300 mil mortes por Covid-19 no Brasil: país atinge marca após ano de táticas fracassadas

Redação Notícias
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Military policemen receive with full honors the arrival of the coffin that contains the remains of Sgt. Jorge Luis Pereira da Silva, 54, who died from COVID-19, at the Campo da Esperanca cemetery in Brasilia, Brazil, Tuesday, March 23, 2021. The nation had an average of 2,235 deaths a day last week – the highest since the beginning of the pandemic. (AP Photo/Eraldo Peres)
Policiais militares recebem com todas as honras a chegada do caixão que contém os restos mortais do sargento. Jorge Luis Pereira da Silva, 54, falecido de COVID-19, no cemitério do Campo da Esperança em Brasília, Brasil, terça-feira, 23 de março de 2021. (AP Photo / Eraldo Peres)
  • Brasil superou, nesta quarta (24), o número de 300 mil mortes em decorrência da Covid-19

  • Marca foi atingida exatamente um ano e uma semana após o registro do primeiro óbito no país

  • Especialistas analisaram quais foram os fatores que levaram o país a chegar no atual patamar

Um ano e sete dias após o registro da primeira morte por Covid-19, o Brasil chegou nesta quarta-feira (24) ao número de 300 mil mortes registradas pela doenças. A marca foi atingida numa semana em que o governo federal empossou seu quarto ministro da saúde e o número diário de óbitos ainda não dá sinal de arrefecer. 

A marca de óbitos foi alcançada na tarde desta quarta, apesar de o Ministério da Saúde ter modificado os critérios para contagem de óbitos.

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Desde o início de março, o país registra uma escalada brutal nas estatísticas de óbitos por coronavírus, tendo batido o recorde na noite de terça, com mais de 3.000 mortes sendo notificadas em 24 horas. Nesta tarde, o consórcio de veículos de imprensa que realiza monitoramento independente dos números da Covid-19, indicou que o país já tem 300.015 pessoas mortas pela doença.

ATUAÇÃO DO GOVERNO FEDERAL NO COMBATE À PANDEMIA

Ao longo dos últimos meses, especialistas criticaram o desempenho do governo federal e apontando-o como fator majoritário para o estabelecimento da situação de calamidade que a pandemia instalou no país.

Para entender o que poderia ter sido diferente na condução da resposta do Brasil à Covid-19, a reportagem conversou com dois especialistas que estavam participando da criação de políticas públicas no país e se viram boicotados ou ignorados pelo governo em suas recomendações.

Um deles foi o infectologista Júlio Croda, professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e da Escola de Saúde Pública de Yale, e ex-diretor do Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde.

DISTANCIAMENTO SOCIAL

Croda desenhava a política de enfretamento da pandemia antes de se demitir, em 25 de março de 2020, quando o ministro da Saúde ainda era Luiz Henrique Mandetta. Ele afirma que o primeiro grande erro do presidente Jair Bolsonaro foi bloquear a adoção de uma política nacional de distanciamento social.

— Nós queríamos dividir o Brasil em regiões de saúde e ter desenvolvido indicadores epidemiológicos claros, que estariam associados com medidas restritivas a serem adotadas, de acordo com gravidade da incidência, ocupação de leitos, capacidade de testagem, capacidade de rastreamento de contatos e isolamento — conta o médico. — Isso não foi feito, e foi o grande motivo de eu ter saído do ministério.

Até hoje, o Planalto resiste a tomar para si a coordenação de medidas de distanciamento e até busca impedir governadores de fazê-lo. Segundo Croda, no atual momento da pandemia, seria essencial que essa mentalidade mudasse, mas ele diz não acreditar nessa possibilidade.

USO DE MÁSCARAS

A resistência do presidente em usar máscara facial e preconizar seu uso, e a insistência em promover aglomerações, contra a recomendação de sanitaristas, ainda tem efeito na taxa de transmissão do vírus.

O Brasil diagnosticou até agora 12.183.338 pessoas com a Covid-19, e nas últimas 20 horas teve mais de 46.663 caosos registrados (incluindo os não letais).

COMPRA DE VACINAS

Além da resistência a políticas de contenção da transmissão. Outros problemas se manifestaram na condução da resposta à pandemia no país. Entre eles estão a gestão descuidada de aquisição de vacinas e de insumos médicos para o tratamento dos doentes graves de Covid-19.

— Estados e municípios não tem autonomia para esse tipo de aquisição quando existe falta dos produtos em escala nacional — diz Croda. — Como essa falta é generalizada, a coordenação para suprir essas necessidades deveria ser em nível federal.

Outra especialista que participava da elaboração de políticas públicas para a Covid-19 foi a epidemiologista Ethel Maciel, professora da Unifersidade Federal do Espírito Santo, que era integrante do painel de consultores que subsidiavam o plano nacional de vacinação contra a Covid-19.

Quando o plano foi divulgado sem incluir as recomendações do grupo, Ethel foi uma das especialistas que alertou sobre o distanciamento do projeto das recomendações dos especialistas.

Uma iniciativa mais precoce de negociação para compra de vacinas, diz a epidemiologista, poderia ter colocado um contingente maior da população sob proteção antes da escalada brutal da segunda onda da Covid-19 no país.

