3 meses depois, chuvas em SP trazem o pavor de nova tragédia em Paraisópolis

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Chuvas: Em outubro de 2021, um prédio desabou após as fortes pancadas em Paraisópolis. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
Chuvas: Em outubro de 2021, um prédio desabou após as fortes pancadas em Paraisópolis. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

“Quando chove forte, mesmo de madrugada, pegamos o meu filho, que não consegue caminhar, e vamos logo embora para qualquer lugar, menos essa casa”, conta a ex-soldadora Luzia, moradora de Paraisópolis há 15 anos. Com a pequena casa de dois cômodos construída em 2 andares quase sobre as águas do córrego Antonico, Luzia recebeu a orientação de deixar o imóvel da própria Defesa Civil.

As colunas da casa estão permanentemente úmidas, e a fundação está sendo escavada pelas águas do córrego, ameaçando a casa de ruir a qualquer momento, lembrando a tragédia ocorrida em outubro do ano passado.

“Da muito medo, e estou cansada dessa humilhação; só Deus dá forças para aguentar”, reclama.

Chuvas: Luzia e o marido Ricardo Navarro na mesma casa em que vivem há 15 anos, na favela do Paraisópolis. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
Chuvas: Luzia e o marido Ricardo Navarro na mesma casa em que vivem há 15 anos, na favela do Paraisópolis. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

Com a casa condenada, Luzia recebeu a oferta de um auxílio-aluguel de R$600 da prefeitura, mas não aceita temendo que o auxílio seja cancelado e ela fique sem casa. “Meu sonho é sair daqui e comprar alguma segura, mas ir para casa de outra pessoa com uma criança deficiente é arriscado demais”, avalia.

A poucos metros dali, o professor de karatê Francisco Diniz convide com sentimento igual. “Cada vez que chove um pouco mais forte ficamos apavorados por aqui; a água de toda a vizinhança escoa direto pro córrego, que enche muito rápido e leva o que estiver no caminho”, diz.

Foi diante da academia do paraibano que um prédio de três andares tombou no ano passado, soterrando seis outras casas

Luzia e filho mais novo, na beira do córrego que passa na porta de casa. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
Luzia e filho mais novo, na beira do córrego que passa na porta de casa. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

O imóvel de Diniz não enche por causa da elevação instalada estrategicamente, ao contrário do que ocorre com o vizinho Alexandre de Jesus, dono de um pequeno bar na rua Tajubaquara.

“Tenho essa comporta que impede a água de entrar, mas toda vez que chove um pouco mais, sobe água pelo vaso sanitário, ralo do banheiro, porque nao tem esgoto encanado”, conta o jovem de 20 anos, que desabafa: “Confesso pra você que dessa última vez, na terça-feira, eu parei tudo e chorei”.

Alexandre reclama também do lixo e sujeira que ficam acumulados após o recuo das águas sujas do córrego do Antonico, que passa sob imóveis do outro lado da rua, há pouco mais de 2 metros da sua porta.

“Agora vem as crianças brincar nessas poças, essa sujeirada, esse cheiro… foi demais isso”, lamenta e complementa: “ninguém deveria viver numa condição dessas”.

“Tenho essa comporta que impede a água de entrar, mas toda vez que chove um pouco mais, sobe água pelo vaso sanitário, ralo do banheiro
“Tenho essa comporta que impede a água de entrar, mas toda vez que chove um pouco mais, sobe água pelo vaso sanitário, ralo do banheiro", conta Alexandre de Jesus, dono de um pequeno bar. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

Tragédia não superada

Vizinho do córrego que transborda toda vez que a chuva é mais intensa, Herisvaldo Oliveira já quer viver longe dessa condição. Ele conta que desde o começo de 2020 planeja voltar para a Bahia, onde vive a família, mas a pandemia atrasou os planos, o mantendo na casa de um cômodo cujos fundos margeia o córrego.

“Tinha até uma janela que retirei por segurança – tanto de água quanto de gente que circula por aqui”.

Por conta do risco constante, quem tem um pouco mais de condições não vive às margens do córrego, que acaba reunindo o grupo mais vulnerável em meio a uma população já fragilizada. O entorno da casa de Oliveira é apelidado de Cracolandia por moradores da comunidade.

Em outubro do ano passado, um prédio de três andares desabou durante chuvas fortes, soterrando seis casas. O incidente deixou uma pessoa morta ao menos cinco feridos. Cinquenta bombeiros com a ajuda de um cão trabalharam no resgate das vítimas.

Herisvaldo Oliveira no entorno de sua casa, apelidado de Cracolândia por moradores da comunidade. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
Herisvaldo Oliveira no entorno de sua casa, apelidado de Cracolândia por moradores da comunidade. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

“Tenho muito medo que isso volte a acontecer e as famílias que moram por aqui percam tudo, até mesmo a vida”, comenta Diniz.

Os mais de 100 mil moradores da favela, uma das maiores do Brasil, vivem amontoados em uma densidade populacional de 45 mil habitantes por quilômetro quadrado — maior do país.

Pequenos imóveis são construídos uns sobre os outros na tentativa de aproveitar ao máximo o limitado espaço. Ao redor, prédios de luxo e mansões contêm a expansão da favela.

Sobre o Antonico, a prefeitura estima que cerca de 1.500 famílias moram sobre o córrego, muitas em prédios semelhantes ao que desabou há três meses, o que acende o alerta na região.

“Cada vez que chove um pouco mais forte ficamos apavorados por aqui
“Cada vez que chove um pouco mais forte ficamos apavorados por aqui", diz o professor de karatê Francisco Diniz. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

O que diz a Prefeitura de São Paulo

Em nota ao Yahoo Notícias!, a Prefeitura de São Paulo informou que apresentou "no último fim de semana duas alternativas de atendimento habitacional definitivo para as famílias que possuem moradias sob e no entorno do Córrego Antonico, área de alto risco". 

As famílias, segundo a adminstração municipal, poderão optar pelo auxílio-aluguel no valor de R$ 600 até receberem uma unidade habitacional, ou pela indenização correspondente ao valor do imóvel que será desapropriado.  

Ao todo, já foram lacradas e seladas 482 moradias localizadas em regiões de áreas com elevado risco de inundação e desabamento, e as respectivas famílias cadastradas, entre no início de janeiro. 

O plantão social para eventuais dúvidas, esclarecimentos e solicitações, segue de segunda à sexta-feira, na Av. Hebe Camargo, 99, das 9h30 às 15h30.

Sobre as obras de intervenção, a Prefeitura de São Paulo alega que só podem ser iniciadas depois que as famílias deixarem a suas casas e as construções forem removidas. 

Luzia:
Luzia: "Dá muito medo, e estou cansada dessa humilhação; só Deus dá forças para aguentar". (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

No momento, a prefeitura já realiza uma obra de drenagem no mesmo córrego, mas no trecho que não está dentro da comunidade.

A construção de dois reservatórios está em fase de projeto, segundo a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras, na intenção de reduzir os impactos causados pelas fortes chuvas na Bacia do Córrego Antonico, além de galerias fechadas. 

Os projetos serão concluídos até o final de fevereiro, com investimento de R$ 1,5 milhão.

No âmbito da Assistência Social, a prefeitura relatou que no desabamento ocorrido em outubro do ano passado, a Supervisão de Assistência Social do Campo Limpo atendeu 18 famílias atingidas de forma direta, cerca de 50 pessoas, fornecendo materiais de primeira necessidade, atendimento social e de diferentes demandas. 

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