No México, candidata indígena luta para fazer parte da eleição presidencial

Cidade do México. Outubro de 2017. Marichuy faz seu registro no Instituto Nacional Eleitoral como pré-candidata independente

Por Carlos Ogaz/ Agência PLANO

Chiapas, México – Em 7 de outubro de 2017, María de Jesús Patricio Martínez entrou para a história ao tornar-se a primeira mulher indígena a registrar candidatura à presidência do México. As eleições acontecem em junho de 2018. Como candidata independente, Martínez representa o Congresso Nacional Indígena (CNI) – formado por varias etnias do país – e tem o apoio do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN). Durante o registro da candidatura no Instituto Nacional Eleitoral (INE) – órgão regulador dos processos eleitorais no México – Martínez declarou que não vai utilizar financiamento do Estado para impulsionar sua campanha.

O processo de registro da candidatura de Martínez aconteceu em meio a diversos obstáculos e falhas técnicas no aplicativo de celular que o Instituto Nacional Eleitoral (INE) disponibilizou como principal ferramenta de coleta de assinaturas. Depois de registrar sua intenção em concorrer, Martínez precisa juntar pelo menos 867 mil assinaturas, em 17 estados do México, para ser considerada oficialmente candidata independente à presidência. Enquanto para o governo a tecnologia ajuda na inclusão, para os povos indígenas o processo é considerado profundamente excludente e discriminatório. Um jovem índio Yaqui, de Vicam Sonora, no norte do país, disse a Martínez no dia de sua passagem pela região: “nós não temos telefones celulares porque mal temos o que comer. O que o INE está fazendo é descriminação, é assim que age o homem branco”. Até o dia 10 janeiro, Martínez e sua equipe haviam conseguido pouco mais de 9 mil assinaturas.

Cidade do México. Novembro de 2017. Marichuy encontra-se com estudantes na Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM)

Marichuy, como Martínez é carinhosamente conhecida, tem 54 anos, é da etnia nahua de Tuxpan, no estado de Jalisco, oeste do México. É esposa, mãe de 3 filhos, feminista, curandeira e gestora de saúde. É uma das fundadoras e integrante do Congresso Nacional Indígena (CNI), frente dos povos originários que promove o respeito aos direitos e a cultura indígena, criado em 1996, em meio à ascensão do Exército Zapatista de Liberação Nacional (EZLN), após o levante armado de 1 de janeiro de 1994.

Em 29 de março de 2001, junto a comandantes zapatistas, Martínez falou em nome das mulheres que tem “a cor da terra do México” durante o evento Congresso da União: “para deixar claro que o processo de integração dos povos indígenas do país é uma tarefa de responsabilidade tanto dos homens como das mulheres, juntos em uma mesma luta”. Desde a fundação da CNI, Martínez é voz ativa na defesa dos povos indígenas e das mulheres.

Ela também é porta-voz do Conselho Indígena do Governo (CIG) que surgiu em Chiapas no mês de maio de 2017, após ser aprovado pelos povos que integram a CNI, que se reuniram nos dias 26,27 e 28 de maio de 2017. Pelo menos 523 comunidades proveniente de 25 Estados do país se juntaram para discutir a formação do CIG. Esses esforços fazem parte da estratégia da própria candidata que não quer ser vista como uma figura individual, mas sim como a voz dos povos originários com maior representatividade do México.

Segundo Martínez, essa participação coletiva na corrida eleitoral se dá ao aumento dos problemas que as comunidades indígenas estão enfrentando: “temos que tonar visível os povos que estão sofrendo e aqueles que estão exterminando os indígenas. Queremos usar as mesmas ferramentas que os políticos usam para que nos escutem e vejam a situação em que estamos vivendo”.

No mês de outubro de 2017, aconteceu o primeiro ato público de Martínez. Em territorio do EZLN, encontrou-se com sua base de apoio e com a população indígena das montanhas da selva de Chiapas. A mensagem no sudeste mexicano foi de união e organização. Martínez também anunciou uma turnê nacional para que “povos, coletivos, organizações e também grupos não organizados nos vejam, todos juntos e sem medo, e se identifiquem com o reflexo de nossa imagem”

Em 28 de novembro, a turnê de Martínez chegou a Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM). Diante de milhares de pessoas, em sua maioria estudantes, fizeram um apelo para que a universidade esteja a serviço do povo, e não dos operadores da destruição do país. Em ato marcado pelas referências político-culturais, Martínez e os membros da CIG também chamaram a atenção para a necessidade de “descolonização do pensamento” no México.

Em meio ao racismo que cresce na sociedade mexicana, a pré-candidatura de Martínez mostra que, apesar das adversidades, os indígenas continuam caminhando juntos para reconstruir a força dos povos originários.