Cemetery workers in full protective gear carry a coffin that contains the remains of a person who died from complications related to COVID-19 as a bulldozer move earth to prepare more burial sites at the Vila Formosa cemetery in Sao Paulo, Brazil, Thursday, March 11, 2021. One year after the World Health Organization officially declared the spread of the coronavirus a pandemic, Brazil is reporting almost 2,000 deaths per day. (AP Photo/Andre Penner)
Trabalhadores do cemitério com equipamento de proteção completo carregam um caixão que contém os restos mortais de uma pessoa que morreu de complicações relacionadas ao COVID-19 quando uma escavadeira moveu terra para preparar mais cemitérios no cemitério de Vila Formosa em São Paulo, Brasil, quinta-feira, 11 de março, 2021. (AP Photo / Andre Penner)

— Nós não chegamos a 300 mil mortos por acaso, nos chegamos a essa marca por uma incopetencia da condução da crise sanitária no Brasil — diz Maciel, que desistiu de colaborar com o Ministério da Saúde.

— Se o governo tivesse ouvido a ciência, teria feito aquele acordo com a Pfizer para 70 milhões de doses, teria feito o contrato com o Butantan mais cedo, teria ido atrás da Janssen que desde cedo diziamos ter uma vacina importante e estratégica, por ser de dose unica — afirma a pesquisadora.

Segundo os números desta tarde, porém, apenas 2% da população brasileira já está plenamente imunizada, com duas doses, o que é pouco ainda para um efeito perceptível na velocidade da pandemia.

Croda, hoje trabalhando como consultor para os governos de São Paulo e Amazonas, afirma que, aparentemente, a dinâmica da pandemia não tem sido bem explorada pelo Ministério da Saúde para planejamento.

— É preciso usar cálculos matemáticos dos números de casos graves para ver como a pandemia vai se comportar nos próximos dias e semanas. Mas eu não estou mais no ministério e não sei se estão fazendo isso de forma sistemática — afirma Croda. — Mas a gente sabe que foi cancelada em outubro passado uma aquisição de kits de intubação, que estão em falta agora. Se estivessem trabalhando nos modelos matemáticos e acreditassem nessas projeções, eles poderiam tem efetivado essas compras.

A marca de 300 mil atingida hoje já é 67% maior do que a projeção mais pessimista de Croda à época de sua atuação no ministério. Em abril do ano passado, ele estimou que o Brasil poderia atingir 180 mil óbitos por Covid-19 até o início de uma campanha robusta de vacinação.

ERROS DO GOVERNO FEDERAL 

Para o professor e infectologista, foi um erro o governo ter acreditado por tanto tempo que o país poderia ter atingido um estado de imunidade coletiva por meio de infecções naturais.

O vírus sofreu mutações importantes, e a gente viu uma segunda onda terrível no Amazonas na primeira quinzena de janeiro — conta. — Naquele momento, a gente passou a ter certeza de que essa teoria da imunidade de rebanho não poderia permanecer.

Uma crença insustentável de que a disseminação do vírus, em vez da contenção, poderia ser positiva para o país, diz Croda, pode ter sido responsável por uma parcela importante das 300 mil mortes ocorridas até agora.

IDEOLOGIA

Para ele, o governo federal herdou muito da hostilidade que o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, tinha em relação à OMS e à China, o que comprometeu a política local contra Covid-19.

Bolsonaro tem se mostrando mais amigável agora à ideia da vacinação em massa, ao menos em discurso, e o Ministério da Saúde tirou o pé do acelerador da política de promoção de medicamentos ineficazes contra a Covid-19.

RIO DE JANEIRO, BRAZIL - JANUARY 07: Relatives attend a burial of a Covid-19 victim at the Sao Francisco Xavier cemetery on January 7, 2021 in Rio de Janeiro, Brazil. Brazil has registered over 7.8 million confirmed cases of the virus since the pandemic began, while the official death toll from COVID-19 is nearing 200,000, the second highest in the world. (Photo by Andre Coelho/Getty Images)
Parentes assistem ao enterro de uma vítima de Covid-19 no cemitério de São Francisco Xavier em 7 de janeiro de 2021 no Rio de Janeiro, Brasil. (Foto de Andre Coelho / Getty Images)

Croda, porém, não crê que a mudança de mentalidade necessária para frear a pandemia esteja em curso, mesmo com a entrada do novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga.

— Isso ainda não se traduziu numa recomendação ampla para as mediads de distanciamento social e numa campanha de comunicação mais ampla para adoção dessas medidas — diz o infectologista.

COMUNICAÇÃO

Para Croda, a política de comunicação para Covid-19 foi uma das mais nocivas para o trabalho de combate à doença, porque sabotou tentativas de educar a população para o comportamento correto contra o vírus, incluindo o uso de máscara.

— Isso foi feito principalmente por meio de fake news nas redes sociais, com mensagens de desrecomendação das medidas apoiadas pela evidência científica e pela OMS. — afirma Croda, que vê nessa estratégia uma brecha para o governo tentar se eximir do erro. — Isso foi orquestrado por apoiadores do presidente. Em vez de campanha para informar, existia uma campanha para desinformar.

da Agência O Globo