365 dias e 250 mil mortes depois: há um ano, pandemia do coronavírus chegou no Brasil

Anita Efraim
·6 minuto de leitura
TOPSHOT - A workers wearing a protective suit and carrying an umbrella walks past the graves of COVID-19 victims at the Nossa Senhora Aparecida cemetery, in Manaus, Brazil, on February 25, 2021. - Brazil surpassed 250,000 deaths due to COVID-19. (Photo by MICHAEL DANTAS / AFP) (Photo by MICHAEL DANTAS/AFP via Getty Images)
Pandemia de coronavírus já vitimou mais de 250 mil brasileiros. Imagem mostra trabalhador no cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus (Photo by MICHAEL DANTAS / AFP) (Foto: Michael Dantas/AFP via Getty Images)

Em 26 de fevereiro de 2020 a pandemia do coronavírus desembarcou oficialmente no Brasil. Há um ano, o Ministério da Saúde confirmava o primeiro caso de covid-19 no país. Um homem em São Paulo, que chegava da Itália, teve o diagnóstico confirmado. Era o primeiro no Brasil e em toda a América Latina.

Dias depois da chegada da doença ao Brasil, em 11 de março que a Organização Mundial da Saúde decretou que o coronavírus havia gerado uma pandemia – que até hoje não acabou.

Alguns brasileiros já se preocupavam os a pandemia quando o foco ainda estava em Wuhan, na China, e na região da Lombardia, na Itália. Outros, tal qual o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), minimizaram a gravidade da pandemia. Bolsonaro chegou a dizer que o coronavírus mataria cerca de 800 pessoas no país, além de ter chamado a doença de gripezinha.

Com os primeiros sinais da pandemia no país, comércios e centros de compras começaram a fechar.

MonitoraCovid-19, ferramenta da Fiocruz, mostra evolução dos casos de coronavírus no Brasil (Foto: Reprodução/MonitoraCovid-19)
MonitoraCovid-19, ferramenta da Fiocruz, mostra evolução dos casos de coronavírus no Brasil (Foto: Reprodução/MonitoraCovid-19)

A PRIMEIRA MORTE NO BRASIL

Os brasileiros souberam da primeira morte por coronavírus no país em 16 de março. Tratava-se de um homem de 62 anos, que estava internado no Hospital Sancta Maggiore, na cidade de São Paulo. Ele tinha diabetes e hipertensão, doenças denominadas “comorbidades”.

No dia seguinte, em 17 de março, houve uma das mortes mais emblemáticas da pandemia, a de uma empregada doméstica no Rio de Janeiro. A patroa estava infectada, mas se negou a liberar a funcionária, de 63 anos, que tinha problemas de saúde. A mulher contraiu o coronavírus, teve os primeiros sintomas em 15 de fevereiro e, dois dias depois, morreu.

Em junho, o Ministério da Saúde informou que, na realidade, a primeira morte havia acontecido em 12 de março, também em São Paulo. A vítima era uma mulher de 57 anos que estava internada no Hospital Municipal Doutor Camino Cariccio, na Zona Leste da capital paulista.

Muitos chamaram o microbiologista Atila Iamarino de alarmista e acreditavam que o número de mortes por coronavírus seria pequeno. Em menos de um ano, em 24 de fevereiro de 2021, o Brasil passou a marca de 250 mil mortes por covid-19 no país.

Os números podem estar subnotificados, mas são recolhidos com as secretarias estaduais de saúde pelo Consórcio de Veículos de Imprensa, formado por G1, O Globo, Extra, O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo e UOL. Isso porque o Ministério da Saúde do governo Bolsonaro parou de divulgar os números de casos e óbitos ligados ao coronavírus.

MonitoraCovid-19, ferramenta da Fiocruz, mostra evolução das mortes por coronavírus no Brasil (Foto: Reprodução/MonitoraCovid-19)
MonitoraCovid-19, ferramenta da Fiocruz, mostra evolução das mortes por coronavírus no Brasil (Foto: Reprodução/MonitoraCovid-19)

INSUMOS BÁSICOS

No início da pandemia, não se sabia ainda que a máscara era essencial para que as pessoas não se infectassem. A primeira recomendação era que apenas aqueles com suspeita de infecção usassem o EPI – sigla pouco ouvida antes e, agora, bastante popular: equipamento de proteção individual.

