2021: o ano em que flertamos com a destruição

A supporter of Brazil's President Jair Bolsonaro demonstrates outside the Planalto palace ahead of September 7 demonstrations in support of President Jair Bolsonaro's government, in Brasilia, Brazil, September 6, 2021. REUTERS/Adriano Machado
Apoiador de Jair Bolsonaro em frente ao Planalto. Foto: Adriano Machado/Reuters

Em 6 de janeiro de 2021 um grupo de lunáticos invadiu o Capitólio, em Washington, capital dos EUA, e por pouco não mudou no tapa o resultado das eleições do ano anterior, quando Donald Trump foi derrotado por Joe Biden. O símbolo da invasão era um homem sem camisa, de barba e chapéu com chifres de búfalo.

A invasão resultou em cinco mortes e virou o cartão-de-visitas de um ano em que o mundo flertou, dia sim, outro também, com a insanidade.

No Brasil, onde os lunáticos seguidores de Donald Trump encontraram território propício para estabelecer sua filial, os sinais de deterioração atingiram o ápice em ao menos dois momentos cruciais da história recente.

Um deles foi quando, em abril, o país superou a marca de 4 mil mortes por Covid-19 em um único dia.

Naquele ritmo, a marca de um milhão de óbitos seria ultrapassada, por aqui, antes mesmo de dezembro. Não seria exagero dizer que, se estamos aqui hoje é porque no início do ano a pressão popular por vacinas —a primeira delas tirada a fórceps graças à parceria do governo de São Paulo com um laboratório chinês— dobrou a intransigência de Jair Bolsonaro, até então lobotomizado pelos delírios de assessores do gabinete paralelo que o orientavam a apostar na imunização de rebanho e esquecer as vacinas. Está tudo documentado pelo relatório final da CPI da Covid, o maior documento para a posteridade do que foi o governo Bolsonaro.

Dias antes, um grupo de empresários havia dado um ultimato ao governo, principal indutor do “falso dilema entre salvar vidas e garantir o sustento da população vulnerável”. “O país tem pressa; o país quer seriedade com a coisa pública; o país está cansado de ideias fora do lugar, palavras inconsequentes, ações erradas ou tardias. O Brasil exige respeito”, escreveram os signatários.

Leia também:

A contrariedade do presidente com o próprio recuo, que significou um avanço para meio mundo, pode ser observada em declarações recentes, quando ele esperneou diante da necessidade de o país adotar um passaporte vacinal e voltou a colocar em dúvida a eficiência da vacina, que ele já associou até mesmo ao risco de contaminação por HIV –uma farsa prontamente desmentida por quem consegue ligar lé com cré.

“Falam em vacinar crianças. Grande imprensa, chegue na bula da Pfizer: ‘Não nos responsabilizamos por efeito colateral adverso’. Alguém compraria um carro em que o fabricante dissesse: ‘Olha, se soltar o eixo na Dutra e tiver um acidente, não tenho nada a ver com isso’? Alguém compraria um carro dessa maneira?”.

O fato de a imensa maioria da população ter aderido à vacinação, e não às lorotas presidenciais, mostra que Bolsonaro fala cada vez mais para dentro. Segundo o Ipec, sete em cada dez brasileiros hoje sequer confia no que ele diz.

O número dos que ainda acreditam nele é de 27%, um naco suficiente para provocar trancos e danos na correia da normalidade.

Em 2021, técnicos da Anvisa chegaram a ser ameaçados caso aprovassem a vacinação para crianças, o que só ocorreu em dezembro. Bolsonaro, sabendo disso, agora quer divulgar o nome dos funcionários e os deixar prestar contas sozinhas com os ensandecidos.

A paranoia segue no ar, não sem estragos. Foi o que levou o Brasil a dançar à beira do precipício às vésperas do 7 de Setembro, quando o presidente derrotado na discussão das vacinas encampou a tese de que só o voto impresso garantiria a lisura do processo eleitoral em 2022 e elegeu ministros do Supremo e do Tribunal Superior Eleitoral os inimigos da nação. Uma multidão foi às ruas para dizer que autorizava o presidente a arrebentar as cordas e adiantar, em alguns meses, um ensaio da versão nacional da invasão do Capitólio.

Pode ter faltado apoio para o avanço entre o alto comando das Forças Armadas, do mundo político e do PIB. Mas não faltou vontade do presidente. Bolsonaro recuou com a ajuda de Michel Temer para não ser enquadrado e desde então manteve o ímpeto golpista em stand by. Aqui e ali, o módulo soneca já dá sinais de hiperatividade.

Eis o que disse a Polícia Federal em um relatório enviado ao STF para apurar a conduta do presidente em uma live em que transmitiu todo tipo de insanidade sobre as urnas eletrônicas: “A live presidencial foi realizada com o nítido propósito de desinformar e de levar parcelas da população a erro quanto à lisura do sistema de votação, questionando a correção dos atos dos agentes públicos envolvidos no processo eleitoral (preparação, organização, eleição, apuração e divulgação do resultado), ao mesmo tempo em que, ao promover a desinformação, alimenta teorias que promovem fortalecimento dos laços que unem seguidores de determinada ideologia dita conservado”.

Devastador, né? Mas não a ponto de mover as sobrancelhas de quem poderia impedir o presidente de chegar a 2022 distribuindo coices, sandices e ameaças. Do procurador-geral da República aos próceres do centrão, passando pelos 20% da cota bolsonarista no Supremo, todos parecem ter virado aquele cão do meme que toma seu chá e elogia o clima agradável enquanto a casa pega fogo.

O avanço do retrocesso (sic) não é uma variação de cepa nacional, como mostram a própria invasão do Capitólio (lá, ao menos, controlada) e o retorno do Talebã ao poder no Afeganistão, que deu ao mundo uma nova compreensão do conceito de desespero, com homens agarrados à lataria de aviões em fuga.

Euforia e depressão oscilam como montanha russa nos filmes em módulo forward que acionamos na memória dos últimos meses. Em 2021 milionários foram ao espaço, enquanto aqui embaixo a fumaça e a fuligem escamoteiam os números da destruição ambiental. O metaverso não é mais ficção científica, mas já convive com a sombra de panes que interrompem o fluxo digital das coisas.

Nesse filme em forward há respiros e alívios. Há Rebeccas, Rayssas, Ítalos e outros heróis olímpicos a provar que o Brasil é melhor que Bolsonaro, apesar de Bolsonaro.

A poucos dias do fim do ano, lembramos de quem perdemos, mas olhamos para fora e encontramos uma perspectiva num país com quase 50% da população totalmente vacinada. Esse país agora se reencontra. Junta os cacos. Mas esbarra, já no supermercado, com os preços nas alturas, grupos organizados protestando contra a carestia, a fome de volta ao mapa, a miséria. Estes são os temas que prometem pautar a próxima eleição.

Em 2021 flertamos com o absurdo e agora observamos suas ruínas. Em 2022 o desafio é a reconstrução.

Em tempo. Este colunista se despede deste ano maluco, ao menos por aqui. Voltamos no começo do ano. Sigamos atentos e, na medida do possível, fortes. Sobrevivam.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos