2021, o ano da vacina: lembre a trajetória da vacinação no Brasil

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Student Gabrielly Esperanca dos Santos, 18, receives a dose of Sinovac’s Coronavac coronavirus disease (COVID-19) vaccine at Butanta Institute in Sao Paulo, Brazil August 16, 2021. REUTERS/Carla Carniel     TPX IMAGES OF THE DAY
Foto: REUTERS/Carla Carniel

Depois de o mundo enfrentar quase um ano de desafios causados pela pandemia de covid-19, 2021 começou com a promessa de uma luz no fim do túnel com a chegada das vacinas. 

Apesar de alguns países terem começado a vacinação já em 2020, o Brasil vacinou a primeira pessoa no dia 17 de janeiro.

A pessoa escolhida para receber a primeira dose, em ato simbólico, foi a enfermeira do Hospital Emilio Ribas Mônica Calazans

Ela é mulher, negra e enfermeira e integrante do grupo de risco da covid-19, pois é obesa, hipertensa e diabética.

A enfermeira Mônica Calazans, a primeira vacinada contra Covid-19 no Brasil.
A enfermeira Mônica Calazans, a primeira vacinada contra Covid-19 no Brasil.

Mônica recebeu uma dose de Coronavac, vacina produzida pelo Instituto Butantan, em São Paulo, e desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac Biotech. Em 12 de janeiro, o instituto divulgou que o imunizante atingiu uma eficácia geral de 50,38%.

Com a aprovação da Coronavac pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o imunizante tornou- se um dos mais aplicados no país. Em setembro, o Butantan concluiu o contrato feito com o governo federal, que previa a entrega de 100 milhões de doses da vacina.

Além da Coronavac, o Brasil aprovou também a aplicação dos imunizantes da Pfizer, Janssen e Oxford/AstraZeneca.

Recordes de morte no primeiro semestre

O começo de 2021 não trouxe a trégua esperada na pandemia. Com o aumento da transmissão, o número de mortes passou a crescer rapidamente. O mês de março foi marcado por quebra de recordes consecutivo no registro de óbitos.

O primeiro foi no começo do mês, no dia 3, quando o Brasil registrou 1.910 novas mortes e elevou o total de mortos a 259.271, de acordo com o painel atualizado pelo Conass (Conselho Nacional dos Secretários de Saúde).

Mas a cifra não se comparava com o final do mês, quando, no dia 31, o Brasil registrou 3.869 novas mortes pelo novo coronavírus e 90.638 casos da doença nesta quarta (31). Com isso, o país superou os 300 mil mortos.

Em abril, uma nova marca trágica. Em um mês, o país registrou quase cem mil mortos e atingiu a marca de 400 mil vítimas da covid-19. Além disso, as mortes em 2021 até então superaram todos os óbitos registrados pela doença no ano passado.

Em parte, esse número foi explicado por especialistas pela má administração das medidas sanitárias e pela circulação da variante P.1, ou Gama, que surgiu na Amazônia em novembro de 2020. Um estudo da Secretaria estadual de Saúde de São Paulo indicou que a variante foi detectada em 90% de 1.439 sequenciamentos genéticos analisados pelo Instituto Adolfo Lutz (SP), na época.

No dia 19 de junho, o Brasil registrou um total de 500 mil mortos por covid-19. Mas o Brasil não pararia aí. Mesmo com a desaceleração da pandemia, o país chegou a 600 mil vítimas de covid-19 em outubro.

O negacionismo promovido por líderes políticos e apoiadores do governo, além da lentidão da vacinação foram apontadas como as razões para o crescente número de mortos.

No começo do ano, o debate sobre lockdown e restrições mais severas na circulação voltou com o aumento das mortes. No Brasil, esse foi um tema em especial causador de intensas disputas entre especialistas, políticos, comerciantes, entre outros: "lockdown".

Presença constante nas falas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o lockdown seguiu sendo usado como peça política. O líder do Palácio do Planalto seguiu a estratégia de 2020 de contrapor restrições com a economia, criando um embate falso entre as duas questões, segundo especialistas.