Hospitais enfrentaram grande dificuldade por falta de máscaras e luvas descartáveis no mercado. O álcool gel também chegou a ficar em falta. Isso levou o item a ganhar uma textura diferente, um pouco grudenta, pela falta de um polímero usado na produção do álcool em gel.

Como tempo, começaram a ser produzidas as máscaras de pano. Assim, a população deixou de comprar as máscaras cirúrgicas para que elas fossem utilizadas pelos profissionais de saúde.

As máscaras também se tornaram motivo de diversas brigas na sociedade. Atualmente, diversos locais públicos não permitem que qualquer cidadão deixe de utilizar a máscara. No entanto, autoridades, como o presidente Jair Bolsonaro, optam por não usar o item. Há outros casos conhecidos, como do deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), que agora está preso, que saiu escoltado de um avião por se recusar a usar a máscara.

TROCA DE MINISTROS

Ao longo da pandemia, o Brasil teve três ministros da Saúde. O primeiro deles foi Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), que ficou no posto desde o início do governo Bolsonaro até abril de 2020. O ponto de divergência entre presidente e ministro, que gerou a demissão de Mandetta, foi o chamado “tratamento precoce”.

Jair Bolsonaro queria que pacientes com covid-19 internados na rede pública com casos leves fossem medicados com cloroquina ou hidroxicloroquina, remédio para malária. Naquele momento, não havia comprovação científica de que o remédio era eficaz. Atualmente, há comprovação científica de que o remédio é ineficaz. Médico, Mandetta se recusou.

O substituto foi Nelson Teich, também médico. No entanto, ele ficou menos de um mês no cargo e pediu demissão. O motivo foi o mesmo: Bolsonaro queria emplacar o amplo uso de hidroxicloroquina em pacientes com covid-19 e Teich se recusava a assinar a portaria que permitiria a medida.

A escolha de Bolsonaro foi, então, por um militar da ativa, Eduardo Pazuello, que não é médico. Pazuello foi apresentado como um especialista em logística. Ele aceitou assinar o documento para medicar qualquer paciente com covid-19 com hidroxicloroquina e apoiou o “kit covid”. A caixa, entregue em postos de saúde, tinha outros remédios ineficazes contra a covid, como a ivermectina, remédio para vermes.

Pazuello segue no posto. A cloroquina se provou ineficaz e o ministro mostrou que tem problemas com logística, como no episódio em que trocou as doses de vacina de Amazônia e Amapá.

VACINAÇÃO

O início do fim da pandemia, para muitos, é a vacinação. A primeira pessoa a ser vacinada no mundo ocidental foi Margaret Keenan, de 90 anos, no Reino Unido. Ela recebeu a primeira dose da vacina da Pfizer em 8 de dezembro de 2020.

No Brasil, a primeira vacinada foi Mônica Calazans, de 54 anos. Mulher, negra e enfermeira, ela recebeu o imunizante da CoronaVac, produzido pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês SinoVac. Mônica recebeu a primeira dose em 17 de janeiro, mesmo dia em que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso emergencial do imunizante. Em 12 de fevereiro, ela recebeu a segunda dose.

A vacina gerou um conflito político entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Foi o tucano quem negociou a parceria entre Butantan e Sinovac, para a produção da vacina contra o coronavírus no Brasil.

Por diversas vezes, Bolsonaro diminui a vacina chinesa e disse que não tomaria. O presidente fez piada com o imunizante quando a eficácia apresentada foi de 50,4%, perto do mínimo necessário para ser aprovada pela Anvisa.

Após muito relutar, o governo federal assinou documentos para comprar 100 milhões de doses da CoronaVac. Há, também, acordos do Ministério da Saúde para adquirir vacinas da Oxford/AstraZeneca, que também ganhou aprovação de uso emergencial pela Anvisa.

O Brasil aprovou ainda o uso amplo da vacina da Pfizer, usada em países como Estados Unidos e Israel, além da União Europeia. No entanto, o governo Bolsonaro não aceitou os termos da Pfizer para a compra da vacina e a negociação está estagnada.

Até quinta-feira, 25 de fevereiro, o Brasil vacinou 6,1 milhões de pessoas com a primeira dose, equivalente a 2,92% da população. Enquanto 1,5 milhão de pessoas já receberam as duas doses, equivalente a 0,75% dos brasileiros.