulnerabilidade socioeconômica, que impediriam, por exemplo, que alunos acompanhassem as aulas online.

"Fizemos um programa de inclusão digital. Oferecemos aos nossos estudantes a oportunidade de ter notebooks. Levamos até eles, pessoalmente para que pudessem ter as aulas. Franqueamos um pacote de dados para que eles pudessem usar a internet, um acesso de banda larga. Aqueles estudantes que declararam fragilidade econômica, que disseram não poder ter equipamentos, a universidade ofereceu esse apoio", diz Barra.

Atuando com o período especial, quase 70% dos cursos puderam ser reformulados para a modalidade de ensino remoto, explica o pró-reitor. As disciplinas de laboratório e que demandam circulação de estudantes representam os outros 30% restantes e foram suspensas até que seja possível um retorno.

A universidade opera então fora do semestre ordinário. A segunda metade do período especial se iniciou em novembro e segue até março do ano que vem. A primeira parte foi de junho até outubro. Barra espera que até o fim de agosto de 2021 tenham finalizado completamente o calendário de 2020 – incluindo as atividades práticas, que esperam retomar em abril do ano que vem.

O ano que vem ainda é bastante incerto. A expectativa da instituição é ofertar atividades presenciais a partir de abril de 2021, mas o professor reforça que trata-se apenas de uma estimativa, que precisa levar em consideração a situação da pandemia no estado. "O que nós sabemos é que vamos precisar ainda de uma parcela significativa de disciplinas ofertadas no formato de ensino remoto", afirma.

O pró-reitor destaca, contudo, que as ações realizadas para pensar o ensino remoto não se tratam de um ajuste para o formato de educação a distância (EaD), que é uma modalidade específica e normatizada, com sua própria organização. "Nas nossas fichas continuamos incluindo que as disciplinas fazem parte da modalidade presencial. Acrescentamos uma descrição informando que as matérias estão impedidas de serem realizadas dessa forma, dado o quadro de saúde pública", diz o professor.

Capacitação profissional

Com dois mestrados profissionais oferecidos na modalidade EaD e o uso de ambientes virtuais como um repositório de conteúdo para os cursos presenciais, a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) já conduzia um processo de capacitação docente periódica para o on-line desde 2018. Neste ano, com a pandemia de Covid-19, a adaptação teve de ser “mais aprofundada e rápida”.

Segundo Derick Casagrande Santiago, coordenador do Núcleo de Educação a Distância da FESPSP, ainda que a instituição não tenha interrompido as atividades uma única semana neste ano, as duas primeiras semanas de março exigiram uma movimentação intensa para adaptar a plataforma já utilizada para a possibilidade das aulas remotas.

“Ainda estava muito no plano das ideias realizar cursos a distância [além dos dois MBAs]. Com a pandemia, a gente precisou atualizar o nosso ambiente virtual de aprendizagem com a instalação de um recurso para a realização da aula remota síncrona. Na primeira semana de março, capacitei os professores para o uso dessa ferramenta. E no primeiro mês acompanhei continuamente todos os professores nas aulas realizadas remotamente”, diz o professor.

Casagrande conta que as férias de junho e julho também ofereceram um intervalo de tempo para um aperfeiçoamento da plataforma virtual da instituição. “Realizamos um upgrade e atualizamos a versão do nosso ambiente virtual de aprendizagem. Com isso conseguimos sanar algumas fragilidades que o uso que nós fazíamos da ferramenta anterior para a realização de aula síncrona tinha apresentado. Em julho realizamos uma outra capacitação docente.”

Com três graduações, extensões universitárias, 18 cursos ativos de pós-graduação e cerca de 600 alunos, a instituição considera para o futuro a ampliação de oferta de cursos totalmente EaD e o aprimoramento das atividades remotas já em curso.

“É importante também que nessas análises a gente já pondere que a experiência com a pandemia fortaleceu e intensificou a introdução das tecnologias da informação e da comunicação na educação. E isso deve ser considerado muito em conta. Nesse sentido nós também temos considerado a possibilidade de pensarmos a questão do ensino híbrido. Por conta da pandemia tem sido um modelo de ensino bastante defendido”, explica Casagrande.