No entanto, gestões municipais e governamentais implementaram lockdown, mesmo sem apoio do governo federal.

Um grande caso foi o de Araraquara, que em março, em meio à alta de casos, conseguiu esvaziar as filas da UTI após um lockdown severo.

Enquanto governadores e prefeitos seguiam tentando impor medidas para salvar vidas, o presidente Bolsonaro insistiu na sua crítica ao lockdown durante todo o primeiro semestre.

Manaus em crise

Os números de mortes no começo do ano foram puxados pelo colapso sanitário em Manaus. A capital amazonense já começou o ano herdando uma crescente de casos e óbitos em 2020.

No dia 6 de janeiro, David Almeida (Avante), novo prefeito de Manaus, admitiu que a cidade vive um colapso por causa do aumento de casos pela pandemia do novo coronavírus. De acordo com ele, se os níveis de mortalidade seguissem como estavam, a capital amazonense teria covas disponíveis para apenas "dois ou três meses". Ele também decretou situação de emergência em Manaus pelo período de 180 dias.

Em uma semana, a situação se agravou quando foi noticiado que faltava oxigênio nos hospitais da cidade. Na metade do mês, morreram ao menos 19 pacientes internados por covid-19 entre o fim da noite de quarta (13) e manhã da quinta-feira (14). 

Os relatos dos profissionais de saúde recebidos pelo Simeam (Sindicato dos Médicos do Amazonas) retratam um “cenário de terror”. O número de mortos pode conta da crise de oxigênio pode ser maior que 40 vítimas.

Relatives of patients hospitalised or receiving healthcare at home, who are mostly suffering from the coronavirus disease (COVID-19), gather to buy oxygen and fill cylinders at a private company in Manaus, Brazil January 18, 2021. REUTERS/Bruno Kelly
Em Manaus, foram registradas ao menos mortes de 19 pacientes internados por Covid-19 em menos de 2 dias por falta de oxigênio. (Foto: REUTERS/Bruno Kelly)

Em junho, a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid recebeu documento que mostra que o Ministério da Saúde sabia da alta demanda por respiradores no Amazonas quase um mês antes do colapso na rede hospitalar do estado, em janeiro deste ano.

De acordo com membros da comissão, existem evidências de que o governo ignorou inúmeros alertas e demorou para começar qualquer ação para enfrentar o problema. Por causa disso, pessoas morreram sem acesso a insumos hospitalares e oxigênio.

O perigo das variantes

Além da variante P.1, ou Gama, e se tornou predominante nos contágios no país, 2021 trouxe outras cepas do coronavírus. Muitas delas surgiram nos países em que o contágio estava descontrolado, como Brasil e Índia. A própria P.1 criou suas próprias mutações.

A variante indiana, B.1.617.2 ou Delta, chegou ao país em maio. Em agosto, a mutação seguia uma ameaça no país, principalmente no Rio de Janeiro. Ela fez aumentar o número de casos e inspirar governos a pedirem às pessoas que se vacinassem.

Campanha de vacinação

Com as vacinas aprovadas e dada a largada na campanha de vacinação, o Brasil passou a vacinar os grupos. Primeiro, foram os profissionais da saúde, quilombolas e indígenas, que foram entendidos como grupos prioritários. Em seguida, o plano de vacinação avançou para pessoas em grupos de risco, como idosos e aqueles que apresentam comorbidades.

O país progressivamente aumentou o número de vacinados diários. No dia 1º de abril, o Brasil aplicou pela primeira vez um milhão de doses em 24 horas. Três meses depois, no dia 1º de julho, o país alcançou as cem milhões de doses aplicadas.

Mesmo com o volume de doses sendo aplicadas, foi em outubro que o alívio chegou. No dia 13 daquele mês, estávamos com 100 milhões de brasileiros com o esquema vacinal completo - ou seja, que receberam duas doses de imunizante ou uma vacina de dose única.

Politização da vacina

Em meio ao debate sobre a vacinação e os esforços para compra e aplicação de doses - ao mesmo tempo que a CPI da Covid investigava o governo federal - o tema foi usado como palanque político.

