23ª Parada do Orgulho LGBT reúne milhares em São Paulo

SÃO PAULO, SP, 23.06.2019: PARADA-LGBT-2019-SP - Participantes começam a chegar na concentração da 23ª edição da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, no vão livre do Museu de Arte de São Paulo (MASP), na Avenida Paulista, centro da capital, neste domingo (23). O evento, considerado o maior do mundo, contará com 19 trios elétricos, participação de uma ex-Spice Girls e promessa de adotar forte discurso político. A expectativa é de reunir mais de 3 milhões de pessoas, segundo estima a Prefeitura. (Foto: Fábio Vieira/FotoRua/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - “Vote 24! Chapa Eva e Adão, é viadão!", diz a drag Mona Alisa, 21, em seus primeiros cinco minutos na Paulista, o trocadilho seguido de uma gargalhada barítona. Ela deu largada em sua “campanha eleitoral” às 10h deste domingo (23), quando a avenida começava a encher para a 23ª edição da Parada Gay paulista. O evento acontece numa “encruzilhada histórica”, segundo Mona. Por um lado, a comunidade LGBT+ “está aterrorizada com esta família”, diz em referência ao clã Bolsonaro. Para ela, a presidência de Jair Bolsonaro fortaleceu um rebote ultraconservador contra o grupo. Mas nem tudo está perdido, continua. Ela lembra que um dos maiores pleitos LGBT foi enfim atendido: a homofobia e a transfobia entraram no rol dos crimes de racismo após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal). Magali, 60, foi à Parada para acompanhar os dois filhos. Quando eles, primeiro o caçula e depois o mais velho, revelaram que eram gays, ela admite: morreu de medo. “O mundo ainda não vai ser fácil pra eles. Na nossa cidade o pessoal até sabe que eles são [homossexuais], ficam dizendo que tudo bem, desde que não comecem com ‘boiolagem’. Acho triste.” Eles vieram do interior paulista, e os meninos, de 16 e 17 anos, pela primeira vez usavam maquiagem para passear na rua. Até aqui, no máximo, batom só se fosse em festinhas fechadas. Ninguém da família conhecia a revolta de Stonewall, tema desta edição. Há 50 anos, LGBTs de Nova York protestaram contra violentas batidas policiais realizadas num bar da cidade, o Stonewall Inn. Na época, todos os estados americanos consideravam ilegais relações entre pessoas do mesmo sexo. “Ah, tipo o Brasil de hoje, pelo menos na prática”, disse o filho mais novo de Magali. “Para algumas pessoas, parece que ser gay é criminoso.” A parada terá trios comandados por shows de artistas como Iza, Mc Pocahontas, Luísa Sonza, Fantine, Lexa e da drag queen Gloria Groove, entre outras. “A gente resiste, existe, insiste. E arrasa”, afirma Mona Alisa, abrindo o leque nas cores do arco-íris. “Deu até calor.” Entre a multidão -a organização estimou a presença de 3 milhões de pessoas- cheia de cores na Paulista, apesar do tema denso da parada, a política se fazia presente mais no detalhe, fosse em algumas camisetas e pinturas com o bordão eleitoral anti-Bolsonaro #Elenão ou nos aplausos ao STF (Supremo Tribunal Federal) pela criminalização da homofobia. A grande maioria parecia estar no meio de um bloco carnavalesco, ao som de muito funk e axé vindo dos trios. Além das bandeiras do arco-íris, muita gente caprichou nas fantasias para ir à Paulista. E as roupas de super-herói estavam entre as preferidas. "A gente veio trazer alegria. Por isso, a roupa de herói", disse o enfermeiro Márcio Almeida, 29, fantasiado de Thor. Ele veio de Brasília acompanhado de mais sete amigos, cada um com o uniforme de um Vingador diferente. Para ele, em tempo de retrocessos, há sim motivo para comemorar. "Agora homofobia é crime", exemplificou. A drag Jennifer, 31, vestida de mulher-aranha, afirmou que as roupas de herói fazem parte do imaginário como símbolo de combate ao mal. "Nós lutamos contra o preconceito". A presença dos poderosos da Marvel e DC Comics e também a da Polícia Militar não intimidou a grande quantidade de quadrilhas de ladrões que foi à parada apenas para furtar. A reportagem sofreu uma tentativa de furto e presenciou alguns casos em que o os criminosos tiveram sucesso, com vítimas lamentando celulares e carteiras levados. Separados da muvuca que tornava difícil andar pela Paulista, pop stars brasileiros e estrangeiros levantavam o público do alto dos trios. Em um dos carros, Lulu Santos cantava "hoje o tempo voa", da canção Tempos modernos. Em outro, Mel C levou a plateia ao delírio com músicas das Spice Girls, como Wannabe. Por volta das 18h, horário previsto para o fim da Parada, já não havia mais trios elétricos pelas ruas. A rua da Consolação, porém, permanecia tomada pelo público do evento. Parte dele se juntou às pessoas que, nos bares, torciam pela seleção brasileira na Copa do Mundo Feminina de Futebol, em partida contra a França.