Retorno seguro

Primeira universidade a interromper as atividades por conta do novo coronavírus, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) adota um tom de cautela nas decisões quando o assunto é a retomada das atividades presenciais. Com uma comunidade acadêmica de mais de 30 mil pessoas circulando pelo campus, a instituição estima um retorno para o final de março e início de abril, porém “de forma menos presencial possível”.

Ana Arnt, docente e pesquisadora do Instituto de Biologia, aponta que a intenção é analisar o andamento da situação, evolução de casos e ocupação dos hospitais, por exemplo. "A gente tinha previsto que, se ficássemos na fase verde por duas semanas, iríamos começar um planejamento de retorno gradual", diz a professora.

Atualmente Campinas, onde fica a Unicamp, está na fase verde do Plano São Paulo e a universidade já retomou algumas atividades laboratoriais e segue num retorno parcial de atividades de ensino.

Alguns exercícios como entrega e execução de trabalhos escolares e avaliações já aconteciam de forma remota por meio de plataformas como Google Classroom e Moodle, o que mudou neste novo período foi a própria ideia de aula online, ainda pouco utilizada pela instituição.

Para que haja um retorno seguro, no entanto, Arnt aponta que é necessário continuar avaliando a necessidade de atividades presenciais em todas as disciplinas. "Algumas turmas têm 100 alunos. Em salas que não têm janelas e fazem uso de ar-condicionado. Embora eu ache que a aula online não seja ideal, para mim significa minimizar riscos", afirma.

A professora conta que a instituição levou aproximadamente dois meses para dar início às atividades remotas e que os docentes tiveram liberdade para organizar quando e como passariam a atuar nesse modelo. Durante a pandemia, além dos conteúdos síncronos online, muitos professores têm gravado videoaulas e experimentos laboratoriais como complemento às disciplinas.

Transformação digital

Há quase 15 anos, diversas instituições de ensino superior deram início à saga pela digitalização do ensino. Naquele ano, em 2006, a Estácio de Sá, hoje parte do grupo educacional Yduqs, deu seus primeiros passos no ensino pela internet. “Eu poderia dizer que, sim, a gente depende muito de tecnologia, mas EaD é acima de tudo uma questão de metodologia”, afirma Flavio Murilo de Gouvêa, diretor de Ensino Digital do grupo e um dos seis professores que apostaram no EaD na Estácio.

Com 700 mil alunos nos cursos de graduação em todo o país, e cerca de 350 mil só na modalidade remota, a instituição vê a procura pelo EaD só aumentar. “O ensino digital bateu recordes no primeiro semestre deste ano. E a captação de alunos foi dada majoritariamente pré-pandemia”, conta.

Na visão de Gouvêa, o mundo presencia uma revolução tecnológica no ensino, acelerada em mais de dez anos pelo contexto atual de pandemia. “É o componente digital penetrando dentro daquele espaço analógico, que é o ensino tradicional hoje. A gente é digital o dia inteiro, em todas as funções da vida, mas quando entramos em sala de aula ainda vemos uma certa nostalgia. Uma ideia de que sempre foi assim, apesar de tanto aluno quanto professor, atores educacionais, estarem ali ávidos por novas formas de interagir. Mas se comportam como se esse mundo digital estivesse do lado de fora.”

Para o diretor, a democratização do acesso ao ensino superior no Brasil passa necessariamente pela digitalização da educação. “O ensino digital permite que nós estejamos hoje em mais de mil polos espalhados por todo o país”, diz.

Passando o ano de 2020 “bem e com louvor”, nas palavras de Gouvêa, a instituição planeja intensificar o seu processo de transformação digital no próximo ano. Segundo o diretor, a Yduqs está em meio à produção de uma plataforma para abrigar, em um único espaço, os alunos do presencial e do digital, tanto das graduações quanto das pós-graduações.

“Tudo na mesma plataforma, que seja capaz de suportar de mil maneiras esses alunos, mas respeitando a individualidade de cada curso, de cada região do país e instituição de ensino. Sempre apostando em tecnologia sem descuidar da metodologia. Esse hibridismo entre presencial e o digital não é futuro: é imediato. Já está aqui”, afirma.