O principal embate foi entre o presidente Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria. Enquanto o líder do Palácio do Planalto focava em desacreditar a vacina e os protocolos sanitários, o tucano apostou em promover uma forte campanha de vacinação em seu estado.

Ao longo do ano, os políticos trocaram farpas em diversos pronunciamentos. Dessa forma, a pandemia deixou de ser gestionada a partir da ciência, e passou a ter um viés político maior.

Movimento anti-vacina

O crescimento do número de pessoas completamente vacinadas contra a covid-19 impactou diretamente na queda do número de internações e mortes pela doença.

Em novembro, São Paulo conquistou o primeiro dia desde o início da pandemia sem nenhuma morte por covid-19.

Mesmo assim, o movimento anti-vacina segue no país e não-vacinados têm sido os mais atingidos pelo vírus no momento.

Entre aqueles que colocaram dúvidas, contrariando evidências científicas, foi o presidente Jair Bolsonaro (PL). Ele chegou a dizer que os vacinados iriam “virar jacaré” e tentou associar a vacina com o desenvolvimento de Aids.

O presidente, inclusive, não se vacinou. Ele chegou a dizer que seria o último brasileiro a se vacinar, mas em outubro declarou que não tomaria nenhuma dose.

No dia 8 de dezembro, manifestantes bolsonaristas e antivacina tentaram invadir a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Eles queriam acompanhar uma votação sobre um projeto de lei que previa proibir que o estado do Rio de Janeiro adotasse o passaporte da vacina.

Manifestação realizada nesta terça contra a proposta de imunização da população paulista através da CoronaVac. (Foto: Pedro Chavedar/Yahoo Notícias)
Manifestação realizada nesta terça contra a proposta de imunização da população paulista através da CoronaVac. (Foto: Pedro Chavedar/Yahoo Notícias)

O movimento antivacina e anticiência teve grande apoio na alta circulação de fake news sobre a pandemia e a vacina.

Foram inventados todo tipo de efeito colateral para a vacina. Em novembro, por exemplo, uma mulher diz, em vídeo, que constatou o aparecimento de fibrinas, proteína responsável pela coagulação, no seu sangue e relaciona o suposto diagnóstico com a vacinação contra a covid-19, o que é falso.

Muitos afirmaram que a vacina estava levando a óbitos, principalmente entre adolescentes, o que foi desmentido pela Anvisa.

As fake news foram se tornando um grave problema mundial no combate à pandemia, e as empresas que controlas as redes sociais precisaram agir para combater notícias falsas em suas plataformas.

Inclusive, a minuta do relatório da CPI da Covid reúne uma série de publicações do presidente Jair Bolsonaro difundindo informações falsas na pandemia. Bolsonaro é descrito como chefe da cadeia de comando de distribuição de fake news.

Em dezembro, o ministro do STF Alexandre de Moraes determinou a abertura de um novo inquérito contra o presidente Bolsonaro por difundir uma notícia falsa associando a vacinação contra a covid-19 ao risco de desenvolver Aids.

Sommelier de vacina

Algumas pessoas, no entanto, não eram contra a vacinação, mas contra alguns imunizantes. Essas pessoas ficaram conhecidas como “sommelier de vacina” e se tornaram um verdadeiro problema para as prefeituras e governos estaduais, que precisaram tomar medidas para controlar a situação.

Em São Paulo, Edson Aparecido, secretário municipal da Saúde, precisou pedir que as pessoas não escolhessem as vacinas ao chegarem ao posto. “Nós temos feito um pouco esse debate procurando conscientizar as pessoas que a melhor vacina é a que está disponível no momento e que pode ser aplicada”, declarou.

Não foi suficiente e no dia 27 de julho o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, sancionou uma lei que manda para o fim da fila pessoas que escolhem marca de vacina contra a covid-19. Naquele momento, a vacinação avançava em grupos divididos por idade.

A decisão foi tomada também por outras administrações municipais e estaduais. Muitos optaram por aplicar um termo de responsabilidade nos pontos de vacinação. Pelo menos 25 cidades brasileiras, incluindo 5 capitais, iniciaram um contra-ataque.

Em julho, uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelou que só 9% dos brasileiros deixariam de se vacinar por conta da marca do imunizante. O estudo foi realizado em parceria com o Instituto FSB Pesquisa.

Com o avanço da vacinação, os estados e municípios começaram a chamar os sommelier do fim da fila para receberem suas doses. No dia 19 de agosto, a Prefeitura de São Paulo passou a permitir que os “sommelier” de vacina da cidade tomem o imunizante contra a covid-19. No total, 2.167 pessoas assinaram um termo de recusa da vacina no município.

Em setembro, foi a vez do Rio de Janeiro chamar para vacinação os sommelier cariocas.

Manifestações

Os debates sobre a vacina, o lockdown e a atuação do governo federal no combate à pandemia foi travado também nas ruas. Com o início da vacinação, movimentos sociais decidiram convocar manifestações contra o presidente Jair Bolsonaro e a favor da vacinação em massa.

O primeiro aconteceu no dia 29 de maio, liderado por centrais sindicais, movimentos sociais e partidos de esquerda, que reuniram milhares de manifestantes em pelo menos 180 cidades do Brasil e do exterior.

Os atos continuaram nos meses seguinte. Em 19 de junho, o movimento “Fora Bolsonaro” levou 750 mil pessoas às ruas. O protesto seguinte ocorreu em julho, e também reuniu milhares de manifestantes no Brasil e no mundo.

Ao mesmo tempo, grupos bolsonaristas também chamaram apoiadores às ruas. As manifestações pró-governo foram criticadas pela baixa adesão do uso de máscaras e por levantar bandeiras antidemocráticas.

O principal movimento de rua dos bolsonaristas ocorreu no dia 7 de setembro, com atos em todo o país. Com ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF), os organizadores acabaram alvo de investigações.

No mesmo dia, setores contra o governo também organizaram atos em capitais pelo país, levantando novamente a defesa da vacinação em massa.

Desafios atuais: passaporte vacina, crianças, terceira dose e Ômicron

O ano vai chegando ao fim, mas a pandemia ainda gera debates na sociedade. Com grande parte da população vacinada, agora é a hora das crianças e adolescentes. No entanto, ainda há quem critique a vacinação dessa parcela da população, mesmo especialistas afirmando a importância da imunização.

Outro ponto é a aplicação da terceira dose, depois que estudos mostraram uma queda na imunidade depois de um certo período de tempo. Profissionais da saúde e idosos já foram convocados para receber o reforço.

Em novembro, o Ministério da Saúde anunciou que todos os adultos com mais de 18 anos poderão receber a dose adicional da vacina contra a covid-19. O único requisito é esperar o intervalo de cinco meses após a segunda dose.

A necessidade da terceira dose tem se tornado mais evidente com o avanço da mais nova variante do coronavírus, a Ômicron. No Brasil, tem feito estados e municípios atuarem para proteger a população, impedindo eventos e cancelando até festas de Ano Novo e Carnaval.

Além de a OMS ter dito que pode ser mais transmissível, estudos têm mostrado que duas doses dos imunizantes não têm causado resposta imunológica suficiente para combater a mutação.

Uma possibilidade que ainda está em debate é o adiantamento da terceira dose, que dependerá das autoridades de saúde.

É bom lembrar que ainda há quem não tomou nenhuma dose de vacina por escolha própria. Essa parcela da população tem se mobilizado contra o chamado passaporte da vacina e os comprovantes de vacinação para entrar em certos espaços públicos, com apoio do próprio presidente Bolsonaro. Segundo eles, seria uma restrição de circulação aos não-vacinados.

Muitos têm até falsificado documentação da vacinação para obterem o passaporte sem se vacinarem.

No entanto, especialistas reforçam que a proteção da vacina é coletiva, e que uma pessoa não vacinada representa mais risco de transmissão que uma vacinada. Além disso, a maioria dos brasileiros apoia o passaporte de vacina e as capitais já têm adotado o documento.

O tema também inflamou o embate entre Bolsonaro e Doria, que divergem sobre a obrigatoriedade do comprovante